Quantcast

Jeff Mills É o Homem do Futuro

Fizeram um filme sobre o homem que é uma autoridade quando o assunto é techno. Aqui ele fala sobre o projeto e o futuro do gênero.

Zack Rota

Zack Rota

Era 1996 e Jeff Mills tinha criado um monstro. Tendo apenas conquistado seu apelido, The Wizard, graças à sua habilidade com seus três toca-discos, Mills produziu uma faixa que sem sombra de dúvida mudaria a música techno para sempre. Inúmeros DJs se referem à "The Bells" não só como sua fonte de inspiração, mas também como a primeira música eletrônica que ouviram. É uma faixa que define o conceito de que qualquer forma de arte pode ser verdadeiramente atemporal.

Esta troca é mais do que uma "entrevista". Ela foi um extraordinário insight à mente do criador - o astronauta cósmico do techno, por assim dizer. Jeff Mills é mais do que apenas DJ ou performer, ele é o criador e o construtor, o motor e a ignição, e um dos maiores gangsta a abrilhantar essa indústria como um todo. Nossa conversa foi bem além do horizonte da música techno, abrangendo questões filosóficas e problemas da metafísica que Stephen Hawking poderia até ter entrado na conversa para dar sua opinião.

A consciência de Jeff em relação à música opera em um nível galático de eficiência e compreensão muito além do que a de um performer comum. Para ele, música não é apenas uma coletânea de sons plugada em caixas potentes. "Música geralmente origina-se de uma doutrina particular e uma forma de pensar específica que são extraídas da mentalidade do produtor. Quanto mais eu tenho contato com o assunto [música], mais eu tenho uma visão fragmentada sobre ele. Isso ajuda a reconstrui-lo a fim de explorá-lo de várias formas diferentes", explica Jeff.

Jeff já viu de tudo e esteve envolvido desde o começo. "Apesar de eu estar muito envolvido há muitos anos, eu sempre dei um jeito de manter uma certa distância do núcleo principal 'disso' por nunca ter realmente acreditado no que as pessoas costumam dizer ou impôr. Na minha opinião, sempre achei que esse gênero [o dance music] é mais bem aproveitado se interpretado de várias formas diferentes".


Foto por Arthur Rad

Como um soberano do techno, Jeff tem um modo de pensar bem peculiar. Ele tem uma abordagem de grandes proporções quanto a produção de dance music, o que faz com que a música seja concebida através do conceito de espaço e tempo ao invés de comprimentos de onda e batimentos por minuto.

Ele explicou que seu "interesse geral por espaço e ciência espacial não é extremo ou anormal", e é um conceito que combina com a sua visão de produção musical. "Acho que minhas influências ficaram mais explícitas desde que comecei a inserir essas percepções na minha música. Como produtor, o conceito para mim sempre vem em primeiro lugar; depois disso, penso em como vou materializá-lo - em qual forma de arte ou estilo de música".

Dentre as diversas formas de arte que o Jeff Mills se aventurou, ele certamente dominou uma: ser DJ. No último dia 9 de janeiro, Jeff tocou um set implacavelmente pesado de três horas em Montreal, no Canadá. Não havia o conceito de 'criar um clima' ou de 'diminuir a batida', mas sim o de uma progressão constante de som de forma contínua e linear. Era fácil perceber de onde ele vinha e onde ele queria levar o público. Batidas estridentes seguidas de vários minutos de bateria programados com seu sintetizador TR-909, e sem nenhuma interrupção convencional presente. E é claro, a obra principal do set, "The Bells", tocou sem parar durante toda a festa.


Foto por Arthur Rad

Para Jeff, tem sido uma progressão natural até o topo. "Uma coisa levou a outra. Nunca teve algo que eu precisasse praticar ou aprender. Tendo em vista primeiro o objetivo, ao invés do método ou o instrumento, fica mais fácil de compreender coisas com as quais nunca trabalhei antes, como cinema, dança contemporânea, arte, etc".

Ao mesmo tempo que está de olho no futuro de seu querido gênero musical, Jeff trabalha para garantir que sa música continue relevante diariamente. "Eu acho que é essencial estar ciente do estado atual das coisas, se uma pessoa quer saber para onde estamos indo [no futuro]", diz ele.

Um pouco desgostoso, Mills admitiu que o estilo atual da dance music precisa melhorar. "No mundo da música, dentre todos os vícios que prejudicam a criatividade e a inovação, [o pior] deles é o circo que se forma em torno da competitividade entre DJs/Produtores", explicou Mills. "Esse torneio esportivo para ser o melhor, o mais admirado, o mais bem-sucedido, infelizmente atrapalha qualquer manifestação artística".

O mais novo trunfo de Jeff, sua produção de Man From Tomorrow com a renomada diretora Jacqueline Caux, é um filme experimental, estilo documentário, que sintetiza a criatividade de Jeff Mills em sua forma mais plena.

"O filme foi feito para expôr uma mentalidade específica e uma visão sobre o futuro e o homem de amanhã", conta ele. "Jacqueline criou um cenário onde essa informação será explicada por um ser humanóide que transcende o tempo para revelar como é o futuro para o espectador. Esse ser também pode ser interpretado como qualquer pessoa que tem reflexões complexas sobre o futuro. Esse 'Homem' seria então estendido a 'Humano' ou 'Humanidade'".


Jeff Mills e Jacqueline Caux

Existe uma temática minimalista inerente à obra, que serviu de introdução a outros assuntos que influenciaram a música de Jeff Mills ao longo dos anos.

"O filme é, acima de tudo, um reflexo de quem eu sou - a forma como penso e as coisas que julgo verdadeiras. O filme evidencia meu caráter, mas através das lentes psicólogas da Jacqueline. Eu não realmente me vejo no filme, e sim uma simulação. Cores, formas e linhas não são iguais. É como se eu fosse um personagem que foi usado de guia ou ponto de referência".


Foto por Arthur Rad

O filme nunca mostra o rosto de Jeff detalhadamente. Em vez disso, a representação dele é uma espécie de sombra. "Minha posição é, e sempre foi, a de ser secundário para as pessoas as quais eu estou tocando ou fazendo música. Apenas a silhueta ou o contorno do meu personagem é suficiente para fazer com que as pessoas sintam que a música é resultado de muita determinação. Para mim, é diferente de como a maioria das pessoas acham que os DJs são hoje em dia, as necessidades do público sempre vieram em primeiro lugar. Na verdade, meu caminho está sendo trilhado por eles".

Na sexta à noite dia 9 de janeiro, Jeff deu ao público o que eles queriam. Não era sobre ele - não havia microfones, bolos ou um homem hypado. Não havia sequer sua logo, que é sempre colado nas paredes dos lugares em que toca. Em vez disso, foi uma jornada visceral através do espaço e tempo que Mills conecta de forma impecável à sua música - com apenas ele e seu TR-909 no comando. Performances como essa mostram por que Mills cresceu para ser idolatrado mundialmente bem distante de sua casa em Detroit.

A abordagem de Jeff sobre como música, arte e humanidade se encaixam na evolução humana e a questão da sobrevivencia poderia facilmente ser desenvolvida em um curso universitário. É o tipo de assunto que separa os homens dos meninos. Ele deixa bem claro que artistas desse porte têm uma compreensão mais profunda de seu papel na indústria quando comparados a um DJ mediano.

Suas reflexões sobre onde o techno já esteve e onde pretende chegar, nos deixa informados, para dizer o mínimo.

"Em 2100, o termo 'techno' não vai existir. A forma harmônica que identificamos como música estará lá, mas de forma inexpressiva. Até lá, alguém terá criado uma forma de transpor emoções externas em emoções. Ou seja, uma pessoa será capaz de se sentir daquela mesma maneira que me senti quando criei "The Bells", no exato momento em que criei. Em 2200, estar em outro planeta será tão normal quanto estar aqui na Terra. Existirão populações inteiras que jamais visitaram nosso planeta. A partir daí, não podemos deixar que a música como conhecemos e amamos seja menos considerada e apreciada, por não ter a ver com mundos que estão a quilômetros de distância.

Isso deve produzir formas de arte que sejam um tributo a esse novo despertar. Em 3000, poucos seres humanos existirão na Terra. Principalmente por causa da fome, seca e doenças, grande parte das pessoas será enviada à Lua ou satélites flutuantes e colônias no interior da atmosfera. Isso pode trazer uma sensação de um relacionamento individual que pode ser associado à forma como lidamos com entretenimento [e música]"

Jeff Mills de fato é o que seu filme revela sobre ele: o Homem do Futuro.

Você pode assistir ao trailer de Man From Tomorrow aqui. E pode adquiri-lo aqui.

Siga Jeff Mills:
facebook.com/JeffMills
twitter.com/djjeffmills

Para seguir Zack no Twitter: @zackrota

Tradução: Stefania Cannone