De Palermo a Berlim: Repassamos a História do DJ Tennis

Nome por trás da gravadora Life an Death, Manfredi Romano conta por que largou a Ciência da Computação para se dedicar inteiramente à música.

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jun 16 2015, 1:30pm

No final dos anos oitenta, o punk fazia o seu melhor para retificar a má imagem que a década injustamente colocou no rock. Esse é o cenário no qual Manfredi Romano cresceu. Na quente e lotada cidade costeira italiana de Palermo, Romano entrou em contato com alguns dos soldados mais influentes do rock e do new wave como, Sex Pistols, The Cure, Ultravox e The Jesus and Mary Chain, entre outros. É meio supreendente que Romano, inspirado no new wave, terminasse como um DJ mundialmente reconhecido do techno e o co-fundador de um dos selos mais interessantes da dance music.

"Eu tenho velejado o mundo da música desde que tenho 15 anos de idade, sem parar", diz Romano ao THUMP. De mixes de cassete de gravações de rádio feitas para suas namoradas no colégio, a colecionador de 12 polegadas de italo-disco durante a maior parte da sua adolescência, "sempre que eu tinha algum dinheiro no bolso eu comprava discos", ele diz.

Seu colecionismo de vinis logo se transformou em discotecagem, o que o levou a gravar um álbum de italo-disco aos 18 anos de idade. Mas isso não era o bastante para Romano. "Eu sempre tive isso na cabeça que queria organizar festas, quero mudar alguma coisa", afirma. "Eu quero fazer alguma coisa acontecer, em uma cidade como palermo — que é bem ao sul da Sicília, onde nada acontecia de verdade".

Mesmo depois de mudar para Pisa, quando foi para a universidade por volta dos 19 anos, o foco de Romano nunca deixou de ser a música. "Mesmo que eu estivesse estudando ciência da computação na universidade, minha paixão e a minha cabeça estavam voltadas para a música". Ele então foi apresentado à Macchianera, a distribuidora responsável pela maioria dos discos de punk americano na Itália. Durante seu tempo na universidade, Romano trabalhou como gerente de turnê para várias bandas "organizando shows, levando os caras na van — era um trabalho fedorento".


Depois de anos estando dentro e fora da indústria da música em várias funções, Romano se desinteressou de vez pela ciência da computação. Depois de se formar, ele disse adeus a seus estudos. "Eu pulei numa van e andei pela Europa com uma banda do K Records, chamada Old Time Relijun", ele diz.

Depois de vagar — mesmo que temporariamente — para longe da dance music, Romano diz que foi o Warp Records do final dos anos 90 que começou a lançar o que ele chama de "coisas bem esquisitas e dançantes". Seu interesse em discotecar foi rejuvenecido, em parte por ter ficado intrigado pela ideia do IDM. "Enquanto DJ, essa combinação de coisas rítmicas estranhas, sons de sintetizador bem analógico, grandes arpeggios, grandes sons de glitches, isso ainda me influencia", diz Romano.

Foi no festival Dissonanze que Romano ajudou a fundar, há mais de uma década, quando ele diz que o artista alemão Christian Kleine o apresentou ao Ableton Live. Sendo familiarizado e fluente em programação de computadores, Romano começou a experimentar com camadas de sons obscuros. "Eu comecei fazendo músicas para filmes, para comerciais, para peças de teatro — tinha muito dinheiro em fazer música para comerciais. Por 30 segundos de música, talvez naquela época fosse 8 mil Euros", diz Romano. "Eu quase vivi disso como um trabalho paralelo da minha agência. Eu passava noites fazendo música e era bem fácil para mim".

Mas foi a sua agência, Daze.it, que roubou o tempo que Romano tinha para discotecar. O selo, que o produtor deu início na universidade, começou como uma agência que marcava shows na Itália. Acabou virando uma agência de techno no caminho marcando shows tão grandes quanto o de Richie Hawtin. "Trabalhar como promoter e agente na Itália é trabalho pesado", diz Romano. "Quer dizer que você precisa brigar no celular o dia inteiro — com todo mundo".

Depois de convidar Greg Oreck do Thugfucker para ficar com ele em sua casa na península em 2010, Oreck e Romano frequentemente se pegavam falando sobre o mal estado em que a indústria se encontrava. Depois de mandar a faixa de Oreck para selos e não ter resposta, Oreck e Romano decidiram fazer o disco por conta própria. Sendo fã instantâneo de Matteo Milleri do Tale Of Us desde que foram apresentados, Romano pediu à dupla um remix da nova faixa do Thugfucker, "Disco Gnome". A dupla mandou o produto terminado cinco horas depois.

Foi depois da gravação do álbum que Romano começou a perceber que ser um produtor de shows não era mais interessante para ele. Logo deu controle total a seus colegas da agência e se mudou para Berlim. "Na época eu tinha 40 anos e disse 'quero voltar e começar do zero", diz Romano. Em 2010 eles lançaram "Disco Gnome". Que ficou um mês sem fazer grande barulho, foi depois que Loco Dice, Peter Tong e a rádio italiana tocaram a faixa que ela explodiu, diz Romano, "Esse foi o começo do Life and Death".

Nessa hora, os entornos de Romano estavam cheios de inspirações sombrias e melódicas para criar não faixas, mas o que ele considera paisagens sonoras. Ele se encontrou influenciado pelos beats darks e ambient de Aphex Twin e Boards of Canada. "Sempre houve uma troca orgânica e osmose", ele diz sobre o selo. "Eu acho que todos nos naquela época, incluindo Seth Troxler, Ryano Crosson, Lee Curtiss, que estavam começando a Visionquest, tinham aquele espírito também. De certa forma, toda essa coisa se juntou depois de 2011, ficou cada fez maior e agora é enorme".

Romano acha que o espírito mudou, mesmo que pouco. O branding de artistas e selos hoje conta cada vez mais, algo que Life and Death tem tentado se afastar. "É assim que a media funciona, como pessoas tentam ganhar o maior número de 'likes' que conseguirem com um post de Facebook, ou Instagram", diz Romano. "Tem muito pensamento atrás disso, e tem muita gente gastando dinheiro com isso". Tendo opinião parecida com as matérias de listas que a imprensa faz hoje em dia, Romano não está interessado nas formas atuais de comunicação. "Eu acho que muitos blogs de música ao invés de falarem sobre a música, falam sobre fofocas e porcarias em volta dela".

Para Romano, e seu codinome como DJ Tennis, a indústria da música precisa perder um pouco do profissionalismo. "Em música é importante trabalhar com pessoas que você gosta e são seus amigos; é muito importante ter conexões emocionais com pessoas para funcionar". Citando a extrema distância entre artistas e selos como a razão da queda nas vendas das grandes gravadoras, Romano procura preencher a lacuna entre aqueles com quem ele trabalha e colabora. "Não precisa ser um relacionamento super forte", diz ele, "mas precisa pelo menos uma confiança e um sentimento bom e emocional. Eu também acho que é por isso que selos como Innervision funcionam, ou outros selos que são assim".

Isso não equivale dizer que Romano não entende a importância do crescimento da família Life and Death. Esse ano, pela primeira vez, vai haver uma mostra de selos em Ibiza. Seis semanas antes da temporada de Ibiza, a família Life and Death vai dominar o terraço. "Isso foi ideia do Matteo e eu fico feliz que ele tenha a coragem de fazer isso — eu provavelmente não teria", diz ele ao THUMP. "Quer dizer, você sabe que Ibiza é um lugar estranho, é fácil ficar demais. Eu acho que é exatamente um equilíbrio correto e estamos muito felizes com isso".

O equilíbrio a que Romano se refere transcende seus sets. No último fim de semana, ele tocou na Toronto Island para a primeira edição do Bestival fora do Reino Unido — um festival reconhecido pelas fantasias. Lembrando suas raízes no esporte, Romano disse iria fazer um tributo ao seu herói do tênis, Johnny McEnroe.

Parecido com o grande Johnny Mac, ele gosta de fimar baseados com seus amigos hippies em São Francisco. Canadenses podem estar seguros que Romano acha a hospitalidade do país é fantástica. "Eu experimentei a erva de Toronto", ele admite. "É ótima".

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Tradução: Pedro Moreira