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Danilo Lewis

Ultra Music Festival 2015: o Bieber e o CL Estavam Lá, Mas Não é Só Sobre Eles

David Garber

David Garber

Abastecido pela geração rave, o festival só esta ficando maior, mais rápido e mais poderoso.

Danilo Lewis

Fotos por Danilo Lewis para o THUMP.

O terceiro dia do festival Ultra em Miami começou com uma porção de vibes distintas. Enquanto alguns estavam em fúria, outros deliravam. Independentemente do nível de energia visto por lá, 29 de Março de 2015, foi o dia que o Ultra Music Festival entrou de vez no escalão superior da consciência da cultura pop, enquanto uma verdadeira força global e um festival a ser reconhecido. Uma hora da noite, o stream ao vivo tinha mais de 100.000 telespectadores, ajudando "#ultralive" a virar um trending topic global no Twitter.

Grande parte desse sucesso na internet pode ser creditado a uma fonte improvável. Depois que sua legião de fãs esperaram pacientemente durante todo o dia entre provocações, Justin Bieber, o mais caluniado cantor do mundo pop, tomou o palco principal do Ultra com Skrillex, o maior nome da dance music atual. CL, pronta para estabelecer sua estreia em língua inglesa esse ano, se juntou a Skrillex e Diplo em "Dirty Vibe". Horas antes, o cupcake humano Ariana Grande estreou no Ultra junto com o fornecedor de future beat Cashmere Cat, apenas um dia após Usher ter se juntado a Martin Garrix para uma colaboração durante o seu set.

O respeito global pelo Ultra e sua credencial na dance music levaram grandes artistas do pop a esses tipos de momentos culturais de alta intensidade que ainda podem soar crus ou frescos mesmo quando são meticulosamente planejados. Em 2012, houve a infame apresentação de Madonna com Avicii, apresentação na qual ela provocou a plateia sobre uma garota chamada "Molly." Em 2013, a apresentação de despedida de Swedish House Mafia roubou o show. Em 2014, todos estavam falando da "trollada" de Deadmau5 em cima de Martin Garrix com uma versão de "Animals" e "Old MacDonald." Mas Deadmau5 não estava presente no Ultra esse ano (embora ele tenha tentando se colocar na conversa ao atacar Krewella no Twitter) e Garrix estava.

Foi o time de administração de Garrix, a Scooter Braun Projects, que se aproveitou do poder da audiência do Ultra e sua plataforma de streaming para mostrar todos seus artistas. Bieber, Usher, CL e Grande (todos clientes de Braun, assim como Steve Angello que também tocou no palco principal no sábado, dia 28) integraram perfeitamente a paisagem do Ultra e por extensão os monitores da molecada de todo o mundo - de uma forma que deve ter deixado a Madonna com inveja.

Ter um bom apresentador para essas aparições é uma chave, e ninguém era mais acolhedor do que Skrillex. Encabeçando o Ultra pela segunda vez (sem sua nave espacial), o set de Sonny Moore fez questão de sugar qualquer energia que a multidão ainda tinha ao final do festival, numa apresentação sem interrupções e de rachar o crânio, incluindo seus sucessos mais antigos e uma paleta de trap, electro, Miami Bounce e uma tonelada de outras barulheiras. No entanto, o ponto alto do set de Skrillex foram os convidados surpresa: seu grupo Jack Ü, Diplo, Kiesza, Kai, Diddy e os supracitados Bieber e CL. Você não vê essa merda em nenhum outro lugar.

Numa comparação, o fato de Cashmere Cat ter se juntado inesperadamente a uma única pessoa, Ariana Grande, pareceu algo menor. Ainda assim, a cantora acertou nas duas faixas produzidas pelo artista, "Be My Baby" do álbum dela e "Adore" do disco dele. Grande se apresentou tematicamente com suas orelhas de gatinho que ela gentilmente colocou na cabeleira dourada do DJ no encerramento do set. Mesmo aqueles que não são fãs de Ariana Grande precisaram admitir que sua aparição foi bem cativante.

As primeiras horas do dia foram marcadas pela presença ligeiramente menor de público que nos dias anteriores. Isso não impediu que a plateia famosamente obcecada de trance não estivessem em peso em uma das apresentações mais atemporais do Ultra, o famoso palco de Armin van Buuren, A State of Trance, que ele apresenta e transmite ao vivo do backstage. Mais tarde, a aparição de Eric Prydz quase trouxe o caos completo. Ainda não está claro por que ele tocou no palco ASOT (ele não toca nada parecido com trance), mas Prydz atraiu tanta gente que a segurança do festival teve que fechar pontos de entrada para a tenda. Durante exatos sessenta minutos, o set do suíço mostrou sua mistura cuidadosa de house progressivo e techno pungente. A produção da tenda também foi digna de admiração, com portentosas telas de LED penduradas acima da plateia. Até dois policiais fazendo videos com seus celulares de uma laje lá perto pareciam descrentes com o que viam.

Pete Tong ligou a energia de uma sonolenta plateia do palco Resistance, em um set que fez toda a colina sacudir em uma alegria vespertina. Guy Gerber lançou o tema de tech house viajante para o resto da programação diária (Space Ibiza apropriadamente apresentou o lineup do dia). Infelizmente para Space Ibiza e Apollonia, que tocaram logo depois, é um som que não parece tão adequado quando o sol ainda está no céu.

Com a exceção de alguns sets aqui e ali, a tenda UMF Worldwide foi um pouco inconsistente, mas com alguns pontos altos de levantar a sobrancelha. Aqueles que não fecharam com tropical house - o som mais "in" do ano - podiam curtir com Thomas Jack, provavelmente porque a maioria das faixas que ele mandou não eram tropical house na verdade. Até um remix house de "Oye Como Va" e uma dose de "Drop The Pressure" de Mylo, tem seu apelo.

Algo que fortalece o Ultra é o fato de tantos artistas escolherem inaugurar novos projetos e novos discos em seus palcos. Se eles não lançaram ou mostraram uma prévia desses trabalhos no mês passado, os produtores mais experientes irão lançar algo durante seu set do Ultra. Por exemplo, Captone, que apresentou seu novo set "Immortal", tocando ao lado de outro cara anônimo atrás de dois monólitos em LED. O set parece ter sido marcado um pouco cedo de mais para a plateia de domingo, com presença um pouco baixa que limitou seu pontencial. Aqueles que estavam lá ganharam uma máscara dourada, de graça.

Outra estreia veio do Krewella, que inaugurou seu show ao vivo com uma banda completa que incluía um baterista e um guitarrista grunge no Live Stage. As irmãs Yousaf soltaram seus hits óbvios e tropeçaram aleatoriamente por tais covers como "FourFiveSeconds". Tentando mixar uma quantidade ambiciosa de gêneros do dubstep ao electro, hardcore e até algumas batidas nostálgicas noventistas, acabou sendo meio atrapalhado. Deadmau5 até ajudou a circular os rumores que seus CDJs não estavam plugados (eles estavam).

Porter Robinson também trouxe seu show ao vivo para Miami pela primeira vez, artisticamente apresentando um mix de alguma forma funcional de tudo, de seu electro inicial ao computer pop de seu álbum de 2014. Frente a uma plateia lotada, Robinson descaradamente apresentou seus próprios vocais, cimentando seu lugar na liderança de sua geração de DJs e produtores.

Paul Oakenfold cumpriu o dever de fechamento no ASOT, mas ninguém pôde negar a força que vinha antes dele na forma de Armin van Buuren. Enquanto ele ainda carrega a bandeira do trance, já foi abandonado qualquer sentido de um purismo de raíz trance, que foi substituído por algo bem mais pronto para a festa e atraente para uma plateia além da #trancefamily. Provavelmente é sábio evoluir com os tempos, mas em vários sentidos, o trance de verdade já está meio morto.

Como qualquer festival cujo passa para três dias custa U$ 450, nem todos os sets do Ultra foram de primeira linha. Ainda assim, você teria grande dificuldade em achar um mostruário melhor para os maiores, dentro de suas respectivas tendências, e mais diversa apresentação de música eletrônica. Enquanto o (na maioria) ótimo tempo e cenário inigualável certamente foram pontos positivos, a programação criativa dos três dias foi impressionante. Ultra foi desenhado de tal forma que muitos palcos podem virar um interruptor que muda o gênero, que não apenas cria um equilíbrio sônico mas também pode ajudar na descoberta de música nova.

Ainda assim, muitos dos fãs mais jovens do Ultra não precisam apenas de educação musical. Eles necessitam também saber qual é a etiqueta da rave. Muitos moleques puderam ser vistos, ao longo do fim de semana, desmaiados na grama, com amigos sem a mínima ideia do que fazer (não existe vergonha em pedir ajuda, pessoal). Não é apenas responsabilidade de todos tirar a vantagem do fluxo sem interrupções de música do Ultra, mas também olhar por quem veio curtir junto com você.

Por mais bem sucedidas que as crianças de Scooter possam ter sido em sua tomada do palco principal, o palco do Ultra pertence aos fãs. Sempre haverão grandes DJs (e talvez convidados celebridades ainda maiores) para ser suas engrenagens principais, mas são os fãs que mantém o motor funcionando. Pode ainda existir alguns problemas (a regra desse ano da mochila transparente não impediu ninguém de fazer o que já planejava fazer), mas abastecido pela geração rave, o Ultra só esta ficando maior, mais rápido e mais poderoso.

As pernas de David parecem gelatina, mas ele não teria feito nada diferente. @DLGarber

Tradução: Pedro Moreira