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Quatro Anos da “Esquizofrênese” da Carlos Capslock

Conversamos com Paulo Tessuto, o mentor da festa que já deixou sua marca na noite paulistana.

Anna Mascarenhas

Anna Mascarenhas

Há quatro anos, Carlos Capslock não era uma festa. Era só uma piada interna, resultado de uma noite de zoeira intensa entre amigos, que decidiram inventar personagens para si próprios. Carlos é um garoto loiro, nerd, levemente parecido com o Macaulay Culkin depois de uma olimpíada de física. Encontrado na internet, o rosto do personagem fictício foi usado para dar um pouco mais de vida ao personagem de Paulo, que decidiu levar a história para as redes sociais. A página se tornou um espaço onde a sátira e o maravilhoso universo dos memes lapidariam o conceito da festa.

Apoiado pela galera da Voodoohop, onde a "esquizofrênese" de Carlos Capslock teve seu primeiro experimento positivo, Paulo decidiu criar a festa. A ideia era despertar reflexão, na forma que fosse, e sair do convencional estilo clubber que imperava na época. Você sabe, aquela coisa de ser e aparecer na noite, de consumir a informação sem absorver nada. Mesmo que você não entenda conscientemente o clima expressivo, livre e sem preconceitos da festa, estar lá já te garante umas boas doses de loucura saudável por osmose.

Quando eu colei no aniversário de quatro anos da festa Capslock, no começo de fevereiro, naquelas fábricas no Brás que passaram a abrigar diferentes rolês, procurei o Paulo em vários lugares. Até que uma loira alta de vestido azul cintilante passou na minha frente e eu me desconcertei. Na hora eu não tinha entendido que se tratava do próprio Paulo. Ela me deu um adesivo do Capslock, que eu coloquei no meu mamilo direito, e voltamos a nos misturar no meio da galera muito louca que se deixava hipnotizar pelas luzes - trabalho do Paulinho Inn Fluxus - e pelo som experimental.

Se São Paulo é uma cidade multifacetada, condensando culturas, gêneros, gostos e estilos diferentes no mesmo espaço urbano, a Capslock é a representação noturna (e muitas vezes diurna) desse conceito. Dentro da Trackers ou nas ruas do centro, a festa sempre serviu ao seu propósito, o de impactar. Depois de acompanhar a comemoração dos quatro anos da Capslock, me encontrei com seu criador. Paulo comia calmamente uma casquinha de siri no bar Jabuti, na rua da sua casa, em São Paulo. Na conversa, descobri que Paulo foi a Berlim pela primeira vez em 2013 e que ele pensa seriamente em entrar para a política. Enquanto você espera o esmalte verde limão secar, se liga no nosso papo:

THUMP: Como foi o seu primeiro contato com a música eletrônica?
Paulo Tessuto: O primeiro contato foi numa festa em que o DJ Marky tocava. Eu tinha 16 anos e consegui entrar lá, ele era residente de quinta-feira, acho. Na verdade, esse foi o primeiro contato em clube. Mas quando eu tinha uns 10 anos, morava com a minha prima, e ela curtia música eletrônica, prog, tava começando a cena eletrônica por aqui. E aí eu ouvia alguma coisa com ela, mas nada que me interessasse muito. Daí, a primeira vez que eu me interessei em tocar foi em 2007, 2006, não tenho certeza. Eu comecei a frequentar a D-Edge e um dia eu vi um cara tocar lá, gostei pra caramba. Na época eu trabalhava numa loja de shopping e tinha acabado de sair da loja. Como eu tinha ganhado uma grana, da rescisão do contrato, e eu resolvi comprar uns toca discos e começar a tocar em festa.

Mas você conhecia gente que tocava?
Não.

Onde você costumava tocar quando começou?
Eu fazia minhas próprias festas, já. Mas aí eu comecei a tocar numas festas tipo a Jaca. Lembro que a primeira festa mais conhecida que eu toquei era no Tostex, chamada Sunday Away.

Eu tinha ganhado uma grana da rescisão do contrato do meu antigo emprego e resolvi comprar uns toca discos e começar a tocar em festa.

Você tinha alguma opinião formada sobre a cena eletrônica nesse momento?
Ah, eu conhecia muito pouco, então eu nem pensava muito nisso. Pra mim eu tava aprendendo, observando as pessoas, vendo como elas trabalhavam. Eu tocava minimal techno.

De que forma a ideia do Carlos Capslock surgiu?
O Capslock surgiu em 2010. Era uma brincadeira entre amigos. Na verdade, a ideia nunca foi criar uma festa. Depois de uma festa a gente foi pra casa de um amigo, continuou a noite por lá, relaxando pra poder ir pra casa. E ai a gente acabou inventando um personagem pra cada um. E eu inventei o Carlos Capslock. Eu lembro que a minha amiga Mari era a Vanessa Volto, tinha o Newton Newsletter... Na verdade são os únicos que eu lembro.

E ele tem um rostinho tão característico, da onde você tirou?
Eu achei na internet, essa imagem. Poderia ser você. Peguei num site que tava zoando já a foto.

Como o personagem se transformou em festa?
Eu comecei a aparecer na Voodoohop vestido de nerd, então o Carlos Capslock se personificou. E teve uma festa em que tinha que escolher o tema. Você entrava na Voodoo e sugeria um tema, o mais votado seria o tema da festa. Acho que foi a primeira vez que a gente fez a festa no antigo Masp, sabe? Na [rua] 7 de abril. Ai o Capslock ganhou porque o tema era "esquizofrene-se", alguma coisa como "se liberte". E a partir disso me sugeriram fazer uma festa.

Era tranquilo de organizar a festa?
Era totalmente desorganizada. Sempre foi separada da Voodoohop, mas eles ajudavam na divulgação. A gente também trabalhava com alguns artistas deles, trabalhamos até hoje, mas a produção não tinha uma ordem. A primeira edição foi em dezembro e eu toquei, uma das pistas era de noise e acho que o Pilantropov tocou também. Eu não lembro, minha memória não é uma virtude minha. Foi na Trackers, quando ela nem era conhecida ainda, iam umas 80 pessoas, sei lá. Muitas edições foram lá, mas a gente fez em lugares diferentes também, na rua. A gente até fez no Bar Secreto. Eles tinham reformado, queriam mudar um pouco o conceito, investiram no som. E eu tocava lá há bastante tempo já, então eles insistiram em fazer e fizemos. Até conseguimos colocar catuaba, abaixar o preço da cerveja. Foi uma experiência legal, tentar levar as pessoas pra um lugar onde elas não costumam ir, entrar em contato com um público residente que a gente não conversa tanto. Acho interessante dialogar com pessoas que não estão acostumadas com o que você faz.

Você vê muita diferença no tipo de público do começo da festa se comparado ao público de hoje do rolê?
Ah, acho que é uma coisa meio inevitável, quando a festa vai ficando conhecida, algumas pessoas que iam no começo deixarem de ir. A estrutura vai crescendo, vai aumentando o preço. As pessoas não tão acostumadas a se misturar e isso é muito importante eu acho. Começa a ir um público diferente algumas pessoas não se sentem mais à vontade, mas eu acho importante essa mistura. Se o projeto dá certo, acho quase inevitável você atrair todo tipo de público, as pessoas querem conhecer o trabalho que a gente fez.

Você acha que o personagem Capslock foi um jeito de você explorar o seu lado mais performático?
Acho que não. Foi uma fase da minha vida, continua sendo, e eu como artista procuro expressar sempre o que eu to sentindo. De várias formas. Mas esse não é o foco da festa, o foco sempre foi a música e diversão. Colocar pessoas em contato, sei lá, tentar vender um estilo de vida pras pessoas. Não vender no sentido de produto, mas como uma fonte de inspiração pras pessoas. A gente conversa com temas subversivos, a gente faz abordagens nas ruas também. Eu procuro me envolver um pouco com essas questões, porque eu acho que como artista é importante, pela visibilidade que a gente tem, tentar usar pra algo mais. O lance das performances é algo que faz parte das festas, mas não define totalmente, só acontece. Quando você vai lá você vê todo o tipo de gente, montada e tal. Foi uma inspiração que a gente teve desde o começo, mas era natural, não foi uma coisa que a gente impôs pras pessoas. É meio inspirado nas festas de Nova Iorqkdo final dos anos 1980, porque tinha muito disso, toda a cena drag que tem até hoje. Queria resgatar um pouco o espírito dessas festas.

Que é um jeito de você fazer as pessoas se sentirem a vontade com elas mesmas, de certa forma.
É, a noite as pessoas tendem a se soltar um pouco mais, no escuro.

Vocês começaram muito cedo a fazer festas nas ruas né? E agora parece que tá rolando uma tendência desse tipo de evento.
É, tá rolou isso. Mas pra esse ano a gente não marcou nenhuma festa na rua ainda. Eu acho legal, a gente não tá fugindo disso, mas como tem muita coisa acontecendo é legal você também ter espaço pra coisas novas. Festas novas que vão surgir. Só não acho legal a visibilidade empresarial que isso pode ter. Pessoas que fazem totalmente o contrário, começarem a se interessar em fazer isso. Transformar em coisa de marca. Se a marca realmente se engaja e quer incentivar a cultura, agora se quiser tomar partido pra se aproveitar disso eu não acho interessante. A gente pretende fazer coisas na rua, mas como ta tendo muita coisa assim, eu acho um pouco desgastante a gente fazer. Toda semana tem umas três festas de graça na rua, acho que a gente teve o nosso momento e talvez agora seja o momento de outras pessoas.

Vocês já tem muita coisa marcada pra esse ano?
A gente tem o calendário quase pronto de festas, mas só na rua que a gente não fechou nada. E também vamos abrir o selo da Capslock. A gente já produz, temos os nossos residentes que produzem, e queríamos criar uma plataforma de divulgação desses artistas, de engajamento. Colocar o mercado brasileiro de produtores pra funcionar também, porque não tem tantos selos quanto poderia ter porque há vários nichos. Acho que é um momento bom pras pessoas se unirem e fazer acontecer mesmo.

E qual vai ser a diretriz do selo da Capslock?
Na verdade a gente tem os residentes, que são os que vão lançar no começo. E nossa ideia é dar espaço para os artistas brasileiros mesmo. Pretendemos manter uma linha de som, mas nada muito radical.

Você se divide entre o Paulo produtor e o Paulo organizador da festa?
Não acho que dá pra dividir muito. É algo que acontece meio que organicamente. Eu gostaria de ter mais tempo pra produzir, na verdade toma bastante tempo a produção da festa. Mas esse ano eu to com planos de deixar isso um pouco de lado, até porque agora eu to trabalhando com mais produtores, mas sei lá. Eu vejo como um processo que tem que acontecer naturalmente. É difícil sentar aqui agora e pensar "vou fazer alguma coisa". Acho que eu não consegui atingir esse patamar ainda, de sentar e fazer uma track em dos dias. Eu gosto de dormir e acordar de madrugada e ai começar a produzir.

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