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O Derrick May Quer Salvar o Mundo da Música Ruim

Um dos fundadores do techno está no Brasil e falou sobre música: eletrônica, erudita e a que você deve descobrir nas ruas.

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jul 3 2015, 9:10pm

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"Na internet, o pessoal às vezes nem sabe direito do que está falando. O que eu espero que aconteça? Que as pessoas voltem a descobrir a música que está rolando nas ruas". Esta obtusa declaração pode suscitar ambos os sentimentos, de apreço ou refute, no leitor. Seja qual for a percepção inicial, basta observar que ela foi proferida por Derrick May para divagar com um pouco mais de cautela sobre as questões que evoca. Derrick, afinal, buscou na cultura das ruas de sua cidade, Detroit, a alma da Motown e o ritmo síncope do fordismo como inspiração para a invenção do techno, ao lado de caras como Kevin Saunderson e Juan Atkins.

Leia: "As Tretas e os Triunfos da Maior Edição do Movement Detroit"

É certo que a partir dos anos 1990, o techno começou a se fragmentar em múltiplos subgêneros, tipo o hardcore, o ambient e o jungle, e continua evoluindo em novas mutações. Derrick May, no entanto, nunca se desgarrou da mesma levada fluída que usou para temperar clássicos como aquele som, "The Dance", de 1987. Ou ainda "It Is What it Is" (1988) e o estonteante remix do De-Lite feat. Osca Child, "Wild Times" (1989).

Esta qualidade atemporal é mais uma vez o fio condutor de sua atual turnê pelo mundo. Na quinta (2), ele disparou aquilo chama de "Hi-tech Soul" na pista da festa Moving, no D-Edge, e nesta sexta (3) toca no Fabrika, no Rio. Entre um evento e outro, a lenda viva da eletrônica falou com o THUMP ao telefone, de seu quarto no hotel Unique, sobre todo esse papo, seu projeto atual, que conjuga techno com música erudita, e outras fitas.

THUMP: E aí Derrick, você está promovendo alguma coisa especial, tipo um álbum ou projeto novo com essa turnê mundial? Qual é o gancho das suas apresentações no Brasil?
Derrick May: Não, na verdade isso é uma coisa típica na minha vida, é o que eu faço o tempo todo. Viajar para todos os cantos do mundo pra tocar é parte da minha rotina. E eu amo fazer isso, me dá alegria. E não me canso, por mais que já esteja nessa há muito tempo. Mas essa pergunta é interessante, porque, diferentemente de outros artistas, eu nunca me apeguei a essa ideia de turnê promocional na minha cabeça. Muitos DJs precisam disso, mas para mim é só uma coisa que eu amo e com a qual lido muito bem.

Mas como você faz? Organiza umas temporadas, cumpre uma dezena de apresentações por vários países, aí tira umas férias, e embarca em mais uma série de apresentações?
Isso até que seria uma boa ideia, mas nunca pensei nisso de uma forma tão sistemática assim. Eu apenas sigo emendando uma coisa na outra conforme elas vão rolando ao longo dos últimos 25 anos. Eu nunca parei. Na real, até acho que há mais de 25 anos faço isso, comecei tipo em 1989 e sigo até hoje no mesmo ritmo. Nós, da banca de Detroit, nunca enxergamos esse lance de viajar como algo dentro de uma dinâmica promocional pra divulgar um álbum ou projeto específico, sabe? Nós nos consideramos DJs profissionais e pronto. E o nosso trampo é isso aí, se existe a oportunidade e a demanda, vamos lá e damos conta da festa com o maior empenho e amor. Nós amamos isso tudo, cara!

O seu projeto principal no momento são os concertos de techno com música erudita, que você tem feito ao lado do Francesco Tristano e de orquestras como a Lamoreaux?
Sim, nós estamos viajando o mundo juntos com esse projeto. Já rolaram três concertos, e a ideia é seguir ao longo dos próximos três ou quatro anos com essas apresentações. Os próximos shows acontecerão em Tóquio, Dallas e Detroit. Somos eu, o Francesco ao piano, e a Filarmônica da Macedônia. O mais importante nesse projeto é o processo de pegar a minha música e fazer a transposição disso para a versão erudita, de modo que possa ser reproduzida como um instrumental de ópera. Dá um baita trabalho. Estou curtindo demais, esse projeto é muito recompensador! Esse é de fato o meu investimento principal no momento.

Detroit é o berço do techno, contudo não tem rolado muita coisa nova e inspiradora saindo de lá no momento. Ou tem? Como anda a cena em Detroit?
Sou enfático em dizer que... não. Não está rolando nada. Sei lá, muita gente abandonou Detroit nos últimos anos, então a cena anda caída, precisando ser reinventada ou reconstruída novamente. Isso vai levar um certo tempo, mas vamos dar um jeito. Teve uma galera que foi embora, e teve uma galera que ficou mais velha e desencanou. Mas a vida é assim mesmo, as coisas mudam o tempo todo.

Nós da banca de Detroit nos consideramos DJs profissionais, se existe a oportunidade, vamos lá e damos conta da festa.

Por que você não faz apresentações específicas encarnando as suas outras personas artísticas, o Rythim is Rythim e o Mayday?
Rythim is Rythim e Mayday são apenas projetos. Rythim is Rythim eu usei só para aqueles álbuns, e Mayday eu usei para os remixes e meu programa de rádio. Mas na hora de me apresentar, nunca me apeguei a esses títulos, sempre preferi me promover como Derrick May.

Por que você nunca tentou alcançar as tendências musicais que surgiram depois do auge do Detroit Techno?
Eu nunca me deixei influenciar pelas tendências da eletrônica que surgiram depois daquilo que começamos a fazer porque elas são sazonais. Minha abordagem sempre foi a mesma. Eu vejo a coisa da seguinte forma: meu único objetivo é salvar o mundo da música ruim. Quando tenho uma apresentação para fazer, eu só quero que as pessoas escutem com atenção e entendam a música. Nunca abandonei a minha missão, nunca fui corrompido dessa ideia, desde o começo.

Mas você acha que o techno feito do final dos anos 1990 para cá evoluiu de um jeito legal?
Acho que o techno evoluiu bem dentro de uma avaliação geral, pesando as coisas boas e ruins, saca? Hoje em dia, nem todo techno é incrível e maravilhoso, mas cada geração tem que se arriscar, na tentativa de desenvolver sua identidade, a identidade da música eletrônica em novos contextos. O que me irrita não é tanto a falta de inovação das músicas, mas sim as pessoas estúpidas que fazem música, entende? O que vale é que a música seja feita por pessoas que entendem a arte como algo sério, algo que precisa ser respeitado, que precisa ter credibilidade. Gente que se diverte enquanto produz ou discoteca, e que se propõe a compor coisas que vão durar, que não serão esquecidas.

Muitas pessoas hoje em dia veem a house e o techno como diferentes escolas da club music. Mas, essencialmente, como podemos dizer pela sua apresentação no Boiler Room em 2013, nunca houve realmente uma fronteira entre ambos os gêneros. Não é?
A ideia de mídia musical hoje em dia mudou. Isso é uma coisa que mudou completamente. O modo como as pessoas recebem as informações, as nomenclaturas, atingiu uma importância desnecessária. Isso é perigoso, porque as categorizações e as tendências da vez destroem a oportunidade de pessoas que fazem ótimas músicas e que não conseguem aparecer porque a mídia não está olhando para aquilo no momento. Seria legal se o padrão mudasse, e o pessoal voltasse a promover simplesmente a música de qualidade, sem noiar com o que está em voga. As pessoas deveriam procurar na música não um estereótipo, e sim a sua mágica, a sua beleza. Ainda mais agora que tudo ficou meio bagunçado, com as lojas de discos fora da jogada, os escribas espertos, conhecedores e especialistas em música, fora da jogada. Atualmente as pessoas dependem de novos canais duvidosos de mídia, de informação, para direcioná-las para o que é bom de ouvir, e isso me deixa preocupado. Na internet, o pessoal às vezes nem sabe direito do que está falando. O que eu espero que aconteça? Que as pessoas voltem a descobrir a música que está rolando nas ruas. Torço para que a cultura de rua nunca morra. Minha esperança é que as ruas nunca morram para a música.

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