O que os DJs fazem (ou deixam de fazer) para evitar ficar com os ouvidos apitando para sempre

Laidback Luke e outros falam sobre como o tinnitus pode acabar com a carreira de um músico e o que é possível fazer para se precaver do torturante zumbido no ouvido.

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ago 16 2016, 1:00pm

Ethan Tennier-Stuart

Esse artigo foi originalmente publicado no THUMP Canadá.

Estou esperando para fazer um teste da minha audição, e estou com medo. A maior parte do meu trabalho, enquanto jornalista de música, e mais a minha vida social, há mais de duas décadas gira em torno da música alta. Embora eu muitas vezes use protetores de ouvido baratos, de espuma, nem sempre fiz disso um hábito, e estou especialmente preocupado com o dano que talvez tenha sofrido nas ocasiões em que trabalhei como DJ.

Nunca fui um DJ famoso, desses de sair em turnês, mas passei muitos anos trabalhando longas horas todas as semanas em bares de Toronto, com alguns trabalhos aqui e ali em boates e festas de armazéns, com sistemas de som maiores. Nunca usei qualquer proteção auditiva na cabine de DJ, porque sentia que os protetores interferiam demais na mixagem. Gradualmente fui percebendo que vinha aumentando o volume das caixas de som no decorrer das longas noites de trabalho, e o apito nos meus ouvidos estava demorando cada vez mais para desaparecer depois de cada noite trabalhando. Alguns anos atrás, comecei a perceber que estava tendo dificuldades em acompanhar conversas em ambientes com muito ruído de fundo.

E então, um belo dia, aquele velho conhecido zumbido veio para ficar.

Mesmo que a perda auditiva causada pela música alta seja uma realidade bem conhecida, os artistas em atividade, em sua maioria, a consideram um problema com que terão de lidar quando estiverem aposentados, e não estão cientes do fato de que muitas vezes ele pode atingi-los no auge de suas carreiras.

"Eu ia para casa depois do trabalho com meus ouvidos apitando muito, e então, um dia, percebi que eles nunca mais pararam de apitar", diz a produtora e DJ de house Sydney Blu, de Toronto, que trabalha regularmente no ramo desde 2000. "Não muito depois disso, percebi que, toda vez que estou numa boate e alguém fala comigo no meu ouvido direito, tenho que parar tudo e apontar meu ouvido esquerdo para a boca da pessoa."

Ela depois encomendou protetores auditivos feitos sob medida, específicos para músicos, mas sentia que era impossível se acostumar a trabalhar como DJ enquanto os usava. Blu tenta apenas manter o volume de suas caixas de som o mais baixo possível, e o deixa no zero durante os intervalos. "A maioria dos DJs mais velhos que eu conheço sofre de zumbido. Queria ter atentado para isso antes, ter me dado conta de como a coisa pode ficar grave."

Hoje em dia não existe maneira de reverter o zumbido, e as opções de tratamento para perda auditiva ainda estão cientificamente engatinhando. Entre os DJs muito ocupados, que estão sempre em turnês, trabalhando em festivais pelo mundo inteiro, muitos não percebem que o zumbido em seus ouvidos está piorando antes que seja tarde demais.

"Acho que é muito comum na profissão de DJ", diz o novaiorquino veterano da house music Roger Sanchez. "Muitas pessoas têm o zumbido e não chegaram nem a identificar o problema. Estão simplesmente muito acostumadas com o zumbido em seus ouvidos, e acham que é só por causa do trabalho na noite anterior. Mas, se você trabalha três ou quatro vezes por semana, a exposição que sofre é quase constante. Aí, quando dão um passo para trás para enxergar a situação, percebem que sofrem do problema."

Sanchez trabalha no ramo há 36 anos, e começou a sentir um zumbido permanente mais para o final da década de 90. Como Blu, ele arranjou protetores de ouvido feitos sob medida, e tem a impressão de que eles o pouparam de danos maiores. Ele, contudo, reconhece que houve uma curva de aprendizado até conseguir mixar usando a proteção auditiva.

"No começo, eu sentia que não conseguia ouvir as coisas com nitidez. Era como se alguém tivesse tapado meu ouvido com as mãos. Levou um tempo para me aclimatar, mas o que comecei a perceber foi que eu podia aumentar o volume das minhas caixas de som, que o som não parecia mais rasgar os meus ouvidos. Também mandei colocarem bass bins [um tipo de subwoofer] em várias cabines, o que ajudou a compensar."

Sanchez diz que, nos últimos anos, tornou-se muito mais comum DJs renomados usarem no trabalho protetores auditivos feitos sob medida. Em 2010, ele finalmente fez um teste completo, e descobriu que havia uma queda significativa na frequência superior da sua audição, perto da faixa de 800hz, mas ficou aliviado ao saber que a perda auditiva não fora ainda pior. O zumbido persistente em seus ouvidos, porém, ainda está presente.


"Agora mesmo estou ouvindo o zumbido, mas me acostumei com ele. Não me dou conta dele quando estou andando na rua, ou se não estou prestando atenção a ele, mas assim que fico no silêncio, o zumbido começa. Não é alto demais, graças a deus. Eu acho que o uso dos filtros impediu que ele chegasse a esse nível. Sei de algumas pessoas que têm um zumbido muito alto."

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Protetores de ouvido feitos sob medida, específicos para músicos, podem custar mais de US$200, mas são uma das poucas opções existentes para DJs que precisam poder ouvir com nitidez o efeito de seus ajustes no equalizador e da aplicação de filtros. Os protetores baratos e descartáveis que se pode comprar nas farmácias dão a mesma proteção aos ouvidos, mas modificam os sons de tal forma que poucos artistas os usam.

"Um protetor barato, de espuma, pode diminuir o som em até 25db em uma frequência, e 10db em outra", explica Adam Rhodes, o diretor nos EUA da empresa de proteção auditiva ACS Custom. "Ele abafa o som, porque não é uma resposta verdadeira. Não é possível ouvir coisa alguma, isso acaba com o desfrute da experiência, então você acaba tirando do ouvido. Mas, quando se tem o filtro certo, não há nenhum sacrifício da qualidade: você está só diminuindo o volume."

A ACS trabalha com muitos dos maiores nomes da música eletrônica, de Tiesto a Zedd e Deadmau5. Rhodes diz que, hoje em dia, existe uma consciência muito maior sobre a questão, embora seja muito comum que os artistas os procurem depois de já terem sofrido danos permanentes. "Basicamente toda semana ouvimos alguém dizendo que queria ter tido notícia disso dez anos antes. Ouvimos muito isso", diz ele. "Acho que o mais importante é educar. Estamos presentes num festival todos os fins de semana durante o verão, tentando difundir essas informações o máximo possível."

Muitos músicos que saem em turnês passaram, nos últimos anos, a usar fones intra-auriculares, que bloqueiam a entrada de sons externos e ao mesmo tempo amplificam o que eles precisam ouvir. No mundo da música eletrônica, porém, são bem menos comuns, já que exigem que os DJs repensem toda a sua maneira de abordar a mixagem.

"Fones intra-auriculares nem sempre funcionam para DJs", reconhece Rhodes. "Eles gostam de usar os fones tapando as orelhas, de modo que possam tirá-los, e fazer um mix com uma orelha coberta. Há alguns DJs que os usam, porém, como o Deadmau5. Agora temos um modelo que vem com microfones ambientes embutidos, de modo que eles ainda conseguem ouvir a mixagem. Esse é meio que o próximo nível da coisa, mas ainda é difícil persuadir os DJs a usá-los. Eles estão tão acostumados a usar headphones de forma que o equipamente quase já faz parte de como se vestem para trabalhar."

Um artista que passou a usar fones intra-auriculares é o produtor e DJ holandês Laidback Luke. Ele começou a usar protetores de ouvido feitos sob medida no início dos anos 2000, depois de ficar preocupado com o zumbido e com uma crescente insensibilidade a níveis altos de volume. Por volta de 2008, ele decidiu testar os fones intra-auriculares e os vem usando desde então.

"Eu não estava conseguindo obter a definição que procurava nos fones de DJ. Tentamos os fones intra-auriculares, e fiquei muito feliz com a nitidez. Mesmo em espaços grandes, com muita reverberação, a entrada de som continuava sempre a mesma", diz ele. "Pra mim foi uma revelação. Eu podia deixar o volume baixo, e ainda assim ouvir cada pequeno detalhe da música. Eu não ouvia mais o público, mas isso só me fez trabalhar ainda mais duro pelos aplausos". Só três anos atrás ele conseguiu juntar a coragem para testar a própria audição.

Felizmente, viu-se que ter começado a usar proteção desde cedo teve um grande impacto, e os resultados foram completamente normais. Até mesmo o zumbido constante e os bipes que o fizeram entrar em pânico no início da carreira aquietaram.

O zumbido nos meus ouvidos não chega nem de longe a ser tão forte quanto era há um ano, mas certamente parece ser bem alto no silêncio total da cabine à prova de som, em uma clínica que fica no centro de Toronto, onde minha audição está sendo avaliada. Tenho dificuldades para ouvir os tons, mas fico otimista ao conseguir perceber alguns dos sinais muito agudos que eles transmitem para mim. Contudo, estou percebendo também que há longas pausas durante um tempo no qual eu provavelmente deveria estar ouvindo alguma coisa.

"Você trabalha com maquinário pesado?", pergunta o médico enquanto lê meus resultados, o que faz meu coração dar uma paralisada. Quando explico que estou constantemente cercado por música em alto volume, ele me diz que isso explica as informações do boletim, e também porque a faixa de frequência mais alta da minha audição ainda se encontra em condições decentes.

"Na verdade não está tão ruim assim. O seu ouvido esquerdo apresenta uma queda em 1K, mas isso ainda está dentro do normal. O seu ouvido direito apresenta uma queda bem maior, em 4k. Seria muito bom que você arranjasse protetores de ouvido sob medida."

Saio do consultório me sentindo aliviado por minha audição não estar pior, mas envergonhado por ter demorado tanto tempo para levar isso a sério. Felizmente, ainda não é tarde demais para impedir que a situação piore.

Benjamin Boles está no Twitter.

Tradução: Marcio Stockler