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O que tocavam os DJs das primeiras festas de música eletrônica em São Paulo

A partir dos anos 90, DJs como Mau Mau e Anderson Noise foram introduzindo as tendências do techno a um público ainda acostumado ao padrão das discotecas.

Eduardo Ribeiro

Eduardo Ribeiro

Este é um conteúdo publieditorial criado pela VICE em parceria com Absolut Vodka.


DJ Mau Mau, o cara que apostou no techno e abriu caminhos para as festas de música eletrônica em São Paulo. Foto: Divulgação

Na linha do tempo da história da música eletrônica em São Paulo é possível delimitar, sem chute na trave, o período de construção desse cenário até a explosão dos primeiros grandes festivais. A cultura clubber nasce em 1994, com o surgimento do Hell's Club, o primeiro after hours e festa exclusivamente voltada à eletrônica da cidade, e se consolida em 1999, com a abertura do Manga Rosa, clube que tirou o techno, a house, o trance e suas subvertentes do nicho dos inferninhos e os apresentou para um público mais abrangente. Tanto, que no ano seguinte à inauguração do Manga, ocorreu a primeira grande rave urbana em solo paulistano, no Autódromo de Interlagos, reunindo cerca de 20 mil pessoas. Um recorde para a época.

Entre uma coisa e outra, fatos importantes definiram a penetração da eletrônica no circuito notívago. A começar pela vinda do DJ francês Laurent Garnier a São Paulo, no ápice da carreira, por iniciativa da própria turma do Hell's. Ele tocou no Hell's, mas o que pagou a sua primeira passagem pelo Brasil, em 96, foram mesmo as apresentações extras que ele fez no Latino e no Sound Factory. Garnier ficou tão pirado com a receptividade e a empolgação do público daqui que inclusive grifa o momento em sua biografia, assinada pelo jornalista David Brun-Lambert. Mas não só isso, o renomado DJ e produtor chegou até a compor uma música em homenagem aos clubbers paulistanos, chamada "Rachando o Bico".

"Ele veio tocar aqui por um preço ridículo só porque queria conhecer o país, mostrar o trabalho dele, divulgar", relembra Mau Mau, o então DJ residente do Hell's Club. "Não tínhamos grana nem pra pagar o hotel dele, então o vendemos pra outros clubes. 'Rachando o Bico' era uma expressão que ele ouvia a gente falando, né, aí achou engraçado. Ele tinha acabado de ganhar vários prêmios como DJ, nem acreditamos quando ele topou vir", conta. E foi justamente esse primeiro contato que acabou proporcionando ao Mau Mau a sua primeira ida ao Velho Continente. "Para retribuir, minha primeira turnê pela Europa foi promovida por ele. Toquei no festival Transmusicalis, na França, eu e a Nação Zumbi, um pouco antes da morte do Chico Science", revela Mau Mau.

Mas nessa época ainda não era comum existirem casas ou festas inteiramente dedicadas à eletrônica. Por mais que lugares como o Moinho Santo Antônio, na Mooca, colocassem os mauricinhos e patricinhas para dançar ao som de Chemical Brothers, o bate-estaca disputava espaço nos sets com hits de FM como "Garota Nacional", do Skank. Mas quando o Sirena abriu em Maresias, nesse mesmo período, emergem os indícios de que a eletrônica estava escapando pelas ramificações do underground em direção ao mainstream. Logo, a MTV abraça a causa e inclui na programação clipes de nomes como Prodigy, Daft Punk e Underworld e, com a disseminação do techno, do drum'n'bass e do trance, surge na Vila Olímpia, em 98, o Lov.E Club & Lounge. Principalmente as festas do DJ Marky, às quintas, e o after Paradise, às sextas, inseriram o bairro até então distante do circuito convencional na onda do dancefloor. Foi nesse contexto que o Manga Rosa apareceu, também na Vila Olímpia, fazendo com que a música eletrônica assumisse todo o seu potencial para atrair um público maior, que não fosse exatamente formado pela galera do seleto universo alternativo.

Clubes como o Columbia, onde acontecia o Hell's, e o Manga, no entanto, tiveram sua importância moldada pela atuação dos DJs que neles se apresentavam. Do contrário, seriam apenas discotecas comuns. Para sacar mais detalhes de como era o clima naqueles tempos, conversamos com dois DJs de forte reputação no Brasil, o Mau Mau e o Anderson Noise. Chega mais:

DJ MAU MAU

Thump: Conta um pouco sobre a sua vivência na cena underground até se tornar DJ residente do Hell's.
DJ Mau Mau: Antes de começar a discotecar, eu era dançarino de break. Eu fazia street dance, dançava na São Bento [a praça no centro de SP, considerada por muito o berço do street culture da cidade]. Então eu tinha uma coisa muito forte com o hip-hop. Na verdade, eu sempre fui eclético, sempre curti tudo. Por exemplo, na minha infância, eu cresci ouvindo rock progressivo com o meu irmão. Nunca fui radical com estilos. Sempre tentei absorver tudo e captar o melhor de cada. E quando eu dançava break, fiz vários shows, participei de grupos, espetáculos.

Você se afastou do hip-hop depois que começou a tocar techno no Hell's Club?
Na época do Hell's, que era segmentado pro techno, eu ainda tocava em noite de hip-hop, em outros clubes, pra outra galera. Fazia também noite de house. Sempre acreditei que dá pra fazer diferente procurando o melhor de cada estilo, pra não ficar limitado. Mesmo no Hell's, eu começava os sets com algo mais tranquilo. Tocava aquele techno pesado da época, mas também tocava outras coisas.

Sua carreira como DJ profissional começou aonde e tocando o quê, exatamente?
Eu comecei discotecando rock, rock alternativo e EBM no Madame Satã. Iniciei lá, acompanhando esse estilo que já estava um pouco desgastado na época. Já não era novidade, foi uma época em que o Madame perdeu um público, no comecinho de 96. Entrei tocando essas coisas, mas já pensando em mudar aos poucos pras coisas que estavam pegando na época. Estava no auge o hip hop, que era uma coisa muito diferente do que aquilo que tocava no Madame Satã, e estava explodindo também o acid house pela Europa. Aí eu comecei a introduzir essas coisas no meio da seleção de rock.

Você se lembra dos primeiros raps que tocou no Madame? O público não torceu o nariz?
Lembro, sim: LL Cool Jay, Run DMC e Beastie Boys. Esses artistas estavam no auge na época e não tinha lugar em São Paulo que tocasse a não ser o Cais, que tinha o Arthur Veríssimo e o Zegon tocando hip hop. E eu me lembro que a primeira vez que toquei isso no Madame o pessoal achou ruim, foi uma coisa... Mas com o tempo foi rolando e consegui levar um público novo pro Madame. Aí nessas eu acompanhei toda a evolução da música eletrônica por aqui, pois meu trabalho sempre foi ligado a novas tendências. Então eu acompanhei o começo da house, do acid house, depois peguei o começo do techno, e até do trance, estilo que toquei no Sra. Krawitz.

Como você se ligou que dava pra fazer dar certo uma noite só de música eletrônica em SP?
Quando fiz a minha primeira viagem pra Europa, caiu a ficha de que lá as noites eram mais segmentadas. Aí a ideia de fazer o after do Hell's foi justamente pra tentar criar uma festa só de música eletrônica. No primeiro ano do Hell's isso não deu muito certo, não, viu. Ainda tinha que dar uma misturada, tocar umas coisas que as pessoas já conheciam de outros lugares, pra pista funcionar. Mas depois a coisa engatou e explodiu. Teve também um fato importante no Hell's que eu acho que ajudou a consolidar o seu nome e atrair o interesse das pessoas pra saber o que acontecia lá, que foi o lance da moda envolvida com a marca Hell's. A gente teve a ideia de fazer uma marca de roupas, jaquetas... começou com uma camiseta e, de repente, já tinha uma coleção toda com a marca Hell's. E as pessoas começaram a enlouquecer. Foi um conjunto de ideias que fez acontecer.

O Hell's Club não chegou a embarcar nas tendências além do techno, tipo o trance?
Já pro final do Hell's, o techno mais hard não era novidade. Mas aí o Hell's acabou e ficou essa imagem forte.

Que sons que marcaram o período do Hell's na sua discotecagem?
"Rolling Scratchin", do Daft Punk, que virou hino no Hell's; "Galaxy 2 Galaxy", do Underground Resistance, que também virou hino no Hell's; e "Nervous Breakdown", do Ian Pooley, tech-house alemão da gravadora Force Inc., uma das pioneiras da vertente na época.

ANDERSON NOISE

Foto: Arquivo pessoal/Anderson Noise. DJ em ação no antigo Manga Rosa

Thump: Em que pé estava a sua carreira como DJ quando você virou residente no Manga?
Anderson Noise: Na época do Manga eu estava num momento bom da carreira, era um momento bem legal. Comecei a tocar lá porque sempre tive muita amizade com os donos, eles gostavam muito do meu som, e também com o Claudinho I, que era o residente semanal. Esse relacionamento acabou dando na minha residência mensal. E era muito bacana porque o after hours rolava de sexta-feira, e, quando acabava, parecia que estava começando a semana, porque era pleno sábado. Isso era uma qualidade favorável da história. E a coisa do Manga Rosa era muito legal porque a galera era, pra época, totalmente diferente do pessoal que ia nos clubes que já faziam mais sucesso em São Paulo. Era um público bem diferente. Então era muito prazeroso tocar ali, naquela época em que a música eletrônica, o techno, estava forte no Brasil, logo depois do auge do drum'n'bass. Techno e trance.

O tipo de techno que você tocava seguia a mesma linha do Claudinho I?
Eu acho que o Claudinho I e eu nos diferenciávamos mais pelo fato de que eu tocava um techno mais pesado do que o dele. Mas o techno dele era de muita qualidade.

Quais eram as faixas mais recorrentes nos seus sets desse período no Manga?
Nessa época eu tocava Dave Angel, Chris Liebing, Marco Bailey e Futureheads bastante. Esses artistas eram os mais fortes e tudo isso entrava no meu set.

Apesar de você ser de Belo Horizonte, durante o tempo em que foi residente do Manga você estava morando em São Paulo, não é?
Sim, é isso mesmo. Eu morei em São Paulo durante 12 anos, fiquei até 2013. Mas é como se eu ainda morasse, porque toda semana eu estou na cidade. Me considero um quase paulistano, porque eu adoro a cidade, já participei e estive em muitos clubes e festas de São Paulo. São Paulo é a cara do techno, essa coisa urbanoide combina muito.

Que outras memórias positivas você tem do Manga Rosa?
Um lance legal do Manga Rosa é que eles também faziam festas fora do clube. Toquei numas quatro ou cinco festas dessas do Manga. Em galpões e espaços que eles alugavam.

O seu set na #AbsolutNights vai ser mais nostálgico ou mais atual?
Vou tocar alguma coisa antiga, mas acho que o grande lance, também, é mostrar o som que estou tocando agora também, pra traçar um panorama de onde eu saí e aonde eu cheguei.

A #Absolut Nights reconstruiu o cenário do Hell's Club, idêntico ao que era nos anos 90, no Superloft, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

No dia 9/6, quinta, rolou a #AbsolutNights feat. Hell's, homenageando a balada Hell's. Uma galera conseguiu curtir, conhecer e relembrar um pouco de toda essa história. Mas a Absolut não parou por aí e reviveu por uma noite também o clima do Manga Rosa, que não deixou menos saudade.

#AbsolutNights feat. Manga Rosa aconteceu no sábado, dia 11/6.

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