Foto: Vitor Cohen/Remirar

Techno Sem Teto e a gentrificação em SP

A kafkaniana briga por espaço no centro da cidade colocou em lados opostos os coletivos de música eletrônica e as casas noturnas tradicionais.

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jun 14 2017, 6:40pm

Foto: Vitor Cohen/Remirar

"Al-al-al-alvará/Al-al-al-alvará" era o principal grito de guerra proferido pelos presentes no ato realizado pela Mamba Negra no domingo, 28 de maio. Saindo da Avenida Francisco Matarazzo, na Barra Funda, o trio elétrico era equipado com decks de DJ e funcionou como continuação da comemoração de quatro anos do coletivo, com sets de Jerônimo Sodré, JO A O e MJP. "Saída de segurança e rota de escape segura. Saída de emergência, escadas largas e espaçosas. Você tem, Renato?", falava Laura Diaz, uma das duas cabeças da Mamba Negra, se referindo a Renato Ratier, dono da D.Edge, enquanto o trio descia a Avenida Auro Soares em direção ao clube.

A outra co-organizadora da festa, Carol Schutzer (ou Cashu), caminhava atrás do trio junto ao público, que incluía outros atores relevantes da noite de São Paulo: os fundadores da festa Carlos Capslock, L_cio e Tessuto; Pedro Zopelar, da ODD; e as produtoras Bad$ista e Amanda Mussi, respectivamente organizadoras das festas Bandida e Dûsk. Juntos a eles, algumas dezenas de frequentadores da Mamba endossavam o coro puxado por Laura e revezavam entre "fora Temer" e "fora Doria" — em alguns momentos, consegui ouvir também um "fora Ratier".

O ato foi anunciado dois dias antes pela página da Mamba Negra no Facebook, em uma espécie de manifesto que esclarecia alguns dos motivos do coletivo: a Fabriketa, onde aconteceria a festa até então, fora embargada na sexta anterior (19), o que fez com que as organizadoras procurassem outros galpões que pudessem abrigá-la. Não encontrando, a comemoração aconteceu na engomadinha Via Matarazzo, casa entre as baladas Audio Club e Villa Country, na Zona Oeste.

Foto: Vinícius JPG/Remirar

Nos fins de semana anteriores ao evento, dos dias 20 e 21 de maio, outras festas sofreram com empecilhos burocráticos: não apenas a Virada Cultural sofreu em estrutura e público ao ser "descentralizada", como a ODD que aconteceria na mesma noite foi cancelada por Fábio Lepique, secretário adjunto das Prefeituras Regionais de São Paulo (que publicou sobre o ocorrido em suas páginas pessoais no Facebook e Twitter). Na nota, a Mamba se posiciona contra essas decisões, incluindo as intervenções policiais feitas na Cracolândia, e cravava que todas elas "são fatos que não apenas se conectam, mas revelam o plano político da gestão [do prefeito João Doria]."

Apesar da maior dificuldade de realização, o esmorecimento das festas independentes e de rua em São Paulo não é exclusividade da gestão do PSDBista. Desde 2015 o THUMP canta a bola de que esses coletivos estariam perdendo a força e a presença, tanto por suas edições avulsas, cada vez mais raras, como em eventos como a própria Virada, que praticamente não tem festas em seu line-up desde 2016. Até mesmo o SP na Rua, evento criado pela gestão Fernando Haddad (PT) como abertura do Mês da Cultura Independente em São Paulo, quase não aconteceu no ano passado e foi também pressionado pela Mamba Negra.

A história de ascensão e queda dos coletivos de música eletrônica nas ruas de São Paulo começa com o empurrão dado pelos sistemas de som na zona leste, como o Barulho.Org e Dubversão. Ao longo dos anos 2000, esses soundsystems ligados à tradição jamaicana de dub e ragga abriram o caminho para o diálogo sobre o uso do espaço público, segundo o cientista político e produtor cultural Márcio Black, fundador do Barulho. A primeira festa de música eletrônica a surgir dentro desse contexto foi a Voodoohop de Thomas Haferlach.

Foto: Vitor Cohen/Remirar

O alemão tocava sets no Bar do Netão, na Rua Augusta, por volta de 2009, e começou a reparar como o som atraía público para a calçada do bar. "Nem se chamava Voodoohop ainda, não era nada demais, eu só botava umas músicas que, em São Paulo, geralmente eu só ouvia em clube caro", conta. A ideia se expandiu e Thomash e os demais organizadores começaram a realizar festas cada vez mais em direção ao centro velho da capital: Praça da República, Largo do Paissandú. "A gente atingiu uma galera que não tinha esse costume de sair do lugar que eles conheciam — Vila Madalena, Augusta — e levamos eles pra lugares que eles não conheciam. E sempre dava certo."

A partir desse momento, os coletivos começam a brotar e festas como a Metanol.fm de Akin, Free Beats de Mauro Farina, Sonido Trópico, Mamba Negra, Carlos Capslock, Selvagem e outras começam a tomar as ruas do centro da cidade. Todo esse movimento foi registrado mais tarde pelo documentário O que é Nosso - Reclaiming the Jungle, gravado pelos cineastas Jerry Clode, Murilo Yamanaka e Allyson Alapont. No geral, as festas eram feitas por conta dos próprios organizadores. "Numa semana, a gente fazia um evento com ingresso e ganhava um lucro, e usava esse lucro pra pagar a próxima festa. Como era de graça, muitas vezes a gente conseguia um preço barato para alugar as caixas, [pois] também estavam apoiando essa ideia", conta Thomas.

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