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Photo by Bryan Mitchell

As Tretas e os Triunfos da Maior Edição do Festival Movement Detroit

Rachael D’Amore

Rachael D’Amore

Mais de 100 mil pessoas curtiram os três dias da mais importante festa da cidade que é berço do techno.

Photo by Bryan Mitchell

Depois de meses em banho maria, o festival Movement Detroit finalmente aconteceu no Hart Plaza na floresta urbana de Detroit, Michigan, nos Estados Unidos, entre os dias 23 a 25 deste mês, ostentando sua autoridade na música techno e house. O Hart Plaza fica na beira da zona portuária da cidade situada perto da fronteira com o Canadá e é escoltado pelo reluzente, e de certa forma intimidante, arranha-céu da GM. O festival foi provavelmente o mais rentável do ano até agora, de acordo com os organizadores, contando com a presença de mais de 100 mil pessoas ao longo dos três dias. Mas assim como com qualquer outra coisa, quando algo emerge do underground, sempre acontecem algumas mudanças.

É óbvio que a rádio online Paxahau, responsável pela organização do Movement, tentou fazer com que o festival não excedesse seu limite, mas a multidão que baixou por lá não deixou isso acontecer. No sábado à tarde, uma pane no sistema de ingressos causou furor na bilheteria e deixou os fãs, que geralmente são bem de boa, totalmente enfurecidos. As quase quatro horas de espera fizeram com que os espectadores acessassem o Facebook do festival em busca de respostas e ajuda, e acabaram se deparando com uma foto extremamente enganosa de uma fila VIP absolutamente vazia, significando que as portas estavam abertas. A Paxahau se desculpou e prometeu aumentar seu quadro de funcionários de forma significativa para o próximo ano, apesar da cagada já ter sido feita.

Foto por Bryan Mitchell.

Entretanto, nada é mais recomendado para dias ruins que música. Os chapas do Dirtybird Catz 'N Dogz, o mestre dos equipamentos analógicos KiNK, e os embaixadores do funk Soul Clap, montaram suas parafernalhas no palco Beatport no sábado e chamaram os baladeiros para a zueira. O palco do THUMP se manteve estável o dia todo, desde o doce e obscuro redemoinho do Gaiser até o próprio Stacey Pullen de Detroit e sua virtuosidade desenfreada. Uma marinheira de primeira viagem do som do Stacey até parou de dançar por um minuto, olhou para sua amiga e disse, bem certa do que estava falando: "Acho que vou ficar exatamente aqui o fim de semana inteiro".

A história inusitada por trás de um som do Disclosure

Como já era de se esperar, todas as garotas de Michigan foram correndo até o palco do Red Bull Music Academy para ver o Disclosure. Se tiveram sorte, até conferiram um Eats Everything antes. Para algumas, o momento em que "When a Fire Starts To Burn" começou a tocar, foi uma deixa para ver o Richie Hawtin fechar a noite.

Foto por Joe Gall.

No domingo, a questão da fila já tinha sido resolvida. O Art Department, que parecia bem desinteressado, fez um dos seus últimos shows no palco principal do Movement, seguido do infalível Loco Dice. Mais tarde, o mashup do Boys Noize e Skrillex, Dog Blood, trouxe a rapeize em peso até o palco. Apesar de estar rodeado por várias (sério, várias) figuras ilustres do techno e mestres do house, poder balançar um pouco a cabeça foi um alívio. Não tem nada de errado em se lambusar com "Next Order" quando se está embaixo de um viaduto parcialmente cimentado.

Omulu foi testemunha ocular do do set do Jack Ü no moro do Vidigal

Enquanto a música atendeu as expectativas, foi a produção que as superou, comprovando o famigerado mantra do fim de semana, "Detroit Arregaça Demais". Desde os seis palcos intrincados ao ar livre, passando pela pirâmide de cimento no palco Beatport (essencialmente uma academia na floresta) até o Plaza e suas paredes que pareciam ser feitas de quadros negros, o ambiente era autêntico. Mas nenhuma decoração te deixava esquecer por que você estava ali - a música.

O festival também fez uma parceria com o Opportunity Detroit para fornecer uma série de novos serviços no local. A área "New Technology", escondida nas profundezas do palco Underground, ofereceu aos nerds dos equipamentos um lugar para se maravilhar com as melhores marcas da indústria, incluindo Roland, Serato e Elektron. Ao longo da orla você poderia encontrar um gramado expandido e um homem com uma carta de cervejas artesanais na Biergarten. Ao seu lado, estava a exposição de arte "This Is Detroit", um pilar fundamental do Movement, esse ano comissionada pela Novation. Seis quadros foram altivamente preenchidos com representações da história musical rica e célebre de Detroit, cada um deles demonstrando o orgulho enraizado em sua cidade e seu povo.

Foto por Bryan Mitchell.

Rolou uma vibe família quando o Kevin Saunderson, um dos pais do techno, comandou o showcase Origins no palco Made in Detroit do THUMP na segunda. Os dois filhos do Saunderson, Damarri (25) e Dantiez (22) se apresentaram sob o olhar atento de seu pai, que mais tarde encerrou as atividades do palco com uma rara colaboração com Derrick May, do trio de techno Belleville Three. Embaixo da escultura poderosa "Transcendente" ("Transcending", no original, uma espécie de anel gigante presente nas fotos do Instagram de todo mundo), um grupo de veteranos instigaram uma dancinha oitentista enquanto os irmãos Saunderson exibiam seu dom. O nativo de Michigan Derek Plaslaiko até chegou a levar seu bebê sorridente até o palco para dar um tchau no fim do seu set no domingo. Para esses que não tinham laços sanguíneos, o nível de solidariedade genuína com estranhos através da música e dança é o tipo de imagem de Detroit que precisa continuar sendo representada nas pinturas.

Uma entrevista com Kevin Saunderson

Se na segunda à noite você ainda não tivesse topado com o stand de comida do Slow's para conferir sua lendária culinária do sul de Detroit e acabado nocauteado em uma rede logo depois, ainda teve tempo de testemunhar alter-ego DJ do Snoop Dog, o Snoopadelic. Deixar o hino do Big Sean "IDFWU" tocar incessantemente do início ao fim é um crime em qualquer circunstância, mas fazê-lo durante o Movement garante seu desterro completo. (Os puristas estavam ronronando ao redor dos Saunderson e Derrick May naquela hora).

Foto por Bryan Mitchell.

Cada dia do festival correu noite adentro, e em seguida os afters. A festa Innervisions no sábado na Leland City Club, em paralelo com Paradigm, THUMP e Paxahau, foi a prorrogação perfeita, acompanhando o Dixon de um set para o outro. O show de aniversário de dez anos do Dirtybird na The Fillmore no domingo com Claude VonStroke e seus subalternos deixou o antigo teatro ainda mais experiente, pelo que ouvi dizer. Qualquer pessoa que ficou no rolê até depois de meia-noite de segunda provavelmente não está sentindo seus pés até hoje.

A festança do Movement de Detroit é o apogeu da dance music underground. Assim como a própria Detroit, o festival enfrentou os altos e baixos dos tempos de mudança econômica e financeira, mas esse ano, mais uma vez, validou a força da cultura techno de Detroit e a audácia do seu povo. Como alguém que morava do outro lado da fronteira, em Windsor, Ontario, mas só agora viveu este brilho, posso afirmar com certeza absoluta que o Movement é um festival para não ser esquecido nunca mais.

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Rachael deixou toda sua sanidade mental no set do Eats Everything e provavelmente não irá encontrá-la nunca mais, mas você pode segui-la no Twitter.

Tradução: Stefania Cannone