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"A música da Bahia é universal", diz Mauro Telefunksoul

Às vésperas do carnaval e com uma mix fresquinha em mãos, a cabeça do bahia bass nos conta a quantas anda o movimento em 2017.

Amanda Cavalcanti

Amanda Cavalcanti

Mais um carnaval chega ao horizonte – e com ele mais uma mix do Mauro Telefunksoul, fundador, líder e porta-voz do movimento bahia bass, aglutinando tudo o que tem rolado de produção do gênero desde o carnaval de 2016 (cuja mix foi eleita pelo Mixcloud como uma das cinco melhores de carnaval do ano passado). Antecipando seu álbum de tributo aos blocos afro Afoxé Bass que, segundo Mauro, será lançado ainda antes ou durante o feriado, o DJ e produtor seleciona o que vem sendo feito de melhor dentro e fora da Bahia no último ano, selecionando faixas e remixes de nomes veteranos como Lord Breu e Weber e os novos Ubunto, Fella Brown e Master Rylle.

Enquanto ouve o som, leia abaixo uma entrevista com Mauro sobre o que mudou no bahia bass e no carnaval de Salvador nesse último ano. No ano passado, quando o THUMP fez um programa sobre o carnaval no Beats 1, o Mauro comentou muto sobre a desvalorização da cultura afro pelos organizadores do carnaval em Salvador, por conta da popularização de outros gêneros, como o sertanejo. Começamos a entrevista perguntando se esse quadro persiste na cidade.

THUMP: Me conte um pouco sobre a desvalorização dos blocos afro no carnaval de Salvador.
Mauro Telefunksoul: A própria indústria do carnaval favorece, hoje, o sertanejo. Esse ano não vai ter vários blocos de axé: o Cheiro [de Amor] não vai sair, o Chiclete não vai sair o trio. Salvador está virando camarote e carnaval de rua mesmo, com bloco sem corda, que é o mais legal. Mas o lance é que a indústria do carnaval mesmo coloca o bloco afro pra ser em lugares e horários ruins. A galera gosta, se tocasse num horário bom a galera ouviria. Mas acontece que colocam os blocos tarde, o Ilê [Aye] sai tarde, de madrugada. Então criança não pode estar lá vendo, uma pessoa mais velha não pode ver. Mas nada contra, o carnaval hoje em dia está até melhor porque está sem corda. Mas acho que isso não é legal falar, eu fico sempre batendo nessa coisa. A minha viagem é música mesmo, é falar o que está rolando no bahia bass, de produções novas. Porque essa questão de bloco afro já está implantada e não sou eu, nem você, nem ninguém que vai mudar. Essa coisa são os governantes e diretores de carnaval que preferem ter um trio de sertanejo que uma coisa daqui da Bahia.

Me fala, então, o que você acha que mudou do último carnaval pra cá no bahia bass. Tem muitos artistas novos?
Estão surgindo outros produtores, está rolando mais música, mais dedicação mesmo. A galera está produzindo coisas novas, eu coloquei vários novos aí, Master Rylle, Fella Brown, essa galera está fazendo bahia bass também. Tem músicas minhas, novas, do meu disco que vai sair agora, o Afoxé Bass, um disco de tributo. Tem remix do Baiana [System]. E tem outras coisas de outros lugares que eu achei massa e fui colocando. O bahia bass está misturando, está indo pra outras musicalidades. Não só ficando no samba reggae, mas indo pro afro house, indo pra outras tendências musicais africanas. Misturar o bass music, o 808, com outras coisas legais que estão rolando hoje em dia.

Você acha que o gênero está indo nessa direção?
Acho que sim, está ficando cada vez mais misturado. Hoje em dia não dá pra fazer mais um samba reggae com bass; mistura tudo, samba reggae, com arrocha, com pagode. Eu tô nessa tendência. Abri a mixtape com um remix que eu pedi a Weber – ele só trabalha com forró bregadeira, então ele fez uma versão de "Black Pow", um samba reggae com bregadeira. Eu tô apostando muito nisso de misturar tudo, porque a gente acaba ficando num marasmo de ficar fazendo as mesmas coisas, e o ideal é juntar isso a outras sonoridades. Eu posso juntar um samba reggae com música do Pará, com forró, com África – que já é, né? –, com rap, com rock, com eletrônico, posso juntar com tudo. O samba reggae é uma batida universal. Não tem que ficar limitando.

E na questão de alcance – você acha que o bahia bass está chegando a outros lugares?
Já está em vários países; a galera do Rio toca [bahia bass], a galera de Minas Gerais toca, a galera de São Paulo toca. O lance do Free Beats mesmo, do Mauro Farina. Tem o Ubunto que está aí em São Paulo. Ele já é o porta-voz do bahia bass aí em São Paulo. O Lord Breu viajou, fez uma turnê agora, foi pra Minas Gerais, São Paulo. Eu tô indo pra São Paulo também, em abril. Ano passado fui tocar em Brasília duas vezes, no Drop It Like It's Hot e no festival Satélite 061. A gente não tá só aqui [na Bahia]. E agora a galera daqui que trabalha com música baiana, os músicos de axé e tal, estão incrementando o eletrônico nas músicas. Se você for ouvir as músicas deles agora, tem batida – o Duas Medidas está usando bregadeira com reggaeton, etc. Não tô dizendo que eles estão fazendo bahia bass, porque isso aí é uma coisa que se cria. Os caras estão simplesmente inovando porque não pode ficar no marasmo de tocar axé como se fazia a 10 anos atrás, 20 anos atrás. Então, os caras têm que levar. Você vê, Claudia Leitte está produzindo com o Jay-Z, Anitta com o Diplo – Anitta é do Rio de Janeiro, mas tô falando que ela saiu do funk e tá indo pra onda bass music.

Tá rolando o pagofunk também, né?
É, tem essa mistura agora do pagofunk também, que surgiu aqui com os caras das bandas de pagode. Tem a galera daqui fazendo o Bota Pagodão também, que é um live de pagode, com músicos mesmo tocando e música digital. Tem o BaianaSystem que está bombando aí mundo afora, Brasil todo. Primeiros eles tocaram fora pra depois vir tocar no Brasil, incrível. Pra você ver como a gente demora a gostar de coisa boa. A gente só gosta quando gringo aprova.

Então, as coisas estão correndo. O que vale é a junção da cena e o que está sendo produzido pra ela crescer, seja bahia bass, seja pagodão, seja samba reggae digital, seja afropunk, qualquer coisa que envolva música negra. Mas acho que está tendo um crescimento. A galera está produzindo coisas novas, estão saindo coisas boas. A música da Bahia é universal, como diria Paul Simon, Michael Jackson, Fatboy Slim e outros que já trabalharam com a música da gente.

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