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A DJ Rachael quer mais mulheres na dance music de Uganda

PorAlice McCoolTraduzido porThiago “Índio” Silva

A produtora está dando um gás na cena eletrônica do leste africano e levando jovens mulheres à música através de seu coletivo, Femme Electronic.

Kampala é mais compacta e menos conhecida que Nairóbi, mas a capital de Uganda é que nem aquele festival pequeno que você curte — é tão legal que você não quer que muitos conheçam. Entre suas preciosidades temos DJ Rachael, a primeira DJ mulher do leste africano, e a emergente cena eletrônica da qual ela faz parte.

Ela acaba de celebrar 20 anos na música eletrônica — conquista que também comemoramos aqui no THUMP com a estreia de sua mais nova faixa, "Kiroot", disponível para streaming abaixo. Sua carreira englobou diversos gêneros, do deep house ao dubstep, do drum'n'bass ao prog house, e agora ela usa a influência de sua posição para ajudar gerações mais jovens de mulheres a se educarem como DJs e em produção musical por meio de seu coletivo Femme Electronic.

Quando nos encontramos em uma noite de terça, por volta da meia-noite, a pequerrucha DJ de 39 anos me dá um salve com voz estridente. Ela está de boné, jeans escuro e uma camiseta preta com estampa da "The Rapture", evento que bolou para comemorar seus 20 anos como DJ.

Naquela mesma noite, mais cedo, a artista e sua equipe haviam perdido um voo para a Itália (problemas com papelada), onde faria alguns shows e seria atração principal da inauguração do Impact Hub, espaço de artes em Florença. Ao passo em que ela parece visivelmente estressada ao tentar arranjar um novo voo, há um ar de cool que deixa claro que ela não se abalará por isso.

Uganda não é o lugar mais fácil do mundo para ser um DJ. "O DJ aqui vive o presente, com shows sem planejamento nenhum, cachê minúsculo, sem lojas de disco, sem acesso à lojas de música online", explica Rachael Ray Kungu.

Ela comenta ainda que quem trabalha com música eletrônica em Uganda sofre com internet cara — a maioria usa 3G em seus celulares já que a mensalidade da banda larga chega a custar o triplo do país vizinho Quênia. Tudo isso faz com que o custo de baixar e subir músicas seja impraticável para quem quer começar na indústria.

Mesmo assim, de acordo com Rachael, a comunidade vem crescendo rapidamente, citando aí festas underground e festivais anuais que ajudam a cena a "ferver", tais como a Bayimba (onde KANEKASI - Santuri Safari (Esa's Dark Meme Remix) foi gravada ao vivo com a participação de vários artistas internacionais e de Uganda) e Nyege Nyege, festival que está em seu terceiro ano e ajudou a revelar os grooves afro profundos da DJ Kampire, integrante do coletivo Femme Electronic. "As pessoas amam house, dubstep, drum'n'bass e reggae dub aqui em Uganda", comenta Rachael.

Além das dificuldades econômicas e falta de acesso a recursos, DJs aspirantes em Uganda também precisam lidar com a ampla desigualdade de gênero no país. Uganda ficou em 163º lugar entre 188 países no mais recente Índice de Desenvolvimento por Gênero das Nações Unidas, que mede as diferenças no desenvolvimento entre homens e mulheres nos campos da saúde, conhecimento e condições de vida.

Em 2014, o país ganhou manchetes pelo mundo quando uma série de medidas antipornografia baniram o uso de minissaias, o que fez com que um grupo de vigilantes masculinos arrancassem as roupas de mulheres na rua quando consideradas inapropriadas.

DJ Rachael junto do coletivo Femme Electronic.

Estereótipos sexistas perpetuam-se pela cena musical também. "A música eletrônica é enérgica e movida por passos de dança bastante agressivos, então acredito que seja associada com homens. É difícil achar mulheres aqui que sigam a música eletrônica com paixão", explica Rachael.

"Mas quando você encontra essas mulheres, elas são enérgicas, passionais e totalmente imersas na música eletrônica — as que conheço não param de dançar até o fim da festa."

Rachael diz ter se envolvido com a música logo cedo: cresceu rimando, cantando e dançando na sala de casa. Tudo com o apoio da família, "que pensava que eu estava seguindo os passos da minha mãe, que era assim quando mais nova".

Na adolescência ela foi MC com "uma molecada gente boa da minha idade e que falava a mesma língua do hip-hop, rap e R&B, pulando ao som de Slam e cantando junto."

Aos 17 anos, Rachael participou de um evento como MC onde teve seu primeiro gostinho do que é ser DJ, e ela adorou. Porém, algumas das boates de Kampala são perigosas para garotas mais novas por conta de homens mais velhos que, de acordo com a artista, "aproveitam-se delas e as obrigam a ir para casa com eles e se casarem... Tem muito homem mais velho com namoradas mais novas que suas filhas."

Provavelmente por isso sua mãe — independentemente de seu amor pela música — não ficou nada feliz quando descobriu que sua filha era DJ nas horas vagas, chegando numa boate em que ela tocava pra levar um lero com o gerente.

"Talvez ela achasse que eu fosse largar a escola, mas depois virou minha fã, apesar de que minha tia sempre foi mais descolada, me deixava ir nas festas, com motorista e tudo", conta em meio a risos.
Rachael toca desde então. "Estava tocando meu som e adorando aquilo. Mas sempre quis fazer uma turnê nos EUA ou Europa mesmo sem acesso a nada", explica.

Aos poucos a mídia internacional e shows no leste africano começaram a lhe render algum reconhecimento, sendo escolhida pra tocar na WOMEX World Music Expo na Espanha no ano passado.
Milhares de DJs se escreveram e uns poucos DJs africanos se deram bem. Apesar de toda essa atenção, como tantos outros DJs, Rachael não consegue sobreviver só com a grana de shows. Para manter as contas em dia, Rachael tem sua empresa — chamada Skit Mobile Events — um soundsystem que ela aluga para festas fechadas em Kampala.

Os DJs de Uganda não estão nessa pela grana, isso é óbvio, menos ainda Rachael que fundou uma série de iniciativas sem fins lucrativos por lá, incluindo a Femme Electronic, organização que busca aumentar a presença de DJs femininas no leste africano.

Desde abril do ano passado, Rachael tem realizado oficinas em Kampala pelo menos uma vez ao mês, além de organizar apresentações e programas de residência para 25 mulheres participantes. A versão queniana da Femme Electronic deve ser lançada ao final de 2017.

"Senti que as mulheres DJs pediam bons shows e festivais porque faltava apoio... Elas eram invisíveis", disse Rachael, comentando ainda "também pensei que elas seriam mais fortes em grupo em vez de sozinhas, como sempre foi."

Além da mentoria da própria DJ Rachael, o coletivo teve treinamento de artistas internacionais como Ena Lind do coletivo feminino de DJs alemão Mint Berlin e da famosa DJ feminista The Black Madonna, também conhecida como Marea Stamper.

A série de festas DAPHNE de Stamper celebram DJs mulheres e não-binárias, contando inclusive com a presença de Rachael em Chicago em janeiro deste ano. O "manifesto" de Stamper destaca a importância da união feminina em uma indústria dominada por homens: "Já que há tão poucas mulheres em relação a homens... Podemos criar grupos para elas. Isso está acontecendo agora, há diversas redes de mulheres que não existiam há cinco anos."

De volta à casa da Rachael, ela comenta um tópico que tem pesado bastante recentemente — o que fazer daqui em diante. Uma vida em Uganda versus uma carreira internacional é um dilema que muitos criativos em países da África subsaariana passam, ao passo em que sua necessidade de ter um sustento se opõe à paixão de melhorar a cena em sua terra natal.

DJ Rachael teve uma carreira longa, e quando confrontada sobre o tema, responde que já fez muito pela cena local e é hora de ir além. "Mas ainda há muito a oferecer àqueles que me acompanham e me amam", diz. "Acredito que isso possa me manter em casa regularmente. E casa é onde a música está".