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“Quero Que As Pessoas Vejam o Que Faço, o Que Toco”: Uma Entrevista com Kevin Saunderson

Batemos um papo com a lenda do techno Kevin Saunderson para saber como o Movement se desenvolveu em Detroit e o que ele procura em novos artistas.

Lizzy Sermol

Foto – Cortesia de Phil Conners

Quando o Movement, então conhecido como Detroit Electronic Music Festival, foi lançado em 2000, ele foi aclamado mundialmente como uma fantástica celebração do techno na cidade em que o gênero nasceu. Quatorze anos depois, o festival segue firme e forte como um dos melhores do mundo para a música eletrônica e continua atraindo milhares de pessoas tão apaixonadas pelo gênero quanto os próprios fundadores do festival. A cidade de Detroit pode ter mudado muito na última década e meia, mas o Movement segue como uma parte indestrutível da vida na cidade. E quem melhor para falar sobre o seu impacto senão um de seus fundadores e um terço do famoso Belleville Three — Kevin Saunderson?

Sentado no ar-condicionado da área atrás do palco Red Bull, esperei enquanto Kevin e seus filhos Dantiez and Damarii terminavam de testar os novos equipamentos Roland do nosso lado. Olhando pela janela, vejo fileiras e fileiras de frequentadores do festival brilhando e chacoalhando ao sol de verão. O som do baixo balançou as janelas, e no canto, as torres da GM ascendiam de forma ameaçadora. De repente, caiu a ficha de onde eu estava e com quem encontraria e do que tudo isso se tratava. Aqui estava uma cidade destruída pelo capitalismo e nepotismo, salva pelas pessoas que mais foram atingidas e salvas pela música. Era surreal. A ironia poética da paisagem quase parecia ser planejada.

Saí de meu devaneio na hora em que Kevin acabava de fuçar o equipamento da Roland junto com Dantiez e Damarii, e rapidamente limpei o suor de minhas mãos. Mas não teve jeito, estava tão nervosa que a costumeira técnica infalível de meter as mãos na calça falharam, e fiquei parecendo ainda mais imbecil com as duas mãos nas pernas. 

Comecei bem. Iria encontrar uma das maiores lendas do techno, um dos pioneiros de um som que infectou o planeta e inspirou milhares e milhares de pessoas a criar, tocar, promover e desenvolver suas próprias interpretações da música, e parecia que eu estava prestes a criar meu próprio tique nervoso. Apertei a mão dele, sorri meio que me desculpando e então nos sentamos para começar a entrevista. Fomos interrompidos algumas vezes enquanto outros integrantes do clã Saunderson chegavam junto, completamente inconscientes de que meu coração que já batia forte só corria ainda mais com cada novo membro da família que aparecia. Estava ali sentada com o que presumo ser ao menos cerca de três gerações dos Saunderson. Nenhuma pressão, né? Finalmente, assim que Kevin voltou sua atenção a mim, balbuciei minha primeira pergunta. Mesmo com o coração na garganta, a presença calma e riso fácil de Kevin me deixaram bem mais à vontade, e a conversa começou a fluir.


Foto – Cortesia de Phil Conners

Vinda de Toronto, uma cidade em que aparentemente há uma aversão a tudo relacionado à música eletrônica e espaços públicos, eu estava fascinada como o amor pelo festival e pelo  som que cotaminavam a cidade. Perguntei a Kevin sobre isso, o que ele achava ter sido instrumental para desenvolver uma forte cultura musical em uma cidade. Sua resposta foi simples:

"O que importa é a música. Você tem que ter a música certa, a música boa. Você tem que ter as pessoas que irá inspirar, não as que te seguirão. No começo, essa era minha filosofia. Quando encontrei Juan Atkins e Derek May, pensei que gostaria de fazer o que eles faziam, mas precisava encontrar meu nicho dentro daquilo. O que Detroit e nosso papel na construção desse gênero fizeram com o decorrer do tempo tem efeitos que vemos ao redor do mundo – só decidimos que tínhamos que começar de algum ponto, e olha onde estamos agora".

Eu estava curiosa para saber se a cidade sempre havia sido uma apoiadora do festival ou se houve alguma resistência. Kevin me explicou que quando ele assumiu o festival em 2005, Detroit era o maior obstáculo para a realização do evento. "Eu disse a eles: Não venham falar comigo de última hora. Claro que foi isso que eles fizeram e eu tive que tomar uma decisão difícil. Foi quase morte certa, mas fiz o que tinha ser feito e o evento aconteceu. A cidade tinha um clima de gângsteres na época – odeio dizer isso, mas era assim mesmo. Naquele ponto me afastei um pouco, mas a galera do Paxahau, que eu havia chamado pra fazer o festival rolar, deu conta de tudo e foram as pessoas certas. Estou rodando o mundo, Derrick também, Carl – por mais que entendamos o que precisa acontecer, é um equilíbrio difícil de se obter, organizar um festival, tocar para pessoas do mundo inteiro, e certificar-se de que está tudo certo um fim de semana por ano. Logo, está tudo nas mãos certas".

Kevin deveria tocar das 21h às 21h45 naquela noite no palco Made in Detroit, numa performance chamada Origins. Ele tocaria com mais um monte de novatos e veteranos da cena de Detroit, a ideia era rolar uma jam para mostrar as interpretações modernas e clássicas do som de Detroit. "Quero que as pessoas vejam o que faço, o que toco", disse Kevin sobre a ideia por trás de Origins. "Não toco apenas um som, trabalho com muita variação. Então Origins trata de, bem, todos tocando ali são escolhidos a dedo, dos mais novos aos que já estão na cena há algum tempo. É um show para proteger e mostrar a integridade de nossa música, mostrando que isso não surgiu de um lugar qualquer. É daqui".


Foto – Cortesia de Josh Hanford

Quando questionei Kevin sobre escolher artistas novos, também fiquei pensando sobre o que ele mais busca nestes artistas. "O primeiro fator é a ética de trabalho. É preciso determinação de verdade. E talento, claro, mas às vezes demora para que esse talento amadureça, cresça, melhore, um tempo que leva para se desenvolver a sonoridade e entender de fato as ferramentas".

Aproveitei a oportunidade para perguntar que conselho ele daria para produtores ou DJs jovens que esperam um dia trabalhar ao seu lado. "Olha, só porque você não me chama atenção de primeira, isso não quer dizer que nunca vou ouvir seus trabalhos", disse Kevin. "É preciso determinação. A molecada quer fazer música muito rápido, mas é preciso desenvolver suas habilidades. Outra coisa: siga seus instintos. Definitivamente. Não dá pra se envergonhar se você segue seus instintos. Se você se deixar levar por outra pessoa, dará vexame. Não acontecerá isso se confiar em si mesmo".

Comentei que este mantra lhe caiu bem, claramente, e ele deixou sair um riso abafado e profundo, olhando pela janela em direção ao palco e público atrás da gente. "Com certeza. Olha onde estamos". A essa altura o filho de Kevin, Damarii, veio falar com seu pai. Kevin nos apresentou e apertamos as mãos um do outro. Para meu grande alívio, minhas mãos tinham voltado ao normal, o que me poupou a vergonha de outro aperto de mão suado. Seus dois filhos também são produtores, então perguntei a ele como os garotos o ajudam a manter a música em seu selo sempre nova e encontrar novos artistas.

"Meu filho é o cara de A&R (Artistas e Repertório), então tudo passa por ele antes. Ele sabe o que gosto e o que procuro, e quando esbarra em algo que gosta ou acha que eu vou gostar, chamamos esse pessoal e começamos o trabalho. Buscamos artistas que queiram fazer alguns discos, focar na carreira, não só porque pegaram seus computadores e decidiram que iriam fazer um álbum."

Infelizmente meu tempo com o Kevin havia acabado. Agradeci pela entrevista e recebi um de seus grandes e brilhantes sorrisos e um suave acenar de cabeça. "O prazer foi todo meu, divirta-se no festival," ele disse, e tomamos nossos rumos.

Tradução: Thiago "Índio" Silva