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O Bemônio abandonou a máscara, a cidade e a cólera

Em novo álbum, 'Vão', a agora dupla Paulo Caetano e Eduardo Manso trabalham com as sonoridades mais atmosféricas já apresentadas pelo grupo carioca.

Amanda Cavalcanti

Amanda Cavalcanti

Vão

foi o nome escolhido para preencher o vazio deixado pelo Bemônio nos últimos quase dois anos. Depois do lançamento de Desgosto (2015) e da saída do baterista Gustavo Matos, o futuro incerto do grupo carioca ficara nas mãos de Eduardo Manso e Paulo Caetano, fundador do Bemônio, que voltou de uma viagem internacional e mudou-se para a serra do Rio de Janeiro. "Eu não sabia nem se ia voltar, pra ser sincero", comenta Paulo, em entrevista por telefone. "Mas foi uma coisa meio que surgiu conversando com o Manso, o guitarrista. Ele me deu uma força, um estímulo. E acabou acontecendo o álbum."

Ao fazer a proposta de lançar o disco pela QTV, como me conta uma das cabeças da label Bernardo Oliveira, Paulo disse pouco: Bemônio é, agora, um trio. Não há novas fotos ou informações sobre o disco. Ele não usa mais máscara nas apresentações. Pra mim, ele falou que o disco foi gravado em duas sessões e que não há participações especiais. Todas essas ausências formaram Vão.

A ausência mais aparente, porém, talvez seja a da cólera. Como explica Paulo, "o Bemônio sempre foi uma terapia minha, uma válvula de escape pra todo o ódio e raiva que eu sentia. Era muito visceral nesse sentido, de eu usar máscara, usar capa, vestimenta de exú, essas coisas religiosas. É como se fosse um expurgo, um vômito." Essa raiva se traduzia no som denso e, por vezes, ruidoso dos discos anteriores do grupo carioca, como LODO (2014). Mas não é essa sonoridade a que toma forma em Vão. Definido por Paulo como "ambient", o disco continua trabalhando com a repetição drone que caracterizava o som do Bemônio, mas com nuances muito mais leves proporcionadas por seu synth e loops de guitarra de Manso.

Paulo prossegue: "[Vão] está numa coisa mais etérea, sem muitos temas pré-estabelecidos. Não é nada inovador, mas pra mim é novo pela minha experiência. Estou na área rural, e sair do meio transforma muito isso. Muda a rotina. Só a mudança de clima em relação ao lado caótico que está o Rio de Janeiro e todo o processo em que eu fiquei três meses fora do país. Isso traduziu muito no som do Bemônio."

Paulo e Manso chegaram ao estúdio sem ideias pré-estabelecidas para Vão, que ainda não tinha um nome ou uma arte definida – uma novidade no processo de composição da dupla. Após mais ou menos dezesseis horas de gravação e mixagem praticamente sem edição, o duo tinha em mãos quase quarenta minutos em três faixas: "O", "." e "Ø".

"O nome das faixas são símbolos de vazio. O nome veio porque, quando ouvimos o álbum todo, conversamos: 'Tá faltando alguma coisa, não tá?' 'Tá. Mas deixa faltar.' Por isso é Vão. Parece que tá faltando uma coisinha aqui, ali, um instrumento. É, deixa faltar."

Ouça Vão, que sai pela QTV:

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