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Um Sucinto Porém Jovial Glossário da Música Eletrônica: Letras O e P

Seguimos firmes e fortes destrinchando gêneros, termos técnicos, referências culturais e piadinhas internas para te ajudar a entender o complexo e maravilhoso mundo da eletrônica.

Pedro Moreira

Pedro Moreira

Mastigamos gêneros, termos técnicos, referências culturais e piadinhas internas para te ajudar a entender o complexo e maravilhoso mundo da eletrônica. O grande gênero da música eletrônica visto de fora pode parecer uma confusão sem tamanho. Olhando de dentro também é um pouco, pra falar a verdade. De qualquer forma, preparamos este pequeno glossário para você entender um pouco melhor esse estilo de som em suas inúmeras encarnações. Alternamos em ordem alfabética alguns termos técnicos com verbetes que tentam explicar sucintamente também os distintos gêneros, subgêneros e derivações, para viabilizar uma superficial organização mental do que foi produzido em toda a história da música eletrônica. A ideia não é dar um guia definitivo, mas sim elucidar alguns pontos espefíficos dentro dessa grande sonoridade cósmica e artificial. Depois de uma pausa para reflexões e descansos, entramos na reta final da série com as letras O e P.

ORCHESTRA HIT: Você conhece esse som mas talvez não saiba o nome. Ele é possivelmente o timbre mais irritante que é produzido quando alguma criança pequena pega um teclado para brincar, depois do maldito mugido da vaquinha. Ele tenta imitar através de sintetização, ou sample, o som que uma orquestra faz quando todos seus instrumentos tocam a mesma nota ao mesmo tempo. O interessante é que o uso do teclado com a capacidade de fazer esse som muito mais rápido que uma orquestra conseguiria pode gerar algumas pirações curiosas como podemos ver no video abaixo, que é um cover/versão não intencional de "Twilight Zone", hit poperô anos 90 do 2 Unlimited.

OVERDUB: Nome técnico para fazer uma gravação com base em outra, geralmente separada por canais. Desde os anos 60, o padrão é primeiro gravar a bateria/base ritmica e a partir dela gravar os outros instrumentos (99% das gravações profissionais do rock usam esse esquema). O processo de produção da música eletrônica de pista costuma seguir esse modelo do ritmo antes dos outros elementos, mas talvez a melhor utilidade do overdub na música eletrônica é que a gravação isolada dos instrumentos e vozes permite a mágica dos remixes, já que o produtor pode modificar os elementos da música como quiser, ou simplesmente tirar tudo e só deixar o vocal trincando sobre uma batidona pesada de bateria eletrônica pra galera fritar a valer na pista.

OITAVA: Uma oitava é o intervalo musical que designa outra nota com o dobro ou metade da frequência da nota inicial. Por convenção, é também quando a nota se repete, por exemplo: um Dó uma oitava acima é um Dó, um Dó uma oitava abaixo vai ser outro Dó. Vários efeitos, tanto para instrumentos analógicos quanto digitais, utilizam algo chamado oitavador, que duplica um sinal para tocar simultaneamente a nota original e sua oitava, para cima ou para baixo.

Quando eu fazia conservatório meu professor de percepção sempre usava "Somewhere Over the Rainbow" para falar de oitavas.

POLIFONIA: Termo que indica quando mais de uma nota é tocada ao mesmo tempo. Em muitos teclados de sintetizadores o número de teclas que podem soar se tocadas ao mesmo tempo também leva esse nome e pode ser alterado. Então, se você estiver tentando tocar um acorde em um teclado e só uma nota tocada estiver soando, procure esta função.

"Mamãe, cadê o vôvô?" foto de Andy Weisner no Vuuv, um dos maiores eventos de psytrance do mundo, que rola desde 2005 na Alemanha.

PSY (trance, psybient, breaks, techno): Abreviação de psychedelic. A música psy não é originária dos anos 60 como o movimento psicodélico original, mas foi criada no final dos anos 80 a partir do Goa trance, um estilo de música eletrônica criado por ocidentais na India quando eles estavam tentando chegar à transcendência espiritual através de rituais shamanistas (nada indianos) a partir da dança catartica coletiva. Originalmente, o psychedelic trance é o estilo que a galera inventou nos anos 90, e se você já viu algum moleque no comecinho dos anos 2000 com uma camiseta de ET fluorescente é bem capaz que esse era o som que ele pirava. Desde então vários gêneros foram contaminados pelo ritmo transcendental do psy trance, que acrescentou seus elementos a outros estilos como o breakbeat e o techno.

O israelense Astrix é um dos maiores nomes do psytrance mundial e já fez milhões de pessoas sentirem o mistério do planeta com seus sets.

PROGRESSIVE (house, trance, breaks): Nascido nos anos 60, o rock progressivo veio com o intuito de dar uma rebuscada no formato das músicas populares com o uso de diferentes ritmos, mudanças de tom e tempo no meio da músicas, muitas vezes acompanhados de um tema maior nos LPs ao invés de diferentes canções que não tem necessariamente algo a ver uma com a outra em termos de tema e progressão. Os gêneros progressivos de outros estilos musicais seguem um pouco desse mote, ao fazer músicas mais complexas e, alguns diriam, pretensiosas. No caso dos gêneros eletrônicos não é diferente, com mudanças de tema durante as faixas e estruturas musicais mais complexas do que a as que corriqueiramente tocam nas pistas.

POST-DISCO: Desenvolvimento do gênero disco music, que você pode ou não associar com embalos de sábado a noite, globos de espelho, festas de patins e muitos passinhos ousados na pista de dança. O post-disco é intimamente relacionado com o hi-nrg em estilo e os dois acabam se confundindo um pouco. Algo bem comum entre eles é abraçar sem preconceito os timbres dos instrumentos eletrônicos. As músicas post-disco costumavam ter menos instrumentos e elementos que o disco posterior e costumavam usar a linha de baixo tocada em um sintetizador Minimoog, além de usar batidas mais quadradonas que a disco anterior. Não se trata necessariamente de um rompimento com a disco tradicional, mas mais uma atualização do que ela tinha de fino. A tentativa de fazer um disco mais atualizado veio em grande parte a partir da reação do público americano em geral, que já estava ficando de saco cheio do gênero. Esse problema acabou não rolando muito em outras partes do globo. Na Italia, por exemplo, a disco comeu solta durante mais umas duas décadas.

Você conhece essa daqui.

PHASER: Efeito que pega um sinal sonoro inicial e o duplica para, através da magia obscura de alteração das fases das ondas, criar um timbre peculiar que pode tanto fazer você parecer que está flutuando no éter quanto preso dentro de uma turbina de avião em queda sobre o oceano pacífico. Muito usado em efeitos de guitarra, tanto junto com distorção para fazer um metal bizarro ou como também em timbres de teclado mais suave, como os modelos Rhodes para criar as camas harmônicas mais estilosas do adulto contemporâneo. Este nerd de som demostra um pouco da magia do phaser nesse fino video de YouTube. Atenção, se você não é tão nerd de som assim pula mais pra frente que ele começa a tocar uma sonzeira que todos são passiveis de curtir.

O maluco do Tame Impala adora enfiar um phaser onde ele possivelmente possa caber, como nesse exemplo de cover de belíssima canção do rei Michael Jackson.

O Pedro Graça aumenta sua sabedoria de música eletrônica. Pergunte como no Twitter: @pedrograca

Adquira ainda mais cultura lendo o que já publicamos no Glossário:

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B e C
D e E
F e G
H e I
J, K e L
M e N