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Ben Ruby

O Novo Jabá: Posições em Ranking de Música, Playlists e Sucesso no EDM

Gigen Mammoser

Os tempos são outros, mas a prática do pay-to-play segue firme e ganha novos contornos.

Ben Ruby

O jabá, a prática ilegal do pay-to-play, tem sido uma maldição na música desde os anos 50.

Hoje em dia, na prática, o jabá não condiz muito com a imagem estereotipada de um homem de negócios entregando uma maleta cheia de dinheiro com um LP escondido no meio. "Playlist do jabá" — pagar alguém para incluir sua música em podcasts e/ou playlists famosas — é o análogo contemporâneo mais visível da velha prática, mas é apenas uma das novas formas do jabaculê. Graças ao crescimento da tecnologia digital, o jabá se converteu em um novo hospedeiro de esquemas pay-to-play, incluindo aí as "propagandas" do Facebook e a comercialização de posições nos rankings de música. Depois da investigação do THUMP sobre conteúdos jornalísticos pagos no EDM.com revelamos mais uma malfadada forma de como os artistas podem manipular clandestinamente seu sucesso online em troca de dinheiro.

Para os consumidores, descobrir se está rolando um esquema de jabá por trás de um determinado empreendimento pode ser difícil; chegar a uma conclusão quanto a legitimidade dessas práticas, inclusive, pode ser ainda mais complicado.

O mercado de jabá de hoje parece particularmente enraizado no EDM mainstream, uma relação que se provou fértil devido a posição de destaque do gênero em dois veículos gigantescos: de um lado a Beatport, e do outro o Top 100 da DJ Mag. Para os promoters, as listas dessas publicações apresentam indicadores do tamanho da base de fãs de um artista — os números que invariavelmente virão à tona quando se pensa em agenda de shows. Entretanto, o resultado demonstrado na Beatport e na DJ Mag, às vezes afunila o talento alheio em uma lista enche-linguiça feita pela imprensa, e assim uma alta posição nos rankings musicais se torna algo que deve ser conquistado a qualquer custo.

Como o THUMP mostrou no ano passado, o ranking da DJ Mag supostamente se tornou um porto seguro para alguns dos esquemas de marketing mais toscos que você poderia imaginar. Alguns artistas compram votos no eBay enquanto outros tentam conquistá-los em grandes festivais por meio de garotas que caçam votos com o público. Até a própria DJ Mag oferece pacotes de publicidade para o ranking, que variam entre 18 e 40 mil dólares. Enquanto isso, as listas do Beatport podem ser negociadas por uma espécie de pacote de download — por exemplo, alguém compra uma faixa centenas ou milhares de vezes com endereços de IP diferentes — ou ainda por meio de descontos e prêmios oferecidos aos compradores.

Leia: O Top 100 da 'DJ Mag' Não Vale Nada.

As iniciativas contra esses esquemas de pay-to-play na música eletrônica, porém, vêm aumentando, ainda que uma das demonstrações de descontentamento mais significativas com o jabá tenha vindo de dentro do próprio universo EDM. No dia 12 de agosto deste ano, o Laidback Luke, um famoso DJ holandês-filipino que toca regularmente nos palcos principais de festivais ao redor do mundo, escreveu um artigo para a Billboard sobre o sistema de jabá "indissociável, porém bastante invisível" na dance music.

Luke parece ter duas queixas principais. A primeira, é que na corrida armamentista econômica do pay-to-play, o talento de verdade está sendo enterrado pelos produtores que simplesmente têm grana. A segunda é que, até mesmo para aqueles que optam por entrar no jogo, as regras da empresa relativas ao pay-to-play não são claras: se ao usar uma propaganda no Facebook é possível "arrecadar mais visualizações", segundo o Luke, de que forma isso é diferente de pagar para conseguir uma posição mais elevada em uma lista do Beatport ou no Top 100 da DJ Mag?

A questão do DJ holandês é oportuna. O próprio Luke e sua label, a Mixmash, estavam envolvidos em um escândalo de comercialização de posições em rankings com a Beatport em janeiro deste ano. Quando a Mixmash lançou o single "S.A.X" do Laidback Luke naquele mês, ela ofereceu reembolso total para qualquer pessoa que tivesse um recibo de compra na Beatport com a data do dia 9 de janeiro de 2015. E o plano saiu exatamente como o esperado: a faixa ficou em primeiro lugar nas paradas. Entretanto, pouco tempo depois ela saiu desta posição. A Beatport alegou que o reembolso feito pela label constituía em uma trapaça no ranking, afirmando que "a campanha impactou as regras da Beatport quanto a elegibilidade de suas listas".

A internet não deixou por menos e começou a criticar o Luke pelo escândalo, mas ele afirma que a confusão com o single "S.A.X." só aconteceu porque a Beatport não divulgou as suas políticas em relação a comercialização de posições para o público. "A Beatport não deixa suas regras expostas ao público quando assunto é manipulação de rankings", Luke escreveu em seu artigo de agosto para a Billboard. "E muito menos dá satisfação em relação a casos parecidos, que conseguiram permissão para continuar no ranking".

O THUMP entrou em contato com a Beatport em setembro em busca de questionar o código de conduta do veículo. Um representante de relações públicas da empresa nos mostrou dois artigos diferentes: uma resposta oficial por parte da Beatport, que foi incluído no artigo do Luke, e uma publicação de maio de 2014 condenando a trapaça nos rankings, feita pelo COO da Beatport na época, Lloyd Starr.

"Para quem pretende usar algum destes serviços de trapaça de rankings, nós sugerimos que você considere os custos primeiro", escreveu Starr. "Não somente o custo monetário deste tipo de embuste, mas o quanto isso custará para a sua carreira, sua reputação e para a sua alma".

Leia: Quanto vale o show?

Apesar de todo o autoritarismo, essa declaração male-mal consegue explicar a metodologia da empresa em determinar quais práticas de fato constituem uma trapaça no ranking, ou ainda esclarecer a real relação entre dinheiro e música nas listas de mais tocadas.

Para alguns produtores, essa necessidade em obter sucesso em listas indicativas como a da Beatport pode ser um sinal das influências corruptas da era da internet capitalista na música. Para outros, porém, tais variações em um esquema tradicional como o pay-to-play são indicadores de uma nova dinâmica de mercado que, apesar das influências das corporações, está preparando o terreno para novos artistas e labels.

Joshua Hernandez — fundador da SectionZ Records, uma label independente de música eletrônica localizada próximo a Los Angeles — utiliza serviços como propagandas do Facebook para seus próprios lançamentos, e está seguro de que essas práticas publicitárias se provarão úteis a longo prazo, principalmente para músicos em ascensão. A análise pragmática do Joshua é a seguinte: artistas independentes agora podem criar e comercializar suas próprias marcas de forma autônoma usando as mesmas ferramentas sociais com as quais eles interagem diariamente.

"Hoje em dia, o marketing é direcionado", diz ele ao THUMP. "Sempre foi necessário gastar dinheiro com marketing, mas agora o Facebook te dá uma ferramenta que te permite atingir um público específico que curte o que você faz. Pelo menos você sabe que com apenas 40 dólares vai conseguir alcançar 17 mil pessoas nessa área, e em apenas dois dias". Com todos esses DJs wannabe brincando com versões piratas de samples do Ableton e Vengeance no computador, está cada vez mais difícil distinguir vozes individuais dos ruídos — e algumas formas contemporâneas de podem ajudar alguns artistas independentes e talentosos a finalmente conquistar a atenção que merecem.

Ainda assim, além de encontrar seu próprio caminho em uma indústria em constante mutação, os artistas de hoje também estão incumbidos de uma grande responsabilidade — a de determinar se as decisões financeiras consideradas necessárias para o seu crescimento são moralmente questionáveis, de fato ilegais, ou as duas opções.

A falta de transparência em torno das práticas de jabá e a definição questionável da palavra na era digital criaram um mercado no qual a propriedade de serviços como propagandas do Facebook, conteúdo "especial" e reembolsos de downloads é ambígua tanto para consumidores como para os artistas. O jabá, no sentido original da palavra, foi rapidamente considerado anticoncorrencial e ilegal; os que entraram nessa onda estavam cientes de suas ramificações. Sendo assim, o que significa um artista com 20 anos de carreira como o Laidback Luke estar envolvido em um escândalo de comercialização de posições em rankings porque, ostensivamente, ele não sabia o que estava fazendo? Para jovens artistas, o mundo pode se resumir ao pequeno estúdio em seus quartos, mas a diferença entre 100 reproduções e 100 mil é a mesma de sempre: uma maleta cheia de dinheiro.

Laidback Luke está no Facebook // Twitter // SoundCloud

SectionZ Records está no Facebook // Twitter // SoundCloud

Tradução: Stefania Cannone