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Foto: Vitor Cohen/Remirar

Techno Sem Teto e a gentrificação em SP

Amanda Cavalcanti

Amanda Cavalcanti

A kafkaniana briga por espaço no centro da cidade colocou em lados opostos os coletivos de música eletrônica e as casas noturnas tradicionais.

Foto: Vitor Cohen/Remirar

"Al-al-al-alvará/Al-al-al-alvará" era o principal grito de guerra proferido pelos presentes no ato realizado pela Mamba Negra no domingo, 28 de maio. Saindo da Avenida Francisco Matarazzo, na Barra Funda, o trio elétrico era equipado com decks de DJ e funcionou como continuação da comemoração de quatro anos do coletivo, com sets de Jerônimo Sodré, JO A O e MJP. "Saída de segurança e rota de escape segura. Saída de emergência, escadas largas e espaçosas. Você tem, Renato?", falava Laura Diaz, uma das duas cabeças da Mamba Negra, se referindo a Renato Ratier, dono da D.Edge, enquanto o trio descia a Avenida Auro Soares em direção ao clube.

A outra co-organizadora da festa, Carol Schutzer (ou Cashu), caminhava atrás do trio junto ao público, que incluía outros atores relevantes da noite de São Paulo: os fundadores da festa Carlos Capslock, L_cio e Tessuto; Pedro Zopelar, da ODD; e as produtoras Bad$ista e Amanda Mussi, respectivamente organizadoras das festas Bandida e Dûsk. Juntos a eles, algumas dezenas de frequentadores da Mamba endossavam o coro puxado por Laura e revezavam entre "fora Temer" e "fora Doria" — em alguns momentos, consegui ouvir também um "fora Ratier".

O ato foi anunciado dois dias antes pela página da Mamba Negra no Facebook, em uma espécie de manifesto que esclarecia alguns dos motivos do coletivo: a Fabriketa, onde aconteceria a festa até então, fora embargada na sexta anterior (19), o que fez com que as organizadoras procurassem outros galpões que pudessem abrigá-la. Não encontrando, a comemoração aconteceu na engomadinha Via Matarazzo, casa entre as baladas Audio Club e Villa Country, na Zona Oeste.

Foto: Vinícius JPG/Remirar

Nos fins de semana anteriores ao evento, dos dias 20 e 21 de maio, outras festas sofreram com empecilhos burocráticos: não apenas a Virada Cultural sofreu em estrutura e público ao ser "descentralizada", como a ODD que aconteceria na mesma noite foi cancelada por Fábio Lepique, secretário adjunto das Prefeituras Regionais de São Paulo (que publicou sobre o ocorrido em suas páginas pessoais no Facebook e Twitter). Na nota, a Mamba se posiciona contra essas decisões, incluindo as intervenções policiais feitas na Cracolândia, e cravava que todas elas "são fatos que não apenas se conectam, mas revelam o plano político da gestão [do prefeito João Doria]."

Apesar da maior dificuldade de realização, o esmorecimento das festas independentes e de rua em São Paulo não é exclusividade da gestão do PSDBista. Desde 2015 o THUMP canta a bola de que esses coletivos estariam perdendo a força e a presença, tanto por suas edições avulsas, cada vez mais raras, como em eventos como a própria Virada, que praticamente não tem festas em seu line-up desde 2016. Até mesmo o SP na Rua, evento criado pela gestão Fernando Haddad (PT) como abertura do Mês da Cultura Independente em São Paulo, quase não aconteceu no ano passado e foi também pressionado pela Mamba Negra.

A história de ascensão e queda dos coletivos de música eletrônica nas ruas de São Paulo começa com o empurrão dado pelos sistemas de som na zona leste, como o Barulho.Org e Dubversão. Ao longo dos anos 2000, esses soundsystems ligados à tradição jamaicana de dub e ragga abriram o caminho para o diálogo sobre o uso do espaço público, segundo o cientista político e produtor cultural Márcio Black, fundador do Barulho. A primeira festa de música eletrônica a surgir dentro desse contexto foi a Voodoohop de Thomas Haferlach.

Foto: Vitor Cohen/Remirar

O alemão tocava sets no Bar do Netão, na Rua Augusta, por volta de 2009, e começou a reparar como o som atraía público para a calçada do bar. "Nem se chamava Voodoohop ainda, não era nada demais, eu só botava umas músicas que, em São Paulo, geralmente eu só ouvia em clube caro", conta. A ideia se expandiu e Thomash e os demais organizadores começaram a realizar festas cada vez mais em direção ao centro velho da capital: Praça da República, Largo do Paissandú. "A gente atingiu uma galera que não tinha esse costume de sair do lugar que eles conheciam — Vila Madalena, Augusta — e levamos eles pra lugares que eles não conheciam. E sempre dava certo."

A partir desse momento, os coletivos começam a brotar e festas como a Metanol.fm de Akin, Free Beats de Mauro Farina, Sonido Trópico, Mamba Negra, Carlos Capslock, Selvagem e outras começam a tomar as ruas do centro da cidade. Todo esse movimento foi registrado mais tarde pelo documentário O que é Nosso - Reclaiming the Jungle, gravado pelos cineastas Jerry Clode, Murilo Yamanaka e Allyson Alapont. No geral, as festas eram feitas por conta dos próprios organizadores. "Numa semana, a gente fazia um evento com ingresso e ganhava um lucro, e usava esse lucro pra pagar a próxima festa. Como era de graça, muitas vezes a gente conseguia um preço barato para alugar as caixas, [pois] também estavam apoiando essa ideia", conta Thomas.

As festas que, no início, eram realizadas "no limite da legalidade", segundo Márcio, conseguiram estabelecer um diálogo com a Secretaria de Cultura por volta de 2013, quando a Voodoohop foi convidada a convocar os outros coletivos para participar da edição da Virada Cultural naquele ano. No seguinte, foi criado com o auxílio de Karen Cunha, diretora de eventos da Secretaria, o SP na Rua.

De modo geral, a gestão do prefeito Fernando Haddad foi um avanço para as festas — ao menos no que dizia respeito aos eventos organizados pela prefeitura. "O que nós buscamos fazer na gestão do Haddad de maneira geral — desde o plano-diretor, que coloca a ocupação do espaço em sua diretriz — é a mudança da mobilidade, buscando reduzir a força do carro como determinante da ocupação da cidade, e ao mesmo tempo estimular que houvessem projetos e ações que ocupassem o espaço público", fala Nabil Bonduki, Secretário de Cultura de janeiro de 2015 a abril de 2016, quando abandonou o cargo para disputar a reeleição como vereador.

Aos poucos, porém, os problemas da realização desses eventos numa cidade despreparada começaram a se mostrar. "Quando essas práticas são realizadas na Zona Oeste e no centro expandido, você tem uma classe média que não está habituada a ocupar o espaço público, e os territórios também não estão preparados para receber isso", fala Márcio Black. No Reclaiming the Jungle, Paulo Tessuto fala que as festas causaram atritos entre os moradores da região central e os organizadores por conta do barulho.

Foto: Vinícius JPG/Remirar

A realização das edições avulsas das festas se tornou cada vez mais escassa de 2014 para a frente. Enquanto eventos como o carnaval de rua de São Paulo passaram a ser organizados por terceiros (a empresa Dream Factory) e ganhar investimentos em patrocínio de 800 mil reais, em 2015, e 4,5 milhões de reais, em 2016, as festas de música eletrônica continuavam a depender do suor e bolso de seus organizadores. Os eventos se tornaram fechados em sua grande parte, passando a cobrar valores que vão, em média, de 20 a 30 reais em seus ingressos. "Se eu deixar de fazer uma festa fechada pra fazer essa festa [na rua] eu estou deixando de trabalhar, e quando estou na rua eu também tô trabalhando. Gasto horas do meu dia pra planejar, pra decidir o lugar; tem os artistas que estão trabalhando e não recebem nada. Apesar de ser um movimento, de ter um ideal por trás, eu tô trabalhando", comenta Tessuto.

Embora em sua maior parte já fora das ruas, as festas continuaram sendo realizadas em fábricas desativadas ou lugares inutilizados no centro de São Paulo — o "ideal" do qual fala Tessuto, a intrínseca discussão sobre a ocupação do espaço público, ainda dá as caras mesmo que as festas tenham fechado suas portas. Em entrevista ao THUMP Canadá em fevereiro desse ano, Laura Diaz diz que a Mamba Negra funciona como um ato de resistência política: "Nós temos esse movimento de ocupação [artístico], que é próximo aos movimentos das pessoas que lutam por moradia — esses tipos de movimentos sociais."

As reivindicações políticas e artísticas das festas itinerantes, porém, aparecem paralelas a outras questões que complexificam o entretenimento noturno da cidade. O incêndio ocorrido em 2013 na Boate Kiss em Santa Maria (RS) foi apontado como culpado pelo despertar de ânimos de políticos e donos de clubes ao longo dos anos seguintes. Nas eleições municipais de 2016, diversos candidatos a vereadores, como Edson Aparecido (PSDB), Márcio Black (REDE) e Todd Tomorrow (PSOL) propuseram durante suas campanhas mudanças na legislação que dizia respeito a alvarás, ocupações culturais públicas e discriminação em baladas e casas de shows.

Foto: Vinicius JPG/Remirar

Nesse ínterim, nasceu em 2013 a Associação de Bares, Casas Noturnas e Entretenimento de São Paulo (ABCNESP), atual Associação da Noite e Entretenimento Paulista (ANEP). Formada por donos de empreendimentos de grande porte como Ratier, Facundo Guerra (Yacht Club, Lions, Cine Joia), André Almada (The Week) e Flávia Ceccato (Hot Hot), entre outros, a associação surgiu logo o após o acidente em Santa Maria, "fato que desencadeou um certo 'caça às bruxas' em todo país e impulsionou a necessidade de uma entidade que promovesse a qualidade e segurança do entretenimento", diz Lucas Baruzzi, representante da ANEP. O alvo principal do grupo é a lei dos alvarás de 1992, que, segundo Baruzzi, está defasada e se tornou dissociada da "realidade empreendedora" dos associados, além de ser contradita por outros decretos, portarias e resoluções. A associação também zela pelo cumprimento das medidas de segurança exigidas para as festas.

Em abril de 2017, a ANEP deu seu primeiro passo em direção à almejada mudança na legislação. Num encontro com o vice-prefeito Bruno Covas, o vereador Camilo Cristófaro e o diretor do programa Programa de Silêncio Urbano (PSIU) Wanderley Pereira, a ANEP entregou à prefeitura uma documentação contendo sugestões de alteração ao PSIU e a outras posturas públicas que afetam o entretenimento paulistano. As propostas estão sendo analisadas, mas Covas garante que as mudanças seriam bem-vindas. "Imutável nem a Constituição Federal é. É sempre possível rever, desde que a gente consiga avançar no binômio de pressão das pessoas e garantia do empreendimento, diminuindo burocracia." Baruzzi afirmou, sobre o encontro, que "nunca na história da noite e do entretenimento de São Paulo uma autoridade política deu tanta segurança e abertura para que pudéssemos expor nossos anseios."

Enquanto os grandes clubes e casas avançam pelo caminho burocrático dos processos legislativos, o ato da Mamba Negra naquele domingo foi uma demonstração da abordagem mais combativa com a qual as festas independentes reagem à dificuldade de realização proporcionada pela nova gestão. Os obstáculos para obtenção dos alvarás, a descentralização da Virada Cultural e a interdição de festas no centro da cidade, para Laura Diaz, formam um "jogo rocambolesco" que coincide com os interesses políticos e econômicos da prefeitura de João Doria.

"O que aconteceu [com a Virada Cultural] não é nada de novo, acontecia também na gestão Haddad. O que é novo é retirarem todo mundo do centro, o centro que eles usaram a gente enquanto foi interessante, pra gente dar um novo gás jovem no lugar, e limpar a porra toda pra erguer condomínios horrorosos, fazer bulevares de mal gosto aqui. Gentrificar o bagulho, ponto", argumenta.

Foto: Vinícius JPG/Remirar

Os apontamentos de Laura evidenciam uma mudança clara no governo do PSDBista: o desencorajamento de ocupação do centro e das ruas de São Paulo. Bruno Covas garante que as festas são vistas positivamente pela prefeitura, as destaca como "o verdadeiro patrimônio da cidade de São Paulo" e inclui a revitalização do centro como um de seus pontos positivos. Mas a historiadora, doutora em Estruturas Ambientais Urbanas e professora da Universidade Paulista (UNIP) Herta Franco acredita que há um embate de interesses entre a atual gestão e os organizadores de festas itinerantes. "Existe um choque de modelos de cidade, logo modelos de convívio. A gestão atual parece se identificar com o modelo norte-americano de cidade, na qual se privilegia o automóvel e os espaços privados como condomínios e shoppings. Espaços públicos, por sua vez, são desfrutados para consumo e somente entre pessoas do mesmo perfil social", fala.

Sem acesso às ruas, aos festivais da prefeitura e dependendo de lugares recentemente embargados e edifícios há muito imobilizados por dívidas gigantescas de IPTU, as festas, enquanto tentam se legalizar, acabam entrando num beco sem saída. "A burocracia ainda está ganhando. Tem um monte de espaço vazio em São Paulo, inclusive muito mais adequado do que clubes que são abertos, que tão funcionando, que tem alvará – e que não têm saída de emergência. Se pegarem fogo, vai acontecer uma tragédia, com reformas totalmente fora da legalidade", diz Laura.

O papo que rolava na Mamba naquele fim de semana é que a prefeitura estaria "boicotando as festas em parceria com os grandes empresários" da noite paulistana, como me contou o performer Israel Franco, mais conhecido por seu personagem Euvira, antes do começo do ato. Em entrevista posterior, Laura reforçou o argumento: "Não são suposições. Você pode entrar no Instagram do Fábio Lepique ou de outros caras aí da prefeitura, e tem fotos deles em reunião com o Ratier e com outros donos de clube, na [ANEP], que está em atividade faz um tempo. As coisas tão sendo públicas, a gente não está inventando nada nem fazendo acusações sem embasamento; muito pelo contrário, inclusive."

Procurado pela reportagem, Renato Ratier preferiu se pronunciar através do advogado que representa sua pessoa física e a D.Edge, Rafael Eidi Enjiul. "Os nossos clientes não têm nenhuma relação com as festas clandestinas nem com a prefeitura. Mesmo a ABCNESP, da qual o Renato faz parte, não teve nada a ver com fiscal, com a fiscalização, com a prefeitura, com as atitudes da prefeitura com essas festas clandestinas", esclarece. "O que eles não apoiam é a clandestinidade. Acho que a clandestinidade ninguém apoia, nenhum cidadão e nenhum dos frequentadores, muito menos os parceiros e a cena da música eletrônica."

Foto: Vinícius JPG/Remirar

Por enquanto, a única certeza para todos os envolvidos é que a noite de São Paulo vive um período de intensa transformação. Em entrevista ao Musicnonstop, Renato Ratier evidencia a mudança dos tempos ao notar que "um governo sério tem que deixar as coisas mais fáceis para que as pessoas possam estar dentro da legalidade, mas é preciso entender que o D.Edge teve uma grande importância na música eletrônica."

A disputa por espaço na cena noturna da cidade foi além do campo simbólico agora que as festas do circuito alternativo saíram das ruas e acabaram se enrolando entre autorizações e alvarás. Competindo com os clubes e baladas que já tinham o seu espaço físico e político estabelecidos, o inevitável conflito sócio-econômico se dá do jeito mais burocrático possível — facilitando o terreno para os que já possuem influência política e capacidade de diálogo mais direto com o poder público. Enquanto o cerco não se fecha totalmente, nos resta assistir para acompanhar quem será o próximo rei da noite.