Co-fundador da Ableton afirma: "Precisamos de uma revolução na educação musical"

A tecnologia deve ser acessível para a próxima geração de artistas, disse Gerard Behles.

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jun 6 2017, 12:00pm

Quando se fala do futuro da tecnologia musical, talvez não exista ninguém mais qualificado para fazer previsões do que Gerard Behles. Como co-fundador da Ableton, ele ajudou a desenvolver softwares que revolucionaram a forma como artistas profissionais e entusiastas criam e gerenciam seu fluxo de trabalho, incluindo aí ferramentas como o Ableton Live, Push, dentre outras. Ao longo de mais de 18 anos, o nome da empresa com sede em Berlim tornou-se sinônimo de produção eletrônica e eles seguem inovando, há pouco lançando a série de tutoriais onlines gratuitos Learning Music.

No Moogfest deste ano em Durham, na Carolina do Norte, o ex-integrante do Monolake fez uma grande apresentação que falava dos últimos 40.000 anos de desenvolvimento musical. Começando com slides de flautas de osso pré-históricas, Behles traçou a evolução dos "meta-instrumentos" de hoje como o MPC e o Live, além de falar sobre a filosofia de Ableton de ajudar artistas a "viverem momentos de êxtase através de um fluxo criativo ininterrupto".

Temos aqui cinco pontos-chave da apresentação de Behles que mostram como a tecnologia mudou a forma como fazemos música e onde isso pode parar.


1. A miniaturização da tecnologia facilita com que artistas sejam independentes.

"Com a introdução do sintetizador, o estúdio musical vira um único instrumento — não precisamos nem mesmo de uma fonte porque ele pode gerar o som em si. Então vem o computador, e o computador oferece uma precisão inédita que oferece toda uma nova profundidade ao que pode ser feito.

Tempos depois, o computador caseiro torna-se tão poderoso que pessoas passam a usá-los como estúdios de gravação para criar música por conta própria. A miniaturização continua, agora o computador cabe numa mochila e podemos levá-lo até um show. O notebook pode servir de apoio para música ao vivo e estamos acostumados a levar em nossos bolsos o equivalente a um mainframe em termos de poder computacional."

2. Meta-instrumentos como o Ableton Live e MPCs foram criados com estúdios e instrumentos tradicionais em mente.

"Com um MPC, de forma rudimentar, você poderia tratar de qualquer aspecto musical que quisesse. Daria pra fazer uma batida, harmonia, melodia, mixagem e até mesmo gravar e sequenciar e o que bem entender. É uma combinação de instrumento com estúdio num aparelho só. Tem uma almofadinha [no controlador] que é uma referência àquela numa mesa de mixagem clássica.

Quando o Ableton Live foi lançado, ele também foi concebido como um meta-instrumento. É um programa que pode suprir as funções de um estúdio musical, mas organizado de tal forma que você pode abordá-lo de forma divertida ao lidar com seu material, é possível improvisar e criar música através dessa improvisação".

3. A definição de "músico" mudou para englobar diversos papeis diferentes.

"O que é um criador de música? Aquela pessoa que escreve a canção, o compositor, mas muitas vezes também o responsável pelos arranjos, que toca a música e é seu próprio engenheiro de som. Eles criam seus próprios sons e por aí vai.

Muitas vezes estas pessoas são chamadas de "produtores" e a maneira como este termo vem mudando ao longo dos anos é indicativa do ritmo da mudança. Se você cresceu nos anos 80 e escuta essa palavra, pensa em alguém como Quincy Jones, um cara que coordena um enorme esforço conjunto para entregar um disco fantástico como Thriller de Michael Jackson. Agora quando falamos de produtores, pensamos em alguém que consegue fazer tudo que quiser com a música sozinho. Não é como se eles não colaborassem com ninguém, mas os motivos que levam a esta colaboração mudaram. Não preciso mais ir atrás de alguém porque senão não haveria música, agora posso escolher a abordagem e gostos.

Sendo assim, queremos todos ser grandes compositores ou instrumentistas ou grande qualquer coisa. A verdade que é não somos só isso, mas também um DJ na noite ou nosso próprio agente ou o dono de uma gravadora e talvez com um emprego comum. Quem faz música hoje assume um papel que é composto por diversos outros em um só, caracterizado pelo controle total do resultado, a música."

4. Por mais que a tecnologia tenha tornado a criação da música mais acessível, nada substitui a prática.

"Penso que muitas vezes as pessoas entram nessa por conta de uma ilusão. Me incomoda que nossa indústria de alguma forma alimente a ilusão de fama e fortuna obtida pela aquisição de equipamentos ou mesmo educação, quando fama e fortuna não fazem parte da vida de muitos que escolhem ser músicos. Há diversas outras recompensas muito mais importantes e que deveríamos destacar.

Ao observar alguém criando música podemos ver uma pessoa tão imersa no fluxo de criatividade que ela esquece se é dia ou noite e até mesmo de comer. Propomos não simplificar nada ou retirar a dificuldade da prática e aprendizado da equação, tentamos focar nestas experiências recompensadoras e facilitar com que as pessoas sigam criando."

5. As crianças são o futuro.

"Lançamos um programa em que coletamos instrumentos Push, os recondicionamos e estamos distribuindo-os de forma gratuita para escolas. Precisamos de uma revolução na educação musical — 20% dos jovens que frequentam a escola [nos EUA] tem aulas de música e o resto não tem nada, e isso está totalmente errado. Agora estamos vendo os resultados de nossa iniciativa e estou bem empolgado. Muitas vezes nos surpreendemos nas salas de aula ao ver que a molecada está se dando bem com a tecnologia. Levando em conta minha própria história, eu encontrei propósito na música e quero garantir que os jovens de hoje encontrem isso também."

Foto de capa por Meg Cowan, fotos de Gerard Behles por James Huang.

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