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Lucas Jacinto

Domingo no Dark: Seria o dark trance o próximo som dos universitários?

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Estudantes de Direito em São Paulo criaram a Dark Universitário, uma festa em que só toca a vertente mais acelerada e soturna do trance e que agora quer um espaço na Virada Cultural em São Paulo.

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Era mais um dia comum, ainda em 2015, quando meu pai — um cinquentão que toca psy trance há mais de 15 anos e frequenta raves desde meados dos anos 1990 — chegou com um vídeo do YouTube pra mim, e a sensação foi a de que eu assistia a uma proeminente quebra de paradigmas na cultura psicodélica brasileira. "Olha isso", ele me disse." Estão fazendo uma 'darkera' na praça, em São Paulo. Isso é muito louco".

"Dark Universitário" pode ser a junção de palavras que, teoricamente, menos fazem sentido dentro de tudo o que você já viu no mundo da música. E foi exatamente por isso que resolvi ver de perto o evento que une ocupação do espaço público, DIY, estudantes universitários e a vertente mais pesada do psy trance, o dark trance. Reunindo samples de sons assombrosos e um ritmo frenético, o dark pode atingir uma velocidade de até 200 batidas por minuto. E isso é muito rápido.

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Agora imagine todos esses elementos distribuídos em muitas caixas de som, e DJs reunidos em um lineup com 12 horas de duração em uma praça pública, no centro de São Paulo. É essa a fórmula do Dark Universitário, festa que aconteceu pela terceira vez, no dia 20 de março, no Largo São Francisco. Realizada por dois estudantes do sétimo semestre de Direito da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), a "darkera" — para os íntimos — acontece com tudo nos conformes, inclusive com autorização da prefeitura. Mas no início, não era assim.

Todas as fotos por Lucas Jacinto.

"Tudo começou na calourada do ano passado, quando eu decidi levar pra faculdade meus equipamentos e caixas de som", conta Guilherme Falleiros Molina, 23, um dos organizadores da festa. "A ideia era disputar o espaço com os funkeiros". Mesmo sendo a minoria numa disputa contra os ritmos mainstream universitários, como o sertanejo, o rapaz e seus amigos do psy saíram vitoriosos. "Foi democrático", no fim das contas, ganhou a caixa de som que falou mais alto.

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"A galera curtiu", diz o estudante que tornou a fazer o rolezinho Dark na Rua Taguá, lugar onde também fica a FMU. Com a ajuda de seu comparsa Jorge Henrique, 26, Guilherme conseguiu fazer o projeto resistir de forma "ilegal" por oito edições antes de ganhar a atual proporção. "Até que um dia, um cara que trabalhava na subprefeitura Sé foi numa festa e disse ter gostado do projeto. Tivemos uma reunião, e desde então recebemos o aval para utilizar as praças públicas", revela Molina.

Molina no centro e seus chegados na criação da Dark Universitário.

A partir daí, a festa tomou outro rumo. "É extremamente gratificante poder apresentar a nossa cultura — que por vezes é subjugada — a todos que tiverem interesse", relata Jorge.

O papo do subjugado é reflexo do estereótipo que a cena rave recebeu por parte de uma parcela de festas tidas como espaços para o livre consumo de drogas. Mas no raiar dos anos 2000, as coisas não eram tão difíceis para quem gostava de rave. Na época, não faltavam pistas armadas em praias paradisíacas brasileiras, grutas, e até em cavernas, reunindo pequenos grupos em busca de música eletrônica psicodélica.

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Os flyers das festas da época traziam mensagens de paz e algo sobre "trance tribal nativo do Brasil" (vi isso num ingresso da Ypy Poty de 2002 que tem aqui em casa). Esse discurso manteve-se como o trivial até o dia em que algo fez com que pessoas como meus pais se afastassem um pouco da cena.

O marco para o fim "do tempo bom que não volta nunca mais", pelo que me lembro, foi o dia em que o importante DJ da época concedeu entrevista no programa da Hebe Camargo falando sobre rave. "Depois disso, até sua avó achou que sabia o que era trance porque viu as festas que eu frequentava na televisão", recorda meu pai. "A visibilidade foi aumentando. Isso abriu as portas pra muitas pessoas passarem a produzir festas, mas sem o mesmo compromisso com a música e a cultura".

Desde então se convencionou a dizer que festa rave ou cultura trance estão ligadas a grandes estruturas comerciais, que produzem megaeventos em pesqueiros, parques de diversões, cheios de gente louca. Uma matéria do Fantástico, em 2010, dizendo que raves misturam brinquedos radicais, bebidas e drogas foi um dos lances da imprensa que contribuiu para o estigma do gênero. O problema, porém, é que festas como a retratada pelo programa da Globo não representam a pluralidade da cena trance nacional.

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Um exemplo de pontos fora dessa curva dos rótulos dados ao trance é a própria realização do Dark Universitário. "Vejo vários pais com os filhos [na festa], que passam e param para prestar atenção no que está acontecendo", diz Jorge. O Criolo, inclusive, foi um dos curiosos que pintaram na última edição para ouvir um pouco do som — ou entender o que diabos estava rolando.

O estudante também conta do caráter beneficente do projeto. "A gente pede 1kg de alimento não perecível para doação e deixamos uma caixinha, onde depositam doações em dinheiro se quiserem". A festa de domingo arrecadou 60kg de alimentos e mais R$ 161 em doações. "Ainda é pouco perto do que deveria ser, já que nessa edição mais de 600 pessoas compareceram. Mas o que foi doado será dividido entre a Casa do Caminho e ADEFAV", explica Jorge.

Para manter as contas em dia com os caras do som, a grana vem de um bar improvisado pelos organizadores do Dark Universiário. "Essa é nossa única fonte de recursos para pagar o mínimo de infraestrutura que precisamos. A prefeitura apenas libera o espaço, o resto é com a gente", ressalta Molina.

E tome equipamento para aguentar as diferentes vertentes de dark trance que rolaram na "pracinha". Naquele domingo, 16 DJs fizeram a música tocar sem parar das 9h às 21h, cada um mandando o melhor dentro das sub-vertentes do gênero — prog dark, psycore, night, high-tec e forest.

"Psycore é uma linha bem experimental, com o bpm mais acelerado, que pode chegar acima de 200 bpms. Forest, por outro lado, é uma vertente um pouco mais lenta, com um ritmo que fica na casa dos 148/160 bpms, e traz um conceito muito psicodélico e introspectivo. E existe o hi-tech, onde, apesar de muitos produtores não usarem elementos tidos como 'dark', hoje é a sub-vertente que mais cresce", explica Paulo Enge, que curte a cena trance desde 1997, organiza festas desde 2003 e é DJ do catálogo da label francesa Ovni Records.

Enge discotecou a vertente hi-tech no fim da tarde do Dark Universitário, e afirma que, por ser um som com características menos comercias, o dark acaba recebendo menos espaço nas festas. "Porém, de alguns anos para cá, diversos núcleos e DJs focaram nessas vertentes e o público cresceu bastante. Isso está chamando atenção de organizadores de grandes circuitos e festivais".

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"No rock, em que encontramos o pop rock — que agrada a massa —, temos também o metal, que agrada os públicos que gostam de músicas mais 'pesadas'. O dark trance seria o metal do psytrance", compara Enge.

Flinn: "Essa apresentação é sensacional".

E é real, por mais chocante que o estilo seja, a música agradava não só ao público da festa, mas também a várias pessoas que passavam pelo Largo São Francisco, ou que moravam na região. "Eu venho para essa praça quase todos os domingos, e nunca vi nada como isso. Gosto muito de shows a céu aberto, mas essa 'apresentação' é sensacional", conta Flinn, tanzanês de 50 anos que decidiu tirar um lazer no largo e curtir a festa.

Amauri, um morador de rua da região, dançava freneticamente e me falou sua impressão do acontecimento: "Sou morador do mundo. To achando isso aqui uma maravilha. Quantas pessoas não queriam estar aqui vivendo esse momento? Alegria e união, é disso que eu gosto".

Henrique Carvalho: "Eu morava em Belo Horizonte, e não tinha festas assim".

"Eu estava vindo do Centro Cultural, e seguia para a Biblioteca Mário de Andrade — ia assistir uma peça", me disse o estudante Henrique Carvalho Fagundes, 21. "Eu ouvi essa música no caminho e decidi seguir o som até encontrar. Eu morava em Belo Horizonte, e não tinha festas assim. Gosto muito de música eletrônica e acho isso a cara de São Paulo".

O carioca Darci Graça Filho, 32, foi além. "Prefiro ver essa praça ocupada assim, do que abandonada, juntando dengue", disse ele que passava pelo largo e ficou um tempão observando a Dark Universitário.

Darci Graça: "Prefiro ver essa praça ocupada assim, do que abandonada, juntando dengue".

"O dark é a vertente que mais tenho escutado ultimamente", explica Luciana Oliveira, que voltou a frequentar festas rave há três anos e foi pro largo pra curtir o "rolê universitário". "O psy trance em si é uma música mais feliz, que traz a interação, onde a gente bota pra fora. Mas o dark é introspectivo. Ele desconstrói a melodia — aquilo que você já espera da música —, e isso ajuda o seu cérebro a se concentrar". Para Luciana, os efeitos sinistros e às vezes até a bagunça sonora da música "servem para a reflexão de uma nova lógica, diferente da racional, criando espaço para novos pensamentos".

Talvez por conta dessa desconstrução musical, o dark não seja o mais popular dos gêneros da música eletrônica. Mas ainda assim, o dark anda sozinho e hoje e tem ganhado espaço em palcos de festivais como Shivaneris, Universo Paralelo, Mundo de Oz e Cosmic — e a Dark Universitário é o resultado desse processo de emancipação: o povo vai pra festa ouvir o som e dançar de verdade, mesmo.

"É difícil imaginar o dark trance como o próximo mote da 'música universitária'", opina Molina. "Mas se estamos fazendo essa festa, é porque queremos transcender tudo, seja o que é considerado música de universitário, ou onde se deve tocar dark trance". Para o estudante, "todos devem conhecer nosso som e tentar romper com o preconceito".

Para tanto, a próxima meta da dupla universitária Jorge e Molina é inserir o rolê na programação da Virada Cultural em São Paulo. "Estamos levantando material e nos preparando para apresentar o melhor do que a festa conseguiu proporcionar para a cidade e para nossa cena, e quem sabe, conseguir espaço nesse evento tão importante", explica Jorge

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A 3ª edição com alvará da prefeitura da Dark Universitário rolou sem problemas. A polícia até apareceu, mas não embaçou – viram que tava tudo na paz, cada um com sua viagem. "Daqui para frente, só queremos fortalecer o esquema de doações com mais divulgação, e continuar mostrando que o dark também é amor e sintonia com a música", finaliza Molina.

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