O que Acontece Quando sua Fantasia de Festival Ganha Vida Própria?

Está pensando em ir ao EDC Brasil devidamente fantasiado? Lembre-se que transformar seu personagem raver numa benção ou numa maldição é algo que só depende de você.

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dez 2 2015, 10:00am

"Eu nem sei seu nome, mas eu sei que ele estava no Exterminador do Futuro", diz o casal falando comigo pelo Skype. O ator, cujo nome eles não se lembram, é Sam Worthington, que interpreta Jake Sully no filme Avatar de James Cameron. É estranho que eles não consigam se lembrar de coisas tão básicas do filme de 2009 — porque eles passaram as últimas quatro horas se cobrindo de latex azul e maquiagem para ficar parecidos com as criaturas Na'vi do filme.

A dupla fantasiada brilhando na luz azul do meu computador regularmente frequenta eventos o ano todo com a maquiagem completa, escapando das obrigações da vida real e aceitando suas identidades alienígenas. "Festivais são melhores como Avatars", me disseram eles com naturalidade. E o público concorda - o par se tornou quase celebridades na cena de festivais de música eletrônica. Apesar de essa fama ser não-intencional e contrária ao desejo inicial de permanecer na incógnita.

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Seja usando um apelido de rave ou uma máscara, o desejo de continuar no anonimato pode ser bem comum em eventos de dance music. Mas, o que acontece quando a sua fantasia de festival começa a ter vida própria?

O casal na minha frente insiste na existência da total divisão entre duas identidades e o espaço que elas habitam. No decorrer de nossa entrevista, nenhum deles revela seu verdadeiro nome. Eu não sei suas idades, nem onde vivem — eles são apenas os Avatars.

"Nós não queremos que isso interfira na nossa vida real de maneira alguma", diz o casal, ambos trabalham com vendas e têm medo de serem tachados como baladeiros. "Então, para manter nossas identidades secretas, nós não contamos para as pessoas na vida real que nós fazemos isso", contam. "Se nós tentássemos juntar os dois, apenas não daria certo pra gente."

Ironicamente os Avatars, que alegremente passam horas interagindo com fãs e posando para fotos no Electronic Forest, são introvertidos confessos.

"[As fantasias] são um jeito de atrair pessoas até nós e começar conversas", conta a dupla, que diz que raramente saem pra balada em sua cidade natal.

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Para muitos amantes da dance music, é fácil dispensar as massas de baladeiros fantasiados em festivais apenas como parte do espetáculo. Mas psicologicamente, o fenômeno é bem mais profundo do que o visual. O campo selvagem da dance music é um lugar óbvio para experimentar com identidades que não são as nossas. "As pessoas costumam sentir vergonha porque tem medo do julgamento dos outros", explica Laurisa Dill, diretora da The Mindfulness Clinic em Toronto. "Em uma fantasia, esse medo pode diminuir como um resultado do anonimato, ou porque a percepção do que são regras convencionais não se aplica".

Cortesia dos Avatars/Facebook.

Mas, nem todo mundo que frequenta festivais em uma fantasia concorda com o tipo de politica estrita que os Avatars implementaram em suas vidas.

Em Toronto, um energético estudante de Direito está tentando ao máximo fundir sua vida comum com sua personalidade de festival, "O Taco da Rave". "[Usar uma fantasia] mudou completamente minha vida", diz AJ Qurashi, o homem dentro da tortilha. Como os Avatars, sua fantasia teve um profundo efeito em sua vida social, e ele lucra com isso tranquilamente. "Eu ganhei tantos amigos — eu ganhei uma namorada", conta. "[A fantasia] tornou minha vida tão melhor". O personagem de Qurashi construiu um nome para si mesmo através do Canadá e além, acumulando muitos seguidores no Twitter. O jovem de vinte e um anos usa sua fantasia como a última pulseirinha VIP, tentando crescer sua de outra forma inalcançável fama, popularidade e marca.

Cortesia do AJ Quarashi/Facebook.

Tanto os Avatars quanto The Raving Taco usam as mídias sociais para manter contato com os fãs fora da temporada dos festivais: "Eu tenho 10 mil seguidores no twitter agora e eu quero transformar isso em uma base de fãs para que eu possa começar minha própria companhia de eventos", diz Qurashi. Os Avatars criaram tanto uma conta de Facebook quanto de Twitter, no entanto sua presença online é muito menos voltada para negócios que a de Qurashi.

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Uma nova forma de celebridade está se formando no século 21. Quando mídias socias junto com personagens fantasiados em festivais se tornam figuras públicas adoradas. Seus personagens não morrem mais quando suas fantasias são colocadas no porão ao fim das temporadas de festivais; sua presença está eternizada. A privacidade de uma fantasia com máscara se tornou bem menos privada. Frequentadores fantasiados de festivais estejam avisados: fantasias podem ter uma vida própria - se isso irá se transformar em uma bênção ou em uma maldição você é quem decide.

The Avatars estão no Facebook

The Raving Taco está no Twitter

Rebecca está no Twitter.

Tradução: Pedro Moreira

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