A Anohni quer salvar a Terra com dance music

O título do seu disco pode ser até desesperançoso, mas é com ‘HOPELESSNESS’ que a artista trans quer mudar a crescente tentativa da humanidade em acabar com a própria humanidade.

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mai 27 2016, 12:00pm

Esta matéria foi originalmente publicada no THUMP US

Fotos por Annie Collinge

A data é 7 de novembro de 2008 — apenas três dias depois de Barack Obama vencer John McCain na disputa pela 44ª presidência americana. A cantora e artista visual antes conhecida como Antony Hegarty está sentada numa cadeira, falando com um entrevistador anônimo e invisível na tela. Divagando sobre a letra do recente single da artista, "Another World" — uma balada triste que contempla a possibilidade de um apocalipse iminente — o jornalista pergunta se ela acha que a eleição de Obama ajudará a iniciar um período de paz.

"Não sou realmente qualificada para falar sobre questões políticas", ela diz, sorrindo timidamente, seu rosto em forma de lua emoldurado por uma cortina de finos cabelos pretos. Mas mais adiante, nesta entrevista — parte de uma série de seis episódios do canal de vídeos FaceCulture, de Amsterdã — ela começa a se abrir, confessando que, no dia em que saiu o resultado das eleições, acordou em Paris, às 5h30 da manhã, para assistir ao noticiário. "Acho que todo mundo está muito empolgado", ela diz, observando que os discursos de Obama, similares aos de JFK, pareciam um bom presságio para os cidadãos do mundo preocupados com as mudanças climáticas, a demorada ocupação dos Estados Unidos no Iraque e os rumores de tortura na Baía de Guantánamo. "É um momento muito crítico, então precisávamos disso — todos ao redor do mundo precisavam de algum lampejo de esperança."

Avance para o outono norte-americano de 2016, e em menos tempo do que a Terra leva para completar uma rotação ao redor do Sol, Obama vai deixar sua mesa no Salão Oval para um sucessor ainda desconhecido. Anohni, como a artista agora é conhecida, está prestes a lançar um disco chamado Hopelessness [em tradução livre, "Desesperança"] — que provavelmente não foi conscientemente inspirado pelas suas palavras no vídeo de 2008, mas está a mundos de distância do delicado otimismo daquele momento. O disco segue uma recente indicação ao Oscar por "Manta Ray", uma música que ela escreveu em parceria com o compositor J. Ralph para o documentário ambientalista A Corrida Contra a Extinção. Lançado em novembro passado para coincidir com a Conferência do Clima em Paris, o primeiro single, "4 degrees", ecoa as previsões dos cientistas de que as crescentes temperaturas globais vão levar uma miríade de espécies vegetais e animais à extinção nas próximas décadas. "Quero ouvir os cães chorando por água/ Quero ver os peixes ficarem de barriga para cima no mar", ela canta, sua voz elástica alcançando níveis quase operísticos de intensidade sobre oscilações de metais sintetizados. "Quero vê-los queimar. São apenas quatro graus."

A julgar apenas pela música, Anohni tem menos reservas hoje em dia sobre compartilhar suas visões políticas. Outras faixas do disco falam sobre a guerra com drones, vigilância governamental e corporativa e execuções aprovadas pelo estado com a mesma franqueza espantosa; há mesmo um canto fúnebre chamado "Obama", em que ela descreve todas as maneiras que acha que o presidente falhou em cumprir suas promessas de campanha. Ao longo de todo o disco, a linha entre o pessoal e o político se torna significativamente tênue: em "Watch Me", ela canta da perspectiva de uma pessoa que acha que está sendo vigiada enquanto viaja de cidade em cidade, e de um quarto de hotel para outro, vigiada mesmo quando está "assistindo pornografia". É impossível dizer se ela está cantando sobre um amante ou um computador, mas a ambiguidade deixa clara a ideia principal: "Sei que você me ama/ Porque está sempre me vigiando".

Hopelessness é o primeiro disco que a artista que nasceu na Inglaterra, cresceu na Califórnia e vive agora em Nova York lança sob o nome que escolheu como mulher trans — uma versão feminina do nome "Antony". Também é uma ruptura impressionante com o som que ela aperfeiçoou em inúmeras turnês mundiais e quatro LPs com a banda de pop barroco Antony and the Johnsons, trocando acordes esparsos de piano e cordas pastorais por uma produção eletrônica efervescente, cortesia dos colaboradores e amigos Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke. As letras sinistras e a instrumentação inspirada na dance music tornam o disco poderoso e arrepiante — cujo efeito cumulativo pode ser descrito como demasiadamente desconcertante e arrebatador.

Quando a encontro no final de março, em uma sala no lobby do Roxy Hotel em Manhattan, ela está visivelmente agitada; nossa entrevista é apenas um item da longa lista de coisas que ela precisa fazer antes de voar para Los Angeles para o Oscar, em dois dias (no fim, ela acabou cancelando o voo e publicou um longo post no seu blog explicando o porquê). Ela só parece estar sobrecarregada pelo peso emocional do assunto em questão. Os instrumentais, ela diz, são uma espécie de "cavalo de Troia", utilizando a linguagem da música pop contemporânea para disseminar amplamente a mensagem do disco. Afinal de contas, há um apelo à ação em Hopelessness — algo que ela chamou de sua "campanha de olhos bem abertos", um pedido para que reconheçamos as maneiras como a atividade humana está acelerando a extinção da própria humanidade. "Meu trabalho, neste exato momento, é fazer com que se veja como isso é um sistema — não apenas uma série de coisas isoladas que estão dando errado ao mesmo tempo", ela explica. "E somos cúmplices como participantes — especialmente no Ocidente."

Na longa entrevista abaixo — que combina nossa conversa presencial, seguida de um telefonema, e foi editada por motivos de extensão e clareza — a cantora se abre sobre sua longa relação com a cultura de clubes e a música eletrônica, pedir para ser conhecida por um novo nome e o pensamento que a inspirou a abrir tanto os seus olhos.


THUMP: A destruição do meio ambiente é um tema recorrente em Hopelessness. Quando a natureza se tornou sagrada para você?

Anohni: Bem, começou na minha infância, quando percebi que não havia lugar para mim nas religiões judaico-cristãs — particularmente no catolicismo. Quando eles perceberam que eu ia para o inferno — pelo menos era o que pensavam meus professores e os padres — e que a minha alma estava condenada. Até onde sabia, naquela idade, eu era a única pessoa gay no mundo além das pessoas que estavam morrendo de doenças bubônicas nas grandes cidades.

Na Califórnia, nos anos 80, havia uma subcultura pagã. Muitas dessas pessoas iam a círculos nas montanhas de Santa Cruz, liam Starhawk e se interessavam pelo misticismo. Então fui criada em ambientes de jovens adultos que faziam esse tipo de coisa, e ouviam música, iam a clubes e se vestiam de um jeito diferente.

"Muito do tema do disco é a minha própriacumplicidade. Por exemplo: não tenho culpa pelo aquecimento global. Não souresponsável pelos bombardeios de drones de Obama. Eu pego aviões, pagoimpostos. Somos todos cúmplices." — Anohni

Escrevia músicas sobre o meio ambiente quando era adolescente. Na metade dos anos 80, as notícias começaram a aparecer — previsões de como o mundo seria em 20 anos. Toda a informação sobre o aquecimento global estava disponível. E, no fim dos anos 80, a indústria de combustíveis fósseis havia começado uma campanha de disseminar mentiras e confusão sobre o que estava acontecendo. Ainda está acontecendo — a desinformação, a propaganda [criada] para combater o conhecimento instintivo das pessoas de que [o que está acontecendo] não é o melhor para elas.

O Destino Manifesto teve uma trajetória óbvia. Quando as pessoas chegaram da Europa, foi como se tivessem sido jogadas dentro de uma conta bancária gigante, então tudo que tinham que fazer era matar os povos indígenas e saquear a terra, e ou acumular os despojos, ou levá-los de volta para o seu país de origem. Não era um modelo novo, mas foi nos Estados Unidos onde ele realmente se estabeleceu. Tornou-se um princípio fundador — este tipo de abordagem virulenta do consumo dos recursos humanos e naturais, e obviamente, do consumo da paisagem.

Does nature play a role in your everyday life?

A natureza é parte da sua vida cotidiana?

Não em um sentido pastoral; para mim, a natureza não é um espaço selvagem intocado. Tenho uma abordagem muito mais animista, que aprendi com [o dançarino japonês] Kazuo Ohno e através dos meus estudos sobre o teatro butô: tudo é natureza. Até as paisagens mais duras são a face da natureza — e os objetos inanimados. Quando Kazuo Ohno dançava em uma cidade, as pessoas diziam: "Por que você não dança no campo?". E ele dizia: "Estou na natureza, dançando nessas ruínas. Essa paisagem de Hiroshima é natureza, sou parte dela e não posso ser separado dela".

É a ideia de que tudo está ardendo e vivendo agora mesmo; mesmo tudo que está morrendo está num ciclo vital. A Terra, os elementos, todos os animais que restam, o oceano — tudo ainda está muito vivo e cheio de magia. Mesmo quando este lugar estiver estéril, ainda vai estar cheio de magia. Mas a tragédia humana é perder a bioesfera, que é tudo que conhecemos, e é o berço da nossa alma e da nossa percepção como espécie. Nós a transformamos num paraíso que estamos canibalizando.

Algo que chamou minha atenção nas letras foi o quanto o pessoal e o político estão interligados.

Muito do tema do disco é a minha própria cumplicidade. Qual é o meu papel nisso na maneira que vejo as coisas, na minha disfunção, na minha própria tristeza? Qual é a minha cumplicidade nisso na maneira como minto para mim mesma? Por exemplo: não tenho culpa pelo aquecimento global. Não sou responsável pelos bombardeios de drones de Obama. Pego aviões, pago impostos. Somos todos cúmplices.

Para fazer isso soar diferente de como soa quando estou aqui sentada falando com você, eu personalizo e erotizo isso. Minha habilidade é sonhar e mudar a forma das coisas, então [em "Drone Bomb Me"] posso cantar do ponto de vista de uma garota de sete anos cuja mãe, pai e irmão foram mortos por um drone-bomba, e ela está olhando aquela lentezinha do drone-bomba e vendo o soldado no seu bunker em Nevada. E esse é o primeiro amor dela: o soldado americano que quer matá-la. Ela é inocente. E quando você está radicalmente traumatizado hoje em dia, é assim que você lida com isso: absorve essa coisa e a torna parte da sua realidade. Qual pode ser a sua intenção como país senão me amar tanto a ponto de querer me matar?

Quando escrevi "Drone Bomb Me", estava absolutamente enfurecida, e como uma pessoa afeminada e feminina, a maneira como expresso raiva mais efetivamente é muito dissimulada. Não é um ataque de raiva; é uma perseverança firme, estóica, ácida. Posso me dirigir a você usando um véu de ternura — você é meu agressor, de que outra forma quer que eu me dirija a você? O lugar mais seguro, perto de qualquer agressor, é abraçando a sua perna. E é assim que estamos nos comportando nos Estados Unidos. Continuamos esperando que essas corporações estejam visando o melhor para nós — essas bases de dados massivas não poderiam ser usadas para propósitos maliciosos em algum momento. Quero dizer, a maneira como nos convenceram a voluntariamente ceder nosso direito à privacidade foi genial.

O que a levou a decidir falar sobre esses assuntos neste disco?

Sempre fui boa em ver as relações entre as coisas; sou uma artista universitária, então gosto de estabelecer e observar relações. Mas sempre fiz música deste lugar interior, seguro. Porque a música para mim no passado era sobre curar a mim mesma e compartilhar essa autoajuda com as pessoas. Este disco é muito diferente. É como [a peça] O Balcão, de Jean Genet. Sempre penso no Genet porque ele escrevia esses livros muito íntimos e bonitos. E, no fim da vida, ele estava tão cheio de todo mundo que ficou muito amigo dos Panteras Negras e escrevia ataques ao sistema político. Acho que há vestígios disso neste disco: é desprezo e raiva.

Como você explica essa mudança?

Fiz muitos trabalhos explorando a dor e o sofrimento. Fiz uma música chamada "Another World". Explorei meu desespero em relação a um mundo que está morrendo lentamente. Mas estava começando a me sentir muito passiva, indulgente e estetizada. Nunca apontava coisas objetivas. E não acho que há mais utilidade para esse tipo de música. É como o Titanic: você pode ouvir música que o conforte nas espreguiçadeiras do Titanic ou não.

Estou furiosa com essas coisas e tinha medo de expressar isso. E o meu medo, na verdade, foi o que me levou a isso. Porque percebi que há tanta energia aqui — por que estou com tanto medo de falar essas verdades? Estou com medo do que aconteceu com Chelsea Manning? Foi a campanha contra os delatores durante a administração Obama que nos deixou cada vez mais amedrontados de nos expressar? É o fato de que, se você se une aos protestos, tem mais chances de ser preso sem saber quando vai sair?

"Como uma pessoa afeminada e feminina, a maneiracomo expresso raiva mais efetivamente é muito dissimulada. Não é um ataque deraiva; é uma perseverança firme, estóica, ácida. Posso me dirigir a você usandoum véu de ternura — você é meu agressor, de que outra forma quer que eu medirija a você?" —Anohni

Como nos manifestamos com o fantasma ameaçador deste governo totalitário, mascarado como algo que visa o melhor para nós, algo que alegadamente está nos protegendo? Isso depois de oito anos de Obama? De esperança, transparência e fim do lobismo? Tudo que tivemos foram oito anos de bombardeios com drones e escalada e negociações bipartidárias patéticas. Chelsea Manning é a única que foi julgada por crimes de guerra, e ela vai passar 35 anos na prisão. Dick Cheney — ele está preso? Karl Rove? Algum dos torturadores da Baía de Guantánamo? Na verdade, a Baía de Guantánamo ainda está aberta, e qualquer um que teria ido parar na Baía de Guantánamo nos últimos oito anos apenas foi assassinado por um drone-bomba — junto com as suas famílias e todos à sua volta. [Obama] pode ter tido boas intenções, mas não as cumpriu.

Sei que você disse que, no passado, algumas das suas músicas chegavam a levar uma década para ser criadas. Foi assim com essa?

São coisas que eu venho pensando há 15 anos. Eu as escrevi em poucos dias, exceto por algumas poucas músicas. Porque esse é todo o meu pensamento, é um catálogo dos meus pontos de vista. Então eu os venho aprimorando há muito tempo. Quando ouvi as faixas do Hudson Mohawke, senti que tinha achado o cavalo de Troia perfeito para embrulhá-la. A felicidade das faixas era o invólucro perfeito. Animar as pessoas e dizer algo tão pesado ao mesmo tempo só parecia muito divertido. A primeira vez que ensaiamos essas faixas, fiquei louca. Tem uma alegria em gritar a verdade, mesmo que vá durar pouco.

A instrumentação eletrônica é uma grande mudança para você. Você frequentava clubes quando era adolescente?

Cresci no subúrbio e a vibe era muito diferente. Não tive o privilegio de estar num lugar onde as pessoas fossem conscientes. Frequentava a Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Johanna Constantine, que é minha parceira criativa, de certa forma — eu e ela nos mudamos juntas para Nova York. Estávamos ouvindo muitos discos, como os LPs do John Sex e do Marilyn and the Movie Stars. Tinha um filme chamado Mondo New York, que tinha músicas do Dean Johnson e da sua banda, Dean and the Weenies, e Joey Arias, Phoebe Legere e Karen Finley, todos eles estavam nele. Eu fazia esses "musicais à meia-noite" quando frequentava a universidade em Santa Cruz e os apresentava com a minha amiga. Teve um professor que viu o meu trabalho e disse: "Você precisa se mudar para Nova York, lá é o único lugar onde as pessoas estão fazendo este tipo de coisa".

Entrei num programa de teatro experimental na NYU, passei dois anos lá. Na noite em que cheguei, fui no clube Pyramid com um amigo meu. Tínhamos lido sobre ele nos jornais locais, e fui porque tinha uma performance de drag promissora. E o Pyramid era famoso por ser um ponto de encontro queer e punk nos anos 80. [Depois que] me mudei para Nova York, fiz todas as minhas performances e peças nos clubes e frequentei a vida noturna durante seis ou sete anos. Tinha toda essa linhagem da arte performática underground que tinha rolado nos clubes de Nova York nos anos 80, e depois foi combinada à inspiração de gente como a Divine e os filmes do John Waters. Quando era jovem, estava muito obcecada em achar o meu lugar no mundo — na subcultura queer e punk de Nova York. Eu também chamaria isso de "história do travestismo no avant-garde, quando ele se misturou com a onda punk na música".

Que tipo de dance music você ouvia?

Tem um tipo de dance music que eu realmente adoro. Tinha esse cara — o Bobby Orlando — que produziu o Divine and The Flirts. São os mesmos três acordes com o mesmo tipo de batida — a impenetrável batida disco do começo dos anos 80. Frágil e com um som barato, como o clássico som de Nova York. As primeiras faixas do Technotronic também eram empolgantes quando foram lançadas. Lembro quando era calouro e ouvi "Pump Up the Jam", ficamos todos tipo: "Ah, meu Deus, isso é incrível".

A outra vertente de influência para mim, da dance music, foi uma produtora chamada Savoy de Manchester, na Inglaterra. Era uma editora super underground que publicava cartuns e quadrinhos, mas também lançou uma série de discos underground de dance. Eles estavam sempre sendo fechados pela polícia e tendo as suas coisas confiscadas porque eram consideradas "antisociedade" na Inglaterra. A Savoy lançou essas faixas dance com um som bombasticamente barato e letras superferozes, cantadas pela Rowetta Satchell, uma cantora de soul fantástica com uma voz crua, de descendência nigeriana e inglesa, que também cantou com os Happy Mondays. Eles tinham uma música que falava tipo: "Homem do lixo, goze logo e esqueça". Éramos loucos por essas músicas. "Abra a sua boca, deixe eu mijar nela" — essa é uma música chamada "Golden Showers". Talvez a coisa mais próxima com que você possa compará-los, tipo dez anos depois, é a Lil' Kim.

Minha amiga Johanna e eu estávamos morando em Manchester, e ela conhecia esses caras e era uma das poucas pessoas a ter esses LPs. Então quando começamos a organizar nossa própria festa no Pyramid, esse foi um dos aspectos estéticos centrais do Blacklips [que fundei junto com a Johanna e a Psycothic Eve]. O Blacklips era o grupo de performance que criei com 12 outros jovens que conhecemos no East Village naquela época. Então tocávamos isso depois de uma faixa da Divine ou do Christian Death. E tinha essa ideia de dentes muito afiados brilhando entre as batidas dance. E essa foi toda a inspiração para o disco. Era isso que eu estava tentando alcançar. Porque você quer animar as pessoas, e dizer algo realmente inacreditável com um vocal animado é chocante.

Como foi o processo de colaboração com o Hudson Mohawke e o OPN?

Começou comigo e com o OPN, íamos fazer uma "animação japonesa". Tínhamos esse sonho de fazer um projeto tipo um Queen Millennia com vocais — como um disco do Kitaro com vocais — que por sorte, provavelmente, abandonamos. Então eu levei para ele um monte músicas que já tinha escrito espontaneamente, no meu estilo normal, que é com o piano. Achamos algumas coisas de que gostamos muito — músicas mais lentas, mais parecidas com baladas — e ficamos com essas, e elas estão no disco.

[Depois] tive uma conversa com Ross, e ele me mandou uma faixa na qual queria que eu cantasse, para o disco dele. Ele me mandou um monte de outras faixas também, e eu basicamente as roubei. Liguei para ele e disse: "Coloquei um vocal nesta faixa, e acho que você vai gostar muito. E coloquei um vocal nas outras seis que você me mandou, posso ficar com elas para usar no meu disco?". Achei as faixas dele realmente revigorantes. Elas parecem hinos, são tão bombásticas, e a noção de acordes dele é realmente boa. As coisas dele têm emoção de verdade; ele faz mágica.

As coisas do Ross seguem totalmente numa direção; não tem nada nadando contra a corrente. São muito focadas, enquanto Dan é muito angular e caleidoscópico na sua maneira de ver as coisas. Fizemos algumas sessões todos juntos. E depois fizemos um monte de coisas assim, eu mandava as coisas para eles e Dan trabalhava nelas no seu estúdio, ou trabalhava comigo — era todo tipo diferente de constelação. E sinceramente, fiz muita coisa sozinha. Só trabalhava nas músicas um tempão, mixando e brincando com elas e gravando vocais — até pegando materiais que eles mandaram para uma música e usando em outra. Demorou três anos.

A capa de 'Hopelessness'.

E por que decidiu trabalhar com produtores em vez de montar uma banda?

A ideia era fazer um disco dance muito plástico, com as melhores ferramentas que eu pudesse conseguir. Queria usar a ampla aceitação do pop, porque sabia que o disco ia ser essa espécie de cavalo de Troia. E queria que fosse plástico o suficiente, açucarado o suficiente, delicioso o suficiente e sedutor o suficiente para que eu pudesse incorporar algo realmente contrário a isso nas letras, e as pessoas ainda o absorveriam. Porque fazer a mensagem se espalhar com gás hilariante é o melhor invólucro para o conteúdo. Isso soa manipulador, e é manipulador.

A música que eu fazia cinco anos atrás é meio antiquada. As pessoas ainda fazem músicas com cordas e música acústica; ela é bonita, mas não está presente em nenhum tipo de conversa com a torrente de informação que tem agora. No underground, no mainstream, no meio-termo — todo mundo está escutando a Rihanna. Todo mundo está escutando a Beyoncé e o Kanye West.

Por que o disco se chama "Hopelessness"?

Porque eu sentia muita desesperança. Porque eu sentia muita desesperança a respeito da nossa trajetória como espécie em relação ao resto da bioesfera. Ainda assim, a desesperança não é um fato; é um sentimento. E posso processar esse sentimento assim como posso processar o sofrimento e qualquer outro sentimento e seguir em frente.

Então estou totalmente focada nessa campanha de olhos bem abertos. Quanto posso abrir os meus olhos, quanto posso tentar ver, sabendo que nunca vou ver tudo? E quanto posso absorver e processar, e quanto espaço posso reservar para uma percepção expansiva da realidade, com o objetivo que as outras pessoas levem o que gostarem e deixem o resto?

Eu ia perguntar sobre a mudança de nome. Você usou o nome "Anohni" por um tempo antes de torná-lo público?

Nunca gostei do meu nome, e o nome que eu tinha estava muito ligado a mim por muitas razões diferentes. Apenas finalmente tomei coragem e comecei a pedir aos meus amigos que me chamassem de Anohni. Depois liguei para a minha família — meu irmão, minha irmã e minha mãe — e foi uma progressão. No meu caso, obviamente não vou passar por uma profunda transformação física que vá te dar todos esses indicativos visuais de que "sou uma mulher agora" ou algo do tipo. Acho que o meu caminho é diferente como pessoa trans, e existem muitas pessoas trans como eu.

Nunca fui um homem, e sempre disse que não sou um homem, mas vivia com esse nome masculino e me conformava às pessoas me chamando de "ele", tinha um pouco de vergonha de pedir por algo mais do que isso. Então finalmente criei coragem para dizer: "Quero que você me chame de ela porque quero que você honre o meu espírito. Sou uma pessoa transgênera que quer ser reconhecida pelo seu aspecto e essência femininos".

E é isso que eu sou. Estou em uma posição um pouco diferente de muitas mulheres trans no sentido que sempre funcionei dentro de sistemas femininos — exceto pelos meus primeiros anos em Nova York, quando tive que funcionar em sistemas de homens gays. Então não sei o que mais posso pedir: recebi um convite para um jantar da Diane Von Furstenberg para mulheres indicadas ao Oscar. Fico muito tímida em ir a um evento desses, porque sinto que, quando me virem, não vão achar que mereço estar lá. Por mais corajosa que eu seja, é muito difícil para alguém como eu entrar em espaços femininos e pedir um lugar para sentar, e é claro que isso é uma fonte de tristeza para mim. Sempre sentei fora do círculo porque não achei que permitiriam que eu me sentasse ao lado das mulheres, e sabia que não pertencia ao lado dos homens. Então esse é o problema da dualidade.

Na capa do disco tem uma sobreposição do seu rosto com o rosto da modelo Liya Kebede. E na turnê, haverá a projeção de uma série de retratos de mulheres acontecendo paralelamente ao show — parecido com o clipe de "Drone Bomb Me", em que a Naomi Campbell dubla a música. Por que usar os corpos de outras mulheres como substitutos para o seu próprio?

No começo dos anos 90, tinha esse grupo dance chamado Black Box. Eles tinham essas músicas chamadas "Right on Time" e "Strike it Up", que foram enormes sucessos dance na cidade e no mundo inteiro. Conseguiram fazer com que a Martha Wash cantasse com eles, e ela era uma das Weather Girls. Ela cantava todos os ganchos, mas ela é uma mulher grande, afroamericana; provavelmente tinha uns 30 e vários anos quando eles gravaram. Então eles contrataram uma modelo em Paris para dublar todos os clipes e ser o rosto da banda. E o disco vendeu milhões de cópias e se tornou um enorme sucesso. E só depois foi revelado que a Martha Wash era a cantora. Acabou com um escândalo, e a Martha os processou e ganhou uma indenização. Era sobre criar uma embalagem que as pessoas fossem querer comprar. E ser sedutor: uma bela mulher cantando com uma bela voz. Esse era um paradigma interessante para mim.

Quando as pessoas vêem a minha música através da percepção do meu corpo físico, isso seguidamente restringe muito a sua habilidade de abrir a sua mente para ela, porque elas a ouvem através da identidade política do meu corpo. No show, encontro maneiras de expandir isso, criando um oráculo feminino amorfo que apresenta a música. E fiz isso até certo ponto com [minha parceria de 2004 com o artista Charles Bradley] Turning. Trabalhei com 13 mulheres, e fizemos retratos delas que eram projetados atrás de mim, e sentia os espíritos delas penetrarem em mim. E eu conseguia mudar de forma — você tem essa noção mais espectral da pessoa que está projetando a voz.

Nunca me interessei muito pelo meu corpo físico como um canal visual convincente para a minha voz. Nunca me senti confortável parada no palco, tentando negociar o que é que as pessoas estão vendo. [Apontando para si mesma] Isso nunca esteve "à venda", particularmente. Sempre foi um subproduto desagradável do fato de eu ser uma cantora. Então, para mim, tenho separado minha voz do meu corpo de certa forma. Essa era a minha ideia: que eu seria aniquilada.

Então estava pensando em corpos aspiracionais e trabalhar com diferentes modelos para achar um corpo que, de certa forma, pudesse representar o material mais intensamente do que eu poderia. Por exemplo, a imagem da Naomi Campbell cantando a música. Todo mundo sabe que não é ela; não é a modelo do Black Box, porque todo mundo sabe que sou eu. Mesmo assim, ver a Naomi cantando a música a transforma totalmente e a torna muito mais universal, porque Naomi é um ícone de beleza e de feminilidade. E, é claro, há uma influência enorme da percepção popular dos diferentes tipos de pessoas e identidades. [Como a maneira como você] vê alguém mais bonito, ou alguém mais jovem, mais velho, uma pessoa com uma experiência trans, alguém negro — como isso muda a ressonância da música? Também é uma discussão sobre em quem confiamos. E como nos impomos? Quem tem mais autoridade moral? Quem tem essa voz?

Esta "campanha de olhos bem abertos" parece semelhante a olhar um gramado e tentar memorizar cada folha. Você se preocupa que isso possa ser uma receita para enlouquecer?

Acho que até certo ponto isso é verdade. Mas o que é mais importante nisso tudo, a meu ver, é determinar precisamente a sua esfera de influência e trabalhar dentro dela. Tenho uma esfera de influência neste exato momento, em que estou falando com você como um veículo da mídia, no qual potencialmente podemos ter uma ampla esfera de influência, então estou realmente explicando todos os pontos.

Não sugiro que todo mundo mergulhe até o fundo: sou iniciante e estou deslumbrada. Mas também sinto que esse é o meu prazer. Tenho muita sorte de ter a chance de falar. Sou provavelmente uma das primeiras pessoas trans a ter a chance de falar sobre qualquer coisa. Há uma conversa trans em Hollywood, mas eles só falam sobre [questões] trans. Estou falando sobre o mundo inteiro de uma perspectiva trans. Sou muito grata à deusa. Sou muito grata à terra por me dar este momento.

Hopelessness foi lançado no dia 6 de maio pelos selos Secretly Canadian e Rough Trade.

Tradução: Fernanda Botta

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