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Yannick Anton

A história da festa queer de hip-hop e dancehall mais famosa de Toronto

Criada num albergue e com o plus da sacadinha "hetero friendly", a canadense Yes Yes Y’all faz sete anos subvertendo a lógica da inclusão.

Yannick Anton

Tendo seu início em 2009, as festas Yes Yes Y'all de Toronto se tornaram um ícone na cidade ao promover a inclusão de todos, independentemente do gênero, raça ou orientação sexual, além de atrair artistas e DJs locais e internacionais como A Tribe Called Red, Big Freedia, Le1f, Zebra Katz e muitos outros. Para o aniversário de sete anos do rolê, convidamos Golshan Abdmoulaie e seu fundador Nino Brown para trocar uma ideia sobre o que acham que faz com que a YYY seja tão especial. As fotos a seguir são do Yannick Anton.

São 22:45 e os rumores sobre uma fila dando volta no quarteirão fizeram com que você e seus colegas de trabalho chegassem no rolê consideravelmente cedo. Você está no bar pedindo um veneninho e quando se vira para trás percebe que em questão de 20 minutos, o lugar já está ficando lotado e ostentando almas selvagens pra lá e pra cá. Com a quantidade de gente no lugar, você inevitavelmente começa a olhar/questionar/se dar conta: gays, héteros, trans, bissexuais. Negros, mulatos, brancos, que diferença faz? Minas, caras, tanto faz. Altos, baixos, magros, corpulentos. Algumas desfilando em micro shorts e com perucas repletas de glitter, outras vestindo casacos esportivos e com seus rabos de cavalo lá no alto.

Todas as fotos são cortesia do Yannick Anton

Nenhum outfit é restrito a um só sexo, já que a inconformidade de gênero além de não parecer ser bem-vinda, não é a principal razão para se estar aqui. Uns caras encapuzados interagem com caras gays; o irmão do seu melhor amigo está vestido de drag. Imagina todas as interseções de pessoas, grupos que geralmente não se misturam, se juntando e quebrando tudo na pista de dança. Seja bem-vindo a Yes Yes Y'all, a noite icônica de Toronto mais conhecida na cidade como YYY. Se você se identifica como membro da comunidade QPOC (pessoa de cor e queer), ou é do rolê de Toronto ou da Região Metropolitana, há grandes chances de em um dado momento dedicar sua terceira sexta-feira do mês à noite do YYY. Fundada por um coletivo de DJs queer que sentia falta de espaços inclusivos e seguros onde tocam músicas que eles curtem ouvir numa noite qualquer na cidade, decidiram se juntar e criar sua própria festa.

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Em fevereiro de 2009, os DJs Sammy Royale, Nino Brown, Stunts, Yes Yes Jill e L-Rock fundaram a Yes Yes Y'all no albergue Global Villagers Backpackers (RIP), localizado no coração da cidade. Era para ser um encontro intimista, e o intuito do grupo era preencher uma lacuna entre as festas inclusivas e as comunidades de hip-hop e dancehall de Toronto. Dando destaque à narrativa de um espaço queer seguro e com total intolerância ao ódio, eles definiram que a festa era "hétero-friendly", uma sacadinha com a retórica das festas gays. O espaço que antes abrigava um hotel inaugurado em 1985, se tornou pequeno demais para a festa e ela foi forçada a se mudar para um clube mais tradicional do então Annex Wreckroom (que hoje em dia é o mestre de house/techno CODA). Depois de um período de cinco anos, o grupo decidiu dar uma chance ao espaço atual, que já teve vários nomes diferentes e era vizinho do Sneaky Dee, a balada Nest.

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85 meses e mais de 100 festas depois, a YYY se tornou um dos rolês mais quentes (literalmente) de Toronto e também uma instituição, acolhendo entre 600 e 700 baladeiros de plantão todo mês. Se transformou em uma plataforma para talentos locais e internacionais, em ascensão ou já estabelecidos, com o foco sempre na comunidade QPOC. A Tribe Called Red, Angel Haze, Big Freedia, e Le1f já passaram por lá. Artistas locais como Matthew Progress, Skratch Bastid, Keita Juma e Shi Wisdom já deram o ar da graça nos palcos da YYY, ao lado de alguns dos melhores DJs da cidade (Bambii, Mensa, Lissa Monet, Wristpect, etc). Para além da música, a festa também ajudou na evolução das carreiras de alguns artistas visuais. Os ensaios mensais do fotógrafo residente Yannick Anton documentaram a cena queer em constante mudança através de suas fotos provocantes e sinceras, e garantiram a ele um espaço na Galeria de Arte de Ontario e na Universidade Ryerson.

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Enfatizar a aceitação e a diversidade sempre foi seu maior foco, e a galera da YYY reconhece que muita coisa mudou nesses sete anos. Ter frequentadores leais e amorosos que estiveram com eles desde a criação da festa e também dar as boas vindas à nova trupe de millennials é o que os faz seguir em frente e mantém o espaço relevante.

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Tradução: Stefania Cannone

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