‘Detroit’s New Dance Show’ Mantém o Movimento e o Rebolado

Conheça o novo som do MC e produtor Black Milk que homenageia o lendário programa de TV transmitido em Detroit responsável por apresentar a música techno para as novas gerações.

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set 16 2014, 10:10pm

"Detroit's New Dance Show", o novo som hip-hop do MC e produtor Black Milk, sacode o pó de uma das instituições menos conhecidas das bases da música eletrônica de Detroit: The New Dance Show, o lendário programa de TV local transmitido do final dos anos 1980 até o início dos anos 1990. Black Milk presta sua homenagem à trilha sonora bem louca do show com batidas sintetizadas,  pesadas e massivas.

Mais precisamente, o The New Dance Show foi ao ar entre 1988 e 1995 em Detroit no canal 62 da WGPR-TV, a primeira estação de televisão de propriedade de um negro e operada por negros. O show contou com as crianças locais, com as roupas e os penteados super descolados da época arrebentando em uma mistura de techno de Detroit, ghettotech, house de Chicago e música de artistas estrangeiros como Kraftwerk e A Guy Called Gerald. O programa foi responsável por levar a música underground emergente para as salas de estar das famílias por toda a parte baixa de Michigan.

O novo som foi apresentado a uma audiência massiva em Detrit e arredores. Esse som chegou a pessoas que estavam fora dos clubes, sons que hoje são clássicos como "Clear" do Cybotron, "Big Fun" da Inner City e "NO UFOS" do Model 500 foram algumas das músicas lançadas por DJs residentes do show enquanto dançarinos como The Count, LaWanda e Miss Energy exibiam suas habilidades. O destaque de cada episódio eram as linhas de dança, onde todos tiveram a oportunidade de ostentar seus movimentos característicos e suas personalidades únicas:

"Nós éramos as pessoas que iriam introduzir certos artistas – junto com The Electrifying Mojo e alguns outros apresentadores de rádio – e nós poderíamos fazer acontecer para eles", explica RJ Watkins, o criador, produtor e apresentador do The New Dance Show. "Se o Dance Show pegou podíamos fazer isso no mundo todo. Nós ajudamos muitos grupos só porque tocamos suas músicas no nosso show".

Frequentemente descrito como uma versão preguiçosa do Soul Train, o The New Dance Show foi único não por sua seleção musical, mas por conta do talento de edição do Watkins. Seu background nos estudos de dança e seu ouvido para música e sua edição que unia imagem aos beats, deu ao show uma energia e fluxo únicos diferenciando-o de qualquer outro programa, inclusive o seu legendário antecessor, o The Scene.

Watkins, que atualmente é presidente e CEO do Canal TV33 WHPR e da Rádio 88.1 FM de Detroit, começou sua carreira na televisão apresentando e produzindo seu próprio show, o Late Night With RJ Watkins. Ele cita Johnny Carson como inspiração inicial e continua apaixonado com o poder que a televisão tem de reunir as pessoas. Não por acaso, todos em Detroit conheciam e amavam seu bordão do programa: "Keep on movin, keep on groovin".

"Se ainda tivéssemos um show assim, nós poderíamos mostrar algumas coisas importantes que estão rolando em Detroit agora", diz Watkins. "Nós demos as pessoas um motivo para ficar em casa por uma hora, nós fechávamos a cidade. Sente-se, cale-se, ria — ame, odeie, goste, você vai estar em casa às 18h e vai assistir. O programa dava assunto pra todo mundo. Tivemos personagens, como em qualquer família, que toda a gente conhecia e amava. Você tinha sua vizinha do bairro, tinha o cara gay do bairro, a sapatão da vizinhança, a gorda do seu bairro, uma garota pequena, o vigarista do bairro, o cafetão do bairro. Tivemos todos os tipos que encontramos na vida naquele show".

Em um tempo culturalmente divisionista, The New Dance Show agiu como o Flautista Mágico, atraindo as crianças do subúrbio para a cidade e as crianças da cidade para os clubes. Em última análise, o show ajudou a nutrir a cena underground da música dance onde gênero, etnia, situação socioeconômica, raça e orientação sexual se tornaram, inexplicavelmente, uma questão sem discussão.

Agora, quase duas décadas depois que o show saiu do ar, a música "Detroit's New Dance Show" do Black Milk está reconectando seu público a esse legado. Pode ser um rompimento estilístico para o artista cujas raízes geralmente vêm através dos sons cheios de soul da Motown, os quais ele é propenso a samplear. O Black tem se estabelecido como uma força criativa na indústria do hip-hop conhecida por seu repertório em constante ampliação da produção de diversos estilos e colaboradores, como J. Dilla, Jack White e Black Thought do The Roots.

De acordo com Black, foi realmente apenas uma questão de tempo antes que molhasse o dedo do pé na piscina do techno: "Pessoas como Juan Atkins trouxeram este som para Detroit e para o mundo no início a meados dos anos 1980", explica ele. "Hip-hop era ainda muito novo naquela época também. Se você morasse em Detroit, era uma progressão bem natural das pessoas que atuavam no hip-hop passarem a atuar também na música eletrônica. Musicalmente, é diferente, mas a vibração e a sensação e os artistas que faziam techno tinham uma certa qualidade do gueto e uma atitude que fazia uma boa mescla com o hip-hop. A atitude e a abordagem não eram tão diferentes".

Ele admite que não necessariamente vai atender a sua base de fãs típica, mas esse não era o ponto. "É uma coisa de Detroit, cara", ele diz. "Quando lancei essa música, eu esperava que apenas um seleto grupo de poucas pessoas fosse comprar. Eu não esperava que agradasse a todos".

O Black Milk não é o primeiro artista a reverenciar The New Dance Show. Em 2009, o produtor de techno Osborne utilizou videoclipes do show para fazer o vídeo que acompanha a sua "The Count" e o produtor/cantor Mayer Hawthorne fez o mesmo com "A Long Time", de 2011. Ao discutir a primeiras influências, você forçaria bastante a barra para encontrar um DJ ou produtor de techno de Detroit que não mencione o show.

"Eles - Juan Atkins e os outros artistas de techno - sabem qual a importância do The New Dance Show porque nos davam uma música que colocávamos no mix e os jovens ficavam malucos", recorda-se Watkins. "Apesar de não conseguirmos o crédito por isso, as pessoas dentro da indústria sabem o segredo; eles sabem qual é a nossa".

Graças ao YouTube, The New Dance Show mantém um público fiel que o acompanha até hoje. Reprises ainda são transmitidas na área de Detroit, no canal de Watkins, mas os fãs fora da Grande Detroit que estão procurando por algo além de clipes on-line podem estar sem sorte, pelo menos por enquanto. Watkins não está ansioso para lançar seus originais. "Não sabemos como controlar aquela entidade ainda, porque uma vez você coloca em DVD, some. Qualquer um pode copiá-lo", ele admite. "Ainda não autorizei nada do YouTube, mas não me importo porque eles estão mantendo o show vivo e eu agradeço".

Qualquer discussão sobre o The New Dance Show seria grosseiramente incompleta sem mencionar os comerciais igualmente infames do Watts Club Mozambique, um clube de strip-tease masculino – o break foi ao ar durante o show:

O LP do Black Milk, A Hell Below sai em 28 de outubro. Ele também está trabalhando em um projeto de inspiração techno, que deve sair ainda este ano pela Warp Records.
 

Tradução: Jules Sposito