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Por que Buenos Aires está em guerra contra a música eletrônica?

Depois de mortes registradas durante o Time Warp, o governo portenho proibiu a realização de raves, enquanto jovens se organizam por conta própria fazendo da balada um ato político.

Frederick Bernas

Todas as fotos pelo autor, exceto quando indicado o contrário.

Nas primeiras horas do dia 16 de abril, uma frota de ambulâncias, com as sirenes ligadas, chegou ao complexo de lazer Costa Salguero, às margens do Rio de La Plata, onde a terceira edição do festival argentino Time Warp — um importante festival de dance music, originado na Alemanha, nos anos 90 — acontecia a pleno vapor.

Segundo noticiou a BBC, cinco pessoas, com idades entre 20 e 25 anos, morreram após usar drogas no evento aquela noite, tendo vestígios de comprimidos vermelhos — talvez as pílulas "Superman" ligadas a uma série de mortes ocorrida na Inglaterra ano passado — detectados em seus corpos. Segundo a imprensa local, três outras pessoas presentes no festival foram hospitalizadas, uma das quais talvez tenha morrido, mas o THUMP não conseguiu confirmar essas informações.

Foto via site do Time Warp Argentina.

O desastre que se aproximava não chegou sem antes emitir sinais de alerta. Fontes do governo informaram que quase 24 mil pessoas entraram pelos portões da Time Warp, apesar da capacidade do local ser para um público de 13 mil. O calor excessivo no lugar causado pela multidão que se avolumava piorou quando o fornecimento de água das torneiras foi cortado aproximadamente às duas da manhã, várias horas antes do final do evento, deixando como única opção a compra de água a um preço de 40 pesos (quase R$ 10) a garrafa — um preço alto, em comparação com a média na Argentina — usando um complexo sistema de tíquetes num bar lotado de ravers sedentos.

A tragédia no Time Warp, então, marcou o início de uma guerra aberta promovida pelo governo local contra a música eletrônica em Buenos Aires. As tensões entre as autoridades e os DJs, promoters e proprietários de espaços para eventos da cidade — que vinha sendo cozinhada em fogo brando desde 2004, quando um incêndio de grandes proporções em uma casa noturna ceifou 194 vidas — entraram em erupção por conta de uma proibição temporária de eventos de música eletrônica na cidade, anunciado no último dia 11 de maio. Vários festivais e shows em Buenos Aires já foram cancelados ou adiados, e uma nuvem de incertezas paira sobre o futuro da vibrante cultura de música eletrônica da capital argentina, com as autoridades locais disputando sobre como melhor regulamentar sua misteriosa vida noturna.

Uma reunião de "Hard Electronica" realizada no porão de uma casa, no bairro de San Telmo.

O primeiro movimento do atual jogo de xadrez político das autoridades locais veio do juiz Roberto Gallardo, de Buenos Aires, que emitiu uma ordem judicial no dia 28 de abril, quase duas semanas após as mortes, proibindo "todas as atividades comerciais envolvendo a dança ao som de música ao vivo ou gravada", com a exceção de eventos mais tradicionais, como as milongas de tango realizadas em centros culturais.

A decisão de Gallardo foi, na prática, uma tentativa de fechar todas as casas noturnas da cidade enquanto as autoridades investigavam quais delas tocavam música eletrônica. Segundo a proposta do juiz, a proibição só seria aplicada então aos espaços em que raves eram realizadas.

Em muitos cantos da cidade houve oposição renhida à proibição abrangente imposta por Gallardo. Em um vídeo publicado em seu perfil no Twitter, o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larretta, disse que se tratava de "uma ideia realmente louca", algo parecido com tirar de circulação todos os carros por causa de um acidente de trânsito. Noticia-se que Jorge Becco, presidente da câmara de proprietários de discotecas de Buenos Aires, perguntou, num programa da TV local: "Como se pode obedecer a uma decisão totalmente inconstitucional como essa?"

Numa declaração escrita enviada ao THUMP, Gallardo explicou seus motivos, argumentando que o Estado deveria exercer controle sobre todos os eventos públicos, de maneira a "garantir a integridade física e a vida dos consumidores". Ele criticou qualquer um — inclusive autoridades e proprietários de casas noturnas — que criticasse sua decisão sem assumir a responsabilidade por "erros grosseiros" na regulamentação da vida noturna.

"Ninguém deve abster-se de suas obrigações legais, ou escapar à punição pelos danos que causaram", escreveu Gallardo.

Hard Electronica.

Contudo, a decisão de Gallardo foi suspensa poucas horas depois, por um outro juiz, Lisandro Fastman, que deixou claro que a proibição só deveria se aplicar aos festivais de música eletrônica. Em 11 de maio, Fastman emitiu uma nova ordem, ainda em vigência, que temporariamente proíbe todos os estabelecimentos comerciais de realizar eventos com "características semelhantes" às do Time Warp — mesmo que os espaços cumpram as regulamentações de segurança. Fastman escreveu que sua decisão teve o propósito de "salvaguardar a saúde e a integridade física" das pessoas que frequentavam as casas noturnas, enquanto o sistema judicial revisava os recursos feitos pelo governo municipal e por um grupo de lobistas representando a indústria da vida noturna.

Mas algumas pessoas mais próximas aos falecidos culparam as drogas, e não a dance music, pelas mortes. Num post público no Facebook datado de 19 de abril, Mayra Boni, prima de uma das vítimas, Bruno Boni, de 21 anos, alegou que um jarro de água batizado com uma substância tóxica começou a circular pelos banheiros quando o estoque de água dos bares se esgotou. "Pessoas em diferentes partes do [festival] beberam alguma coisa ao mesmo tempo, que os matou", escreveu Mayra.

Mica Altamira, a namorada de Bruno Boni, também colocou pelas mortes na conta dos traficantes de drogas. "Eles mataram o meu namorado como se ele fosse um rato de laboratório", tuitou ela, referindo-se àqueles que venderam substâncias letais aos presentes sem que estes o soubessem.

Altamira, que não esteve no festival, preferiu não comentar a fundo sobre a investigação judicial acerca da morte de Boni. "Esperamos que as pessoas certas sejam punidas, e que tudo isso não tenha sido em vão", ela disse à reportagem via Twitter. "Esperamos que toda a verdade venha à luz."

Enquanto isso, três supostos traficantes foram julgados em um tribunal argentino no último dia 6 de maio, pela suspeita de traficar no festival. Os organizadores do festival também foram acionados pelas autoridades; no final de abril, Adrian Conci, presidente da firma Dell Producciones, produtora do Time Warp Argentina, entregou-se à polícia, chorando e agarrado a um rosário, segundo as notícias. (Edições internacionais de festivais de grande porte, incluindo o Time Warp, são muitas vezes administradas como franquias, em parceria com produtores locais). Um advogado que representava o festival também foi preso, acusado por promotores de ser um dos principais organizadores do evento.

Público de uma casa noturna local chamada Niceto, um dos 14 estabelecimentos identificados como uma prioridade regulatória pelo juiz Gallardo.

Essa não é a primeira vez que a Argentina é abalada por uma tragédia ligada à vida noturna. Em 30 de dezembro de 2004, um grande incêndio na casa noturna República Cromañón, no centro de Buenos Aires, resultou em 194 mortes quando uma labareda fez com que o teto entrasse em combustão, encobrindo de fumaça tóxica os clientes, enquanto tentavam escapar usando saídas de emergência trancadas.

Vieram à tona evidências de que a casa noturna recebera alvarás de funcionamento, apesar de lhe faltarem itens básicos de segurança, e seu dono recebeu uma sentença de 20 anos de prisão. O prefeito de Buenos Aires à época, Aníbal Ibarra, foi destituído do cargo em 2006 após uma extensa investigação a respeito do desastre.

Pessoas já com muita experiência na indústria da música, incluindo artistas, promoters, DJs, e donos de boates, contaram ao THUMP que o incêndio no Cromañón marcou o início de uma política de proibição de baladas encabeçada por parte do governo, que buscou restringir atividades culturais como shows e raves, em vez de encorajar os cidadãos a frequentarem esses lugares com responsabilidade.

"Foi muito difícil encontrar onde tocar", disse Andrés Schteingart, um nativo de Buenos Aires que produz cúmbia digital sob o nome El Remolón. De 2002 a 2004, ele fez parte de um grupo que organizava raves em vários andares em estacionamentos, que atraíam milhares de pessoas. O preço da entrada nesses eventos DIY era um pacote de alimento não perecível, a ser doado para uma ONG local. "As discotecas ficaram com medo de perder a clientela e começaram a nos ameaçar", disse. "Quando eles chamaram as autoridades, fomos obrigados a parar."

O globo espelhado do Niceto.

As restrições governamentais à vida noturna da capital portenha depois do incêndio no Cromañón foram "punitivas e restritivas", mas focadas apenas em pequenas festas DIY, deixando passar relativamente ilesos os eventos maiores, porque as autoridades acreditavam que estes fossem mais fáceis de regular.

"Agora, [depois do] Time Warp, parece que isso está mudando também", disse ele.

A repressão à música eletrônica pós-Time Warp já resultou no cancelamento de eventos de grande porte, incluindo o Diynamic Festival e um show do Dash Berlin no mês passado. Produtores independentes responsáveis por eventos menores também estão sentindo o aperto crescente da regulamentação. Um festival de eletrônica chamado FEBA, que esperava receber 400 pessoas no dia 7 de maio, foi adiado pelo centro cultural Konex, um espaço patrocinado por uma fundação (que foi temporariamente fechado em 2014 por não contar com procedimentos de evacuação) como demonstração de respeito às vítimas do Time Warp.

As inspeções do governo também vêm se tornando mais frequentes. No Bahrein, uma boate conhecida, um funcionário contou à reportagem que as autoridades têm feito duas visitas todas as noites dos finais de semana desde o Time Warp, para verificar as medidas de segurança. No dia 6 de maio, uma casa noturna situada no complexo Costa Salguero, onde foi realizado o Time Warp, foi fechada depois de múltiplas violações, incluindo permitir a entrada de menores. No final de semana anterior, mais de mil pessoas foram expulsas de uma elegante "falsa festa de casamento" numa boate chamada GEBA, quando esta sofreu uma batida policial motivada por inadequação nos procedimentos de segurança.

O músico e promoter do FEBA Nícolas Ejchenbaun contou ao THUMP que ele entende a decisão, mas não gosta de ser associado a eventos de grandes massas como o Time Warp. "É uma pena que um projeto independente seja confundido com o flagelo das superproduções criadas para ganhar dinheiro e promover o narcotráfico, só porque a palavra "eletrônica" também é usada", escreveu ele no Facebook.

Público no Niceto.

Na mesma noite para a qual estava agendada o show de Ejchenbaun, a artista da música eletrônica Augustina Vizcarra estava berrando vocais viajandões por cima de riffs ondulantes de techno em um porão no outro lado da cidade. Viscarra disse que ela já teve vários shows cancelados nas últimas semanas, e acusou as autoridades de "demonizar" sua música ao encorajar a sociedade a "julgar a cultura em termos de moral".

O verdadeiro problema que assola a indústria da música de Buenos Aires, segundo mais de uma dúzia de DJs, promoters e músicos entrevistados pelo THUMP é a corrupção endêmica, com muitos organizadores de eventos subornando autoridades locais. Esses relacionamentos financeiramente lucrativos são difíceis de detectar — mas as suspeitas de corrupção refletem a desconfiança generalizada do público em relação à capacidade do governo de consertar um sistema quebrado, por maior que seja o número de vidas perdidas, ou quantas checagens de segurança são realizadas.

"A corrupção mata tudo, especialmente no setor da vida noturna", disse Martin Nardone (também conhecido como Le Freak Selector), um DJ de house que compareceu ao Time Warp e organiza raves a portas fechadas no badalado bairro de Palermo. Nardone acredita que, em última análise, nesse sistema viciado, os promotores e festas menores acabam sendo jogados para escanteio.

"Todas as grandes casas noturnas subornam inspetores do governo, mas os lugares menores não têm dinheiro para isso, e acabam fechando", disse ele. "O que matou aqueles garotos não foram as drogas e nem a festa. Foi a corrupção", continuou ele, teorizando que o Time Warp talvez tenha conseguido que suas falhas de segurança fossem relevadas graças a acordos escusos com as autoridades.

Outro experiente DJ, que preferiu permanecer anônimo, relatou que uma "máfia" política comanda as boates de Palermo, e controla muitos aspectos da vida noturna, chegando até a contratar patrulhas de segurança de "barra bravas" — uma espécie de hooligans argentinos — para monitorar as ruas e guardar os carros dos clientes das casas noturnas.

O DJ disse não ter esperanças de que as autoridades municipais e os proprietários de casas noturnas encontrem tão cedo uma maneira honesta de regulamentar com segurança a indústria. "Para que algo como o Time Warp nunca mais aconteça, eles precisariam mudar tudo — mas isso é impossível", explicou ele. "O dinheiro por trás dessas coisas é muito, e todo mundo quer engordar a própria conta."

Com o fim de semana chegando, resta ver se a proibição mais recente da música eletrônica, pelo juiz Lisandro Fastman, será imposta pelas autoridades ou obedecida pelas casas noturnas. Enquanto isso, com os vereadores da cidade avaliando as possibilidades de novas regulações permanentes, e com os organizadores do Time Warp se preparando para uma longa batalha judicial, o único fato líquido e certo é que Buenos Aires continuará dançando ao som de suas batidas underground — com a lei permitindo ou não.

"Toda festa representa um tipo de protesto", disse Nardone, que continuará a promover eventos clandestinos como um ato de resistência a essa repressão à música eletrônica. "Nossas raves vão continuar, haja o que houver, porque elas sempre foram ilegais. Mas, se não forem mais realizados eventos gigantescos como o Time Warp, o underground vai começar a crescer de novo. As pessoas não vão se contentar em ficar em casa."

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Tradução: Marcio Stockler

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