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'The Underground Is Massive' É um Calhamaço de 400 Páginas Sobre a Dance Music nos EUA

No seu último livro, Michaelangelo Matos recria com cuidado essa história épica e nos convida a entrar no meio.

Nick Bazzano

Tem uma coisa que é impossível negar a respeito de The Underground Is Massive: How Electronic Dance Music Conquered America [ainda sem título em português; em tradução livre, "O Underground É Imenso: Como a Electronic Dance Music Conquistou os Estados Unidos"], de Michaelangelo Matos: ele é mesmo assustadoramente imenso. Sempre desconfio de livros enormes que começam afirmando, em tom apologético, que poderiam e provavelmente deveriam ter sido muito mais longos. Afinal de contas, o trabalho de um autor, como historiador e especialista, é examinar a exaustiva lista de cenas, festas e artistas que formam um movimento cultural e escolher a dedo aqueles que são essenciais para compor uma narrativa. Somando quase 400 páginas, este livro é gigante uma fera enorme, louca e ofegante que busca documentar um movimento idem e esta é tanto a sua dificuldade quanto o seu êxito.

Matos nos conduz aceleradamente por quase 35 anos de história da dance music nos Estados Unidos, das suas raízes underground à sua globalização corporativizada; de Juan Atkins ao Skrillex, passando pelo Moby; de Frankie Knuckles (de "The Whistle Song") a Frankie Knuckles (remixando "Blind" do Hercules & Love Affair), a Frankie Knuckles (descanse em paz). Em outras palavras,

The Underground Is Massive acompanha a evolução da música eletrônica dos galpões abandonados, bailinhos adolescentes e juice bars de Chicago e Detroit do começo dos anos 80, até chegar, sei lá, em alguma rave maluca num navio que cobra US$600 por cabeça, em algum lugar entre a Disney e a intoxicação alimentar. Inúmeras entrevistas e décadas de pesquisa meticulosa (tanto em bibliotecas quanto em clubes) inserem imediatamente a obra no cânone dos autores de história da música contemporânea, levando o projeto de rave zines de meados dos anos 90, como o Massive, de Milwaukee, para o campo dos livros influentes sobre música, como Energy Flash, de Simon Reynolds, e Can't Stop Won't Stop, de Jeff Changs [ambos também ainda sem tradução para o português].

Frankie Knuckles (Foto: Al Pereira)

Este incansável e maníaco impulso de colher os depoimentos de todo-mundo-da-cena e depois juntá-los numa espécie de Frankenstein certamente é o maior ponto fraco do livro. Leva ao que parece uma espécie de falta de sobriedade na curadoria, um desequilíbrio, deixando o leitor com a sensação de estar numa sala com centenas de pessoas, captando fragmentos de uma conversa remendada que nunca aconteceu de verdade, como se estivesse numa baita ressaca pós-rave. Matos admite na introdução: "Só para constar, não estive presente em absolutamente nenhum dos eventos que dão título aos capítulos." Talvez esta falta de intimidade com eles seja o motivo por que a sua voz, como crítico, às vezes seja abafada pelos blips, blops e tagarelice dos entrevistados a seu respeito.

Richie Hawtin (Foto: Kevin Cummins)

Embora narre habilmente a história oral do plano de batalha que levou o EDM a conquistar os EUA, Matos erra o alvo quando se trata de retratar as políticas subjacentes a esta conquista — ou criticá-las. Em vez disso, a globalização da música eletrônica ao ponto da ubiquidade cultural, focada no seu potencial lucrativo, é pintada por ele como um "êxito".

Apesar da sua falta de coerência geral e envolvimento crítico, The Underground Is Massive oferece um relato da proliferação do EDM que parece muito mais imersivo, imediato e carregado de emoção do que outros livros que se propuseram a contar essa históeria.

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The Underground Is Massive não é só histórico, ele também fará com que você se sinta como se tivesse 19 anos, vivendo tudo da maneira mais intensa possível, num celeiro escaldante e fedido em uma estrada interestadual, no meio de um milharal do meio-oeste, sabendo que, de alguma forma, a cena raver vai se tornar algo ainda maior do que a química do seu cérebro permite vislumbrar. Talvez este livro lide com o caso mais agudo de FOMO da história da dance music [em inglês, "fear of missing out", literalmente "medo de ficar de fora" — grosso modo, a "saudade de algo o qual mal vivi ou evitava viver" dos gringos]. Já que nem ele, nem nós pudemos estar lá para sentir na pele, Matos meticulosamente recria o passado, em toda a sua gigante, confusa e épica glória, e nos põe de carona nessa viagem.

Untold no The Bunker, em 2010 (Foto: Seze Devres)

É por isso que ler The Underground Is Massive parece tão grandioso, tanto na sua revisitação de muitas raves míticas quanto na acepção de uma poesia épica capaz de transformar a história, como a Ilíada. Ele nos joga diretamente no meio da ação e nos deixa caminhar sozinhos por lá enquanto tudo acontece, não importa quão empolgante e cansativo isso possa ser. Este livro está cheio de causos aparentemente impossíveis, bizarras e incompletas que mudaram a história, como aquela vez em que alguns ravers implacavelmente chapados foram presos por policiais de verdade em uma festa cujo cenário imitava uma prisão, em 1992, no Grave, em Milwaukee, ou aquela outra vez em que ambulâncias foram chamadas e um tumulto começou depois que uma marca de energético decidiu encenar uma espécie de proto-teste do ácido da Red Bull na festa Seventh Heaven, em Los Angeles, no réveillon de 1997.

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Depois de ler, você justificadamente se sente cansado e meio frito. É como aquela sensação de não lembrar o nome do amigo do amigo de Aquiles na sua prova final de literatura, ou de não lembrar o nome do amigo do amigo do seu amigo Aquiles depois de ser apresentado a ele no meio de um set do Robert Hood, quando ninguém devia estar falando em primeiro lugar. Mas é bom se sentir desse jeito, porque é a única forma de experimentar algo dessa magnitude.

D-Wynn em meados dos anos 1990 (Foto: Todd Sines)

Em "The Power Plant", o capítulo sobre o começo do house de Chicago e do techno de Detroit, Matos explica as diferenças de estilo entre "trax" e "house". Enquanto o "trax" se refere aos crus e esqueléticos polirrítmos dos beats minimalistas de Detroit, feitos com pouca coisa além de kicks, caixas e uma Roland TR-909, o "house" de Chicago prefere melodias, canções e histórias com letras profundas e harmonias completas e envolventes.

Esse contraste poderia ser aplicado ao livro como um todo. O objetivo de Matos com The Underground Is Massive é enfocar tanto as linhas "trax" quanto as linhas "house" que compõem a história da electronic dance music americana. Embora vá fundo no "trax" das curiosidades individuais, incompletas e pontuais, Matos tenta sinceramente — com diferentes graus de sucesso — capturar a música completa, o quadro geral, no estilo do "house", para contar a história do EDM que tanto esperávamos. Nas suas falhas e acertos, The Underground Is Massive é um livro que se torna mais agradável depois que aceitamos a impossibilidade de se contar a história de um movimento tão inesgotável sem ser exaustivo.

Ouça uma playlist baseada no livro:

The Underground Is Massive foi lançado pela Harper Collins

Nick Bazzano é candidato a doutorando em estudos de performance na NYU Tisch School of the Arts. Ele também é músico de free jazz e produtor de música experimental e vive no Harlem, em Nova York.

Tradução: Fernanda Botta