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Goldie Olha para o Passado Vinte Anos após o 'Timeless' e a Metalheadz

Enquanto o álbum Timeless recebe uma versão orquestral em comemoração aos seus 20 anos, falamos com o Goldie sobre o legado da Metalheadz, grafite e conversas sobre o espaço com Jeff Mills.

Lauren Martin

Foto por Chelone Wolf.

Se alguém dissesse que sou um "personagem", eu provavelmente responderia com um olhar de reprovação saudável, ou uma encarada fatal, dependendo do quão caridoso eu me sentisse na hora. Um "personagem" geralmente me faz pensar na pessoa que grita mais alto, mesmo sem ter sobre o que gritar, mas há raros casos em que um "personagem" é alguém de personalidade forte, original; alguém que vive suas fantasias e deixa uma marca indelével em praticamente tudo e todos que cruzam seu caminho. A lenda britânica do drum 'n' bass Goldie é um personagem e tanto. DJ, produtor, criador de um selo, grafiteiro – em cada trama que ele cria ao longo de décadas de carreira, se desenrola uma característica nova, mais esquisita e mais incrível do que a anterior.

No caminho para sua palestra sobre grafite, no evento Fresh Out the Box, da Boxfresh,em Londres, não muito tempo após sua intensa temporada como ator na peça Kingston 14, de Roy Williams, o THUMP conversou com Goldie sobre o show que ele faria no Southbank Centre (uma interpretação orquestral do álbum Timeless, que completou vinte anos recentemente), o legado do selo Metalheadz e como ele às vezes fala com o Jeff Mills sobre o espaço.

THUMP: O que você está achando do processo de transformar o Timeless em trilha orquestrada?
Goldie:
Bem, a ideia da música original era ter arranjos de cordas grandiosos a partir de diversos presets eletrônicos. Então, Timeless é um álbum orquestrado. Claro, é bem diferente do que se aplica ao eletrônico hoje, com todo o equipamento novo que temos. Vai soar bem diferente, mas isso significa apenas que estou experimentando.

Lembro de ver você aprendendo a ser maestro no programa Maestro, da BBC Two, em 2008, então sei que você se interessa por música clássica. Aquela experiência influenciou o projeto do Timeless?
Fico muito fascinado com a maneira como notas são traduzidas no papel, e a maneira como uma orquestra funciona. Acabei de terminar uma obra para a Orquestra Filarmônica de Glasgow, que será apresentada mês que vem, mas acho que é diferente com a Orquestra Heritage e o Timeless.

Diferente como?
É que eles querem aproveitar o projeto ao máximo para criar – em oposição à Orquestra Sinfônica de Londres, que parece bem rígida em comparação. A Orquestra Heritage é formada por pessoas que sabem tocar cinco ou seis instrumentos diferentes e têm uma mente aberta quanto ao que acrescentar à composição. Tenho um respeito imenso por Chris Wheeler. É um gênio. A primeira coisa que ele disse foi "Quero que isto seja uma interpretação, não um replay."

Que faixas você está mais ansioso para escutar? Alguma delas foi um desafio especial?
Nós nos desafiamos em faixas como "Angel", especialmente na forma como trabalhamos com a transição, usando metais. Gosto muito desses desafios. Vamos tentar criar novos sons, que talvez soem completamente diferentes, mas gosto da ideia de um pequeno coral, de 15-20 peças, entoando "Angel" a plenos pulmões.

Como você se sente com um álbum de 20 anos sendo retrabalhado assim?
Algumas coisas são melhores do jeito que estão, admito, mas tudo que estou tentando é refletir sobre música de um jeito que eu ache apropriado e empolgante. Naquela época, as pessoas achavam que minha música não duraria um ano, então curto a ideia de olhar pra trás e questionar o porquê de ter dado certo. Acho que ainda é bem experimental. Timeless foi um modelo para ideias futuras. Era sobre um garoto sonhando com algo que ele queria fazer, que ele tinha em mente. Se eu conseguir transferir o modelo para uma situação real, tangível, então está ótimo.

Como tem sido a reação ao projeto? Você já encontrou algum esnobe?
A maioria das pessoas que compôs as músicas clássicas que escuto, os camponeses que as criaram no século 14, provavelmente vão se retorcer nas covas quando ouvirem as adaptações de suas obras. Mas ainda estou vivo. Brincadeira. Meu negócio é romper com o esnobismo em torno das composições clássicas – a ideia de que só pessoas que escutam música clássica fazem parte de certa hierarquia. Essa música pertence a todos. Digo, eu vi a Orquestra Venezuelana de Dudamel arregaçar! Música clássica é do caralho.

Com o Timeless e a Metalheadz completando 20 anos agora, você sente que os aniversários e a performance no Southbank fazem parte de uma transformação sua em um legado artístico britânico? Você sempre foi respeitado, mas isso é um passo além.
Estou de volta ao prestígio. De repente, sou um vida loka de novo. Um Rakim de novo. Claro, é uma nova geração, e há coisas novas por aí, mas consegui sobreviver e reinventar. Quanto à Metalheadz, sobrevivemos a tudo. Muita música eletrônica parece ter perdido a integridade – por conta própria. Faz parte da máquina do pop. Minha visão pode não estar correta, podem pensar "Bem, ele não pode dizer isso", mas eu posso falar qualquer merda que eu quiser. Isso não significa que todo mundo entende a música da Metalheadz, mas é algo honesto. Às vezes, honestidade em música não vende.

Do que você não gosta na música eletrônica atual?
Acho que falta alma. Outro dia, minha filha estava escutando "Angie", dos Rolling Stones. Ela não tinha nem nascido quando a música foi escrita. Perguntei por que ela gostava de Stones, por que gostava de Happy Mondays, e ela simplesmente respondeu: "Acho que tem algo aí, pai". Por que a música dos anos 70 soa tão cheia de alma? Não tem nem metade do equipamento técnico, então depende puramente de boa autoria. Agora, tudo que ouço é a tecnologia na música, em oposição à alma.

Digo, não me leve a mal, há muitas variáveis. Quando éramos jovens, éramos ravers um pouco mais velhos. Agora, todo mundo sai quando é mais novo. Minha filha de 16 anos frequentaraves há um ano, e isso reflete na música. As pessoas mais velhas não estão compondo para sua própria idade. Estão compondo para a geração mais nova na pista.

Acho que é como a diferença do grafite, muito importante nos anos 80, em oposição aos dias de hoje. Ninguém entende, não sabem ler, mas assim que alguém imprime letras em forma de bolha numa camiseta? Todo mundo compra. Acho que foi isso que aconteceu com o drum 'n' bass também. É a mesma coisa com qualquer tipo de subcultura, mas o drum 'n' bass enfrentou isso como nenhum outro.

Você escuta bastante música do estilo footwork? Há uma influência massiva de drum 'n' bass e jungle nesse som.
É OK, mas é como ver um caleidoscópio, ao passo que o jungle tinha seu próprio tipo de elementos, especial. Acho que o OM Unit é um grande exemplo dessa mudança. Seu maior lançamento foi na Metalheadz, ele cresceu na Metalheadz – era sua maior influência, e o footwork se inspirou em tudo isso. O que a Metalheadz representa? As pessoas podem pegar as fitas do nosso DNA e criar algo novo e diferente.

Há muitas abordagens diferentes. Acabamos de criar quatro camisetas diferentes com a Stussy. Basicamente, eu disse a eles para se basearem na camisa do New York Knicks, e na dos Raiders em Los Angeles. Aos 18 anos, eu estava em Nova Iorque, criando coisas novas com os mestres do grafite nos anos 90, e a premissa original da Metalheadz foi construída após eu ver com meus próprios olhos os trabalhadores de colarinho azul do Bronx; construções que haviam entrado em colapso, onde a comunidade da classe trabalhadora nasceu. Para mim, era imprescindível que a Metalheadz representasse o celuloide dessa experiência.

Quem você valoriza em drum 'n' bass atualmente?
Olho para caras como o Sb81, que estão arrebentando tudo agora. Ele tem me deixado atento. Caras como o OM Unit, o DLR e o Mako, em Bristol – todos estão fazendo coisas de ponta. Acho que o selo tem se reinventado tanto que o ciclo está completo. É simplesmente aquele som que se tornou nosso sinônimo.

Você acha que grande parte do apelo duradouro da Metalheadz é você mesmo?
Talvez tenha algo a ver. Eu aviso os caras sempre que ouço algo novo. Gosto de poder fazer isso. Acho que as pessoas de Nova York me acolheram quando eu era adolescente, e isso me influenciou. É preciso ter um contato forte com as pessoas. Quando sento em uma mesa com um cara de A&R me dizendo que preciso mudar a fórmula, sei que o que eu faço não tem nada a ver com esse mundo. A questão é a atitude da música. Se você quer ganhar milhões, esse não é o trabalho para você. Com o selo, são pessoas fazendo a música que querem fazer.

Acho que gravadoras – especialmente, as independentes – são hoje mais importantes que nunca. A Internet e softwares baratos abrem portas para qualquer um que queira tentar produção musical. Acho que precisamos de selos para definir sons, movimentos, estéticas – tudo que cria algo memorável. O que isso significa para você? Você acha que é por isso, em parte, que selos independentes que conseguem sobreviver à tempestade – isto é, conseguem construir um legado de referências em, tipo, 20 anos, com uma estética e um som fortes – são respeitados?
Olha, querida – posso te chamar de querida? Você se importa? Quero dar a real aqui. Pessoas que sobem coisas no Soundcloud não estão fazendo algo substancial. São tão carentes. É como uma criança acenando por trás de um telefone, dizendo "Me retweeta! Me tweeta!" Porra, você não tem auto-estima? Algumas pessoas têm uma necessidade insaciável de fama. Música boa é música boa. Muitas coisas que ouço agora não têm nada a seu favor, e acho que selos são muito importantes.

Qual você acha que é o próximo passo da Metalheadz? Você vai continuar segurando o leme?
Você está certa quando diz que estou guiando a Metalheadz, mas acho que o papel de representar o selo foi passado para outras pessoas. Ainda acho que pertence a outra geração. A indústria atual age muito por conta e risco. As pessoas só querem ser estrelas pop, então que sejam. Se me dissessem que a Metalheadz se tornaria a Número Um, eu provavelmente me mataria com um tiro na cabeça. Somos a justaposição de tudo que está acontecendo lá fora. No futuro, acho que isso inspirará uma geração mais jovem, e vai ser grande.

E quanto aos gigantes festivais de EDM nos EUA? Você costumava morar em Miami e Nova York, certeza que testemunhou grandes mudanças tanto de perto quanto de longe.
Não toco mais nos grandes festivais EDM porque não têm lugar para nós. Eles pertencem a outra geração agora. Se tocarmos um set da Metalheadz num desses festivais será um fracasso. É algo completamente diferente agora. Mas eu diria que o lado bom da música eletrônica é que se ramificou e se transformou em diversos tipos de música diferentes. Não se trata só de drum 'n' bass, e gosto dessa ideia. Isso era impossível no nosso tempo. Cada um tinha que delimitar seu espaço e permanecer nele. Era drum 'n' bass ou pop naquela época. Não havia mais nada, e então um pouco de grime apareceu. Agora, parece que é feita de diversas coisas.

Eu perguntaria sobre seus próximos planos, mas tem sido um ano bem cansativo pra você.
Porra, nem me diga! Acabei de terminarKingston 14. Estou cansado pra caralho. Fiz 35 shows. Esse fim de semana acabou comigo. Acabei de receber uma mensagem da Olivia Williams, uma grande amiga minha – praticamos bastante ioga para sobreviver – e ela disse: "Acabou, caralho!" Fiz um show na sexta-feira, depois toquei no Fabric, depois fui para Nottingham e toquei das 4h30 às 5h30, depois voltei para Londres em torno das 7h45. Levantei, fui para o teatro para uma sessão matinê e depois tive uma sessão à noite. Nem sei como sobrevivi. Acho que uma viagem para a lua talvez ajude.

Aliás, acabei de falar com o Jeff Mills sobre o espaço, parece que vocês dois sonham com isso.
Querida, eu conheço o Jeff!

Sério?
Sim, nós conversamos às vezes – recentemente, falamos sobre as fotos de céu que ele tem tirado. Ele também brinca com coisas orquestrais.

É, agora vocês dois já trabalharam com trilha orquestral. Vocês conversam sobre isso?
Tivemos longas conversas sobre o trabalho dele. Eu estava tentando tirar ideias dele, falando das coisas que ele estava fazendo. Eu tenho muito tempo para ele. É um cara muito inteligente. Ele tem um respeito muito grande por mim e pelo que faço. Óbvio que é bem diferente, mas, ainda assim, é um corte do mesmo tecido. Algumas ideias dele são muito doidas. Gosto de como ele raciocina.

Você pode seguir Lauren Martin no Twitter, aqui: @codeinedrums