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      Entrevistão com Erick Dias e Edson Bolinha, Organizadores da XXXperience

      August 14, 2014 10:30 PM


      Todas as fotos por Anna Mascarenhas

      Em 2016 completam-se 20 anos desde que o festival XXXperience aconteceu pela primeira vez, àquele tempo dentro de um cenário ainda diminuto. Hoje o evento conta o seu público na casa dos milhares. A XXXperience firmou-se no mercado da música eletrônica paulatinamente e atravessou muitos enroscos, que vão desde a criação de demanda até o preconceito da mídia e a perseguição das autoridades. Núcleo de festas rave em sua gênese, a marca virou um diversificado festival que contempla todas as vertentes do gênero. A ascensão do formato teve um gás a partir de 2002, quando rolou a primeira das já tradicionais edições especiais de aniversário.

      A consolidação veio em 2006, durante a celebração de 10 anos, na Arena Maeda, em Itu (São Paulo), ocasião em que a XXXperience atingiu pela primeira vez a marca de 30 mil pessoas. Dezenas de ônibus de excursão chegaram para a festa trazendo gente de todos os estados do Brasil. Atualmente as Edições Especiais, sempre na segunda metade do ano, alcançam repercussão internacional. Os cenários grandiloquentes e enaltecidos pela tecnologia, que já se diferenciam normalmente nas turnês, ganham ainda mais vida. Os números da jornada de 17 anos da XXXperience computam cerca de 150 edições realizadas, mais de dois mil artistas e para além de um milhão de pessoas.

      A novidade é que, para coroar essas duas décadas de caminhada, as produtoras responsáveis, No Limits e Plus Talent, lançaram o conceito de uma trilogia. A campanha #XXXtrilogy inaugura o ciclo no dia 15 de novembro, na Arena Maeda. O mote vai nortear a temática ao longo dos próximos três anos de programação do evento, culminando com a super festa de 20 anos, de fato. Quarenta atrações devem preencher a grade artística. Já estão confirmados o israelense Captain Hook, os brasileiros Elekfantz (do DJ catarinense Daniel Kuhnen e do músico Leo Piovezani) e Alok, Day.Din, nome forte do progressive trance, e o irlandês Matador, do selo M-nus, de Richie Hawtin.

      O tema desta edição inaugural será "Vale dos Dragões" e, em 2014, o festival tem quatro palcos segmentados: o Love Stage, voltado ao EDM; o Joy Stage, onde apresentam-se os artistas de deep e tech-house; o Union Stage, onde a transa é o techno; e o Peace Stage, espaço dedicado ao trance. Tomei um café com o Erick Dias e o Edson Bolinha, do Grupo No Limits, numa manhã de chuva lá no escritório da Plus Talent, no intuito de saber um pouco mais sobre o que eles estão preparando para essa "aventura pelo caminho da magia". A conversa começou pela proposta do XXXtrilogy, e fluiu rumo à própria evolução do evento. Vejam só o que rendeu:

      THUMP: Como vocês chegaram nesse conceito do XXXtrilogy e o que vai rolar de especial exatamente?
      Erick Dias: Como estamos às vésperas de alcançar uma marca histórica, 20 anos de um festival de música eletrônica no Brasil, chegamos à conclusão de que se tratava de um momento único que pedia alguma coisa diferente, inclusive uma ideia boa pra começar a divulgar e chamar a atenção para isso. E aí chegamos nessa ideia de criar o XXXtrilogy, pois daria pra divulgar o evento de 20 anos desde já e contar a história da XXXperience ao longo de três etapas. Uma trilogia mesmo, que começa esse ano. São três temas, e não são apenas três eventos, porque com a XXXperience geralmente nós saímos em turnê, então podem ser duas, três, quatro, cinco cidades, capitais normalmente, por onde passamos. Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro... Dentro de uma pegada surrealista, nós vamos contar uma história, uma lenda: o primeiro tema é o "Vale dos Dragões", a segunda etapa é o "Vale dos Desejos" e, a última é o "Reino da Magia". O que a gente fez? Criou um mundo, que é o mundo XXXperience... O festival tem uma identidade muito grande com a borboleta, né? Daí criamos tipo um Zeppelin em formato de borboleta. É ela quem transporta a galera pra esse mundo, traçando os 20 anos de um caminho pela magia. A borboleta sai, cai nesse primeiro mundinho, dos dragões, acabou essa primeira fase no ano de 2014, ela passa para a segunda, do vale, que vai percorrer várias cidades e tal, e aí sim chega no Reino da Magia, fechando o ciclo com uma grande celebração em 2016.

      Nessa trilogia a programação vai privilegiar um ou outro gênero?
      Erick: Nesses próximos dois anos o line-up vem nessa mesma base dos últimos quatro, cinco anos. Uma coisa bem diversificada, bem democrática, house, techno, psytrance, electro-house, uma pegadinha de dubstep... bem variado. Para a de 20 anos, em especial, estamos pensando em algumas coisas diferentes, entre elas o resgate de algumas coisas históricas mesmo. Coisas que fizeram e fazem parte até hoje do festival. Mas ainda é muito recente pra que possamos abrir aqui a parte artística. Mas a pegada vai ser bem agregadora, não segmentada.

      Vocês da No Limits fazem parte da organização/produção da XXXperience desde que o evento começou?
      Erick: A festa começou em 1996, e nós entramos de sócios em 1998. Hoje tá aí o Bolinha, meu sócio, então...

      Então vocês não participaram da fundação da festa?
      Erick: Na realidade quem fundou a festa foi um DJ, né, o Rica Amaral. O primeiro evento sob o nome XXXperience que rolou foi com ele. Na sequência, depois de três ou quatro edições entrou um outro DJ, o Feio, e aí um pouquinho mais pra frente entrou a No Limits.

      E a XXXperience já nasceu com a proposta e formato que ela tem hoje? Ou foi a entrada da No Limits que trouxe novos conceitos?
      Erick: A ideia do Rica na época era fazer uma coisa... que é até legal dizer que o nome veio dessa proposta mesmo que ele queria imprimir, de uma "experiência". Era música eletrônica, um negócio ainda embrionário, e todo mundo queria experimentar... Ele viu isso lá fora e falou "Cara, vou fazer uma experiência propriamente dita aqui no Brasil". E aí ele fez, uma coisa que na época era muito underground, totalmente inédita, diferente, e viu que tinha um certo mercado. A gente na verdade olhou, percebeu que isso podia ser uma oportunidade, e como já tínhamos vivência na realização de uns eventos na época, achamos que valia a aposta.

      Naquele tempo o negócio era tipo uma rave, né? Um lance mais underground do que próximo da ideia de um festival...
      Erick: Naquela época, música eletrônica, para a grande maioria, era techno. Não chamavam nem de "música eletrônica", porque qualquer coisa era techno. No começo tinha muita rejeição, dificuldades muito grandes, mas nós continuamos acreditando e fazendo, e a coisa foi evoluindo...

      A No Limits fazia que tipo de eventos antes de assumir a XXXperience?
      Erick: Nós, da No Limits, trabalhamos com música eletrônica desde que existimos. Naquela época fazíamos vários tipos de eventos, entre eles os de música eletrônica. Mas aí acabamos ganhando um corpo muito grande dentro da cena e isso ajudou a construir a cena, de uma forma geral, porque fomos o primeiro evento a levar a música eletrônica para o Brasil afora, além de São Paulo. Então nós fomos pra Foz do Iguaçu, Fortaleza, Bahia, Goiás, Centro-Oeste... Brasília, Cuiabá, Uberlândia. Nós estamos hoje em quase 150 edições do evento, e fomos literalmente do Oiapoque ao Chuí. Inclusive, nessa época da expansão territorial mesmo, uma das turnês era baseada nessa coisa do disco voador. Para os flyers nós pegávamos um cartão postal do lugar e fazíamos uma montagem. Botávamos um disco voador chegando no Planalto Central. Tinha até um do Rio com o Cristo todo psicodélico (risos). É curioso que hoje tem uma gama de pessoas na faixa de 30, 40 anos, que o primeiro lugar onde elas ouviram música eletrônica na vida foi na XXXperience.

      No começo da XXXperience vocês davam ênfase a alguma vertente da eletrônica? Tipo o trance?
      Erick: Bem, no começo o mais forte era o techno, o house, daí o drum and bass entrou... Mas na XXXperience tinha muito pouca coisa de d'n'b. Na época tinha uma festa concorrente nossa que vinha com essa pegada, enquanto nós trabalhávamos o techno, o trance e o house. Mais pra frente, por um certo período, o trance ficou muito forte, principalmente o psicodélico. Isso rolou por um bom tempo. E bem precisamente na virada de 2007 pra 2008 nós demos uma outra cara pra XXXperience, pois queríamos ir além de uma rave, construir uma outra história, mais de festival, com diversidade, várias pistas. Criamos uma só de techno, uma só de house, uma só de electro-house e vertentes... e é o formato que segue até hoje. Já teve isso, de privilegiar um estilo, na época do psytrance. Mas, se você olhar hoje, o EDM é o Main Stage. Nessa ótica, o EDM é o estilo mais privilegiado, por estar no palco principal. Não que para os outros palcos a gente não dê o valor necessário, tanto cenográfica quanto artisticamente falando. O EDM tem um peso maior por que ele leva um grande número de pessoas. Ponto. Talvez, se estivesse levando um pouco menos público, entraria num outro espaço dentro do festival.

      Se um dia o grande filão foi o trance psicodélico, hoje a aposta é o EDM?
      Erick: Sem dúvida. Nicky Romero, Steve Aoki e etc. são os artistas que, em termos de quantidade, são os que mais atraem público. Mas acho que estamos conseguindo uma coisa legal que é cada palco ter uma característica própria e um público próprio. O festival virou produto de uma somatória. Psytrance leva umas seis mil pessoas, o techno leva umas três mil pessoas, o house leva mais umas cinco, seis mil, o EDM leva mais umas 10, 12 mil, então tudo isso aí completa e fecha um número final. Temos uma coisa bem segmentada nesse sentido.

      Então a cara da XXXperience em cada fase é dada pela demanda do público?
      Erick: O conceito da XXXperience hoje é ter a maior diversidade musical possível dentro do festival. Às vezes, por conta de demanda mesmo, acabamos restringindo um pouco, mas a ideia geral é você ter o máximo de coisas diferentes acontecendo ao mesmo tempo.

      O EDM é algo que emplacou como um fenômeno, né?
      Erick: É que esse estilo ficou mais evidente. Está rolando uma nova safra de artistas que chegaram com muita aceitação. Nós não tínhamos tantos artistas desse estilo musical em ascensão. Hoje, eu já consigo listar uns dez pra você logo de cara numa conversa. Antigamente tinha um, dois, representantes. Eram o Tiësto, o Paul Van Dyk... O som que eles estão fazendo agora é um pouquinho diferente do que se fazia sob o rótulo de dance music. É um som com uma pegada mais forte, mais de energia e explosão. Lá atrás, até o som que o próprio Tiësto tocava era um pouco mais melódico, mais trance. O som atual é um pouco mais pop eu acho.

      Os eventos da XXXperience não são festivais isolados, né? Vocês têm essa proposta de turnês, de edições especiais para coroar o fechamento de cada ciclo e tal. Essa ideia é muito legal.
      Erick: Normalmente a gente faz uma programação anual, que vai passar aí por três, quatro cidades. Às vezes até mais. Uma coisa que é bem característica da XXXperience é que, no final do ano, rola a festa de fechamento, que é o evento mais importante da programação, na Arena Maeda, em Itu. Esse é um evento até mais nacional, pois vem gente de todo o Brasil pra essa edição específica, que é quando a gente lança a turnê que vai acontecer no ano seguinte. Então, por exemplo, no caso da primeira parte da trilogia, o Vale dos Dragões: todo o cenário que será montado no evento do dia 15 de novembro, toda a decoração, é a que vai rodar o ano que vem até o momento de se fazer o preview da segunda parte, que acontece na festa de novembro de 2015. Vamos, então, apresentar o Vale dos Desejos, renovando mais uma vez toda a roupagem do festival. Essa mudança de roupagem é muito importante porque tudo é renovado, todas as pistas, a decoração inteirinha. Os stages todos mudam de cara, o de techno, o de house, o palco principal, enfim... O desse ano é até legal, pois o palco principal vai ser um dragão gigante. Tem 20 metros de altura por 40 de largura. Um monstro.

      Foram vocês que começaram com esse formato aqui no Brasil?
      Erick: Nós sempre viajamos muito, né, então é uma coisa que lá fora já acontecia direto. Víamos as coisas rolando lá fora e sabíamos que acabaria chegando aqui, nós só antecipamos. E fomos preparando o terreno até para que isso virasse uma cultura, porque era algo bem diferente do que o Brasil estava acostumado. A gente tinha um evento que era muito caracterizado e precisava promover uma mudança, essa mudança que já acontecia lá fora. "E de que forma fazer isso?", nos perguntávamos. Não podia ser uma virada muito drástica, né. Aí foi indo, indo, até chegar onde acabou chegando.

      Deve ser o maior stress estar à frente de um evento como esse. Com tantas coisas para cuidar, um cronograma para cumprir, garantir a segurança e que toda a proposta dos cenários funcione.
      Erick: Evento e apuros andam lado a lado (risos). E nós temos um agravante, que é fazer o evento ao ar livre, então você depende da ajuda de Deus. Que o tempo esteja lindo, que não vá ventar tanto. Se vier um temporal, alguma coisa, você tem que estar preparado. A gente só fica tranquilo umas duas horas depois que acaba o evento. O lance mesmo é que, num momento desse, você fica muito preocupado com as atrações principais chegarem no horário, e também que o público... por exemplo, se você espera um público de 30 mil pessoas, que essas pessoas entrem no evento. O primeiro alívio que você tem é quando você tem lá, uma expectativa de 30 mil, e já entraram 25. O segundo é quando a atração principal acabou de subir no palco. São os dois pontos em que a adrenalina dá uma abaixadinha.

      Quais acontecimentos você assinalaria como marcos importantes na trajetória do festival?
      Erick: Teve duas datas que acho que acabaram culminando com uma explosão da música eletrônica. Como a XXXPerience completa 50 edições bem no ano em que tudo começa a bombar, em 2002, depois dessa edição o evento ficou imenso em proporção e números, de uma forma geral. Para nós foi muito importante também a XXXPerience de 10 anos, a primeira vez que nós conseguimos colocar 30 mil pessoas num evento, em 2006. E 2010 conseguimos trazer o Paul Van Dyk, de quem nós éramos fãs. Tínhamos o sonho de ver ele tocando um dia nos nossos eventos. Já tínhamos tentado várias vezes, e em 2010 ele toca. Naquela época ele nem estava tão no auge, mas pra nós, como realização pessoal, era algo muito maior do que o que ele representava naquele momento pra cena. Quando estávamos aprendendo a gostar de música eletrônica, ele foi um dos primeiros artistas que a gente conheceu.

      Como vocês definem os conceitos dos cenários e a estética/tecnologia de cada ciclo do festival? Vocês chamam uns artistas pra darem ideias, surgirem com propostas?
      Erick: Tudo vai daquilo que a gente quer da XXXperience pros próximos anos. O primeiro passo é uma discussão interna, com nossos colaboradores, sobre como vai ser daqui pra frente. A partir do momento em que definimos a temática, a campanha pros próximos três anos, vamos começar a correr atrás da galera que vai produzir a cenografia em cima dessa temática. Nos últimos dois, três anos, temos trabalhado com uma produtora muito boa chamada Sagaz, do Du Gonçalves. Encaixou muito legal no nosso esquema, no que a gente quer, pretende, e ele que está encabeçando isso. E todos os artistas que estão entrando pra participar, vêm dentro do guarda-chuva dele. Aí a gente vai montando. Por exemplo, agora na próxima edição, do dia 15 de novembro, são quatro stages: um deles é o dragão grandão que te falei; tem um outro que é uma aranha, enorme, ficou animal; tem um outro, que na verdade é uma asa do dragão bem grande, que é o do psy; e o quarto ainda está a definir. Mas tudo vem com muita antecedência, uns nove, dez meses antes já temos mais ou menos em 3D como vai ser, pra gente ir estudando, ver se é isso mesmo e tal. Seis meses antes, a ideia é já estar com todos os projetos prontos, só esperando pra serem executados.

      É isso que torna o festival realmente atraente?
      Erick: As pessoas querem experiência, entrar num lugar inusitado onde terão algo diferente. É óbvio que o público que está lá quer ver o seu artista preferido, mas ele quer estar num lugar especial.

      Essa pegada da cenografia diferenciada já vem desde que a XXXperience existe?
      Erick: Desde a primeira edição, que o próprio Rica fez, com aquela ideia das linhas fluorescentes, dos geométricos. Então essa coisa de você estar num ambiente totalmente inusitado mora no DNA da festa. Com o passar dos anos o que aconteceu é que nós fomos os profissionalizando muito mais essa área e trazendo inovação e tecnologia pra que a coisa ganhasse corpo. A cada ano que passa o maior desafio é realmente trazer algo que vá surpreender o nosso público.

      Até que ponto é válido expandir ainda mais essa ideia? Trabalhar com video-mapping, uns lances interativos...
      Erick: A gente já fez video-mapping uma vez... Agora, a nossa maior pegada é muito mais essa coisa meio cinematográfica, de cenários totalmente inusitados, e tentar integrar esses cenários com a parte tecnológica, de você ter iluminação diferente, um projeto cenográfico diferente, painéis de led, laser, ou alguma abertura totalmente sincronizada. Nós tentamos montar esses cenários gigantescos e integrar a parte de tecnologia dentro deles. Não o contrário. A proposta da XXXperience é essa. O próprio Sónar que acontece em Barcelona, Japão e outros lugares, tem uma pegada 100% tecnológica. Lá o cenário é importante, mas em primeiro lugar vem a tecnologia. Na XXXperience a pegada não é bem essa. A gente tem a coisa inserida nesse escopo cinematográfico.

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      Erick Dias e Edson Bolinha (ao fundo).

      Eu vou estar mentindo se disser que a XXXperience foi uma desbravadora da eletrônica aqui no Brasil?
      Erick: No Brasil, sim, pode-se afirmar isso. Quando começou a cena no Brasil, ela era muito pequenininha. Tinha eventos de 600 pessoas. Naquela época, quando você falava que a XXXperience tava bombando, dava duas mil, 1.800. Entendeu? Então era uma cena que estava engatinhando. Já passamos por muitas coisas, enfrentamos rejeições gigantescas da parte do público. Pra grande maioria a gente era coisa do diabo, cara (risos). Pessoal não entendia e tinha preconceito. Nós tivemos que formar a demanda e convencer o poder público de que aquilo que estávamos fazendo era uma coisa séria, profissional, que era uma cultura, que realmente as pessoas estavam querendo isso. Todo um gigantesco processo de convencimento.

      Edson Bolinha: Me recordo de um evento, não sei se foi em 2007. Tinha um amigo nosso que estava fazendo um trabalho na Folha de S. Paulo e acabamos conhecendo algumas pessoas de lá. Ele levou uma turma pra festa, demos ingresso pra eles conhecerem o evento. E eu lembro que eles chegaram lá e ficaram positivamente assustados, porque não era nada do que eles imaginavam. Os caras ficavam "nossa, mas isso aqui que é uma rave?". Não tinha nada a ver com o que vendiam pros caras. E daí pra frente nós começamos a ser vistos de uma outra forma pela mídia. Tirando alguém ali da Ilustrada, que era do segmento, o restante dos jornalistas ficou completamente surpreso com a realidade. Alguns até passaram a seguir o evento.

      Eu me lembro de matérias associando tudo de negativo a festas de música eletrônica, fosse em locais abertos ou fechados.
      Erick: Uma das coisas que impediu uma evolução até mais rápida foi na verdade essa repressão que sofremos durante acho que uns quatro ou cinco anos. Forte mesmo, coisa de perseguição.

      Bolinha: Inclusive tivemos que criar uma resistência pro nosso lado, para que não acabasse esse tipo de evento no Brasil. Brigamos para criar uma legislação para que o evento pudesse acontecer com um padrão mínimo de qualidade. Porque tinha muita coisa ruim também, né. Isso tem que deixar claro, tinha muita coisa clandestina, mal feita, que dava base praquele conceito negativo. E isso já estava começando a interferir no trabalho de quem fazia direito. Nós até chegamos a fazer leis em determinados municípios onde tinha uma incidência grande de eventos de música eletrônica, para que nós conseguíssemos acabar com os marginais mesmo. Pode-se dizer que esse segmento correu um sério risco de ser exterminado.

      Vocês já faziam eventos antes do grupo No Limits? Já tinham passado por algo parecido?
      Erick: Começamos muito novos. Eu comecei com 18 pra 19. E aí você tem uma força maior. Então quando sofremos isso, em meados de 2006 até 2012 mais ou menos, era uma carga pesadíssima. Além dos orgãos públicos de maneira geral, prefeitura, polícia, bombeiro, você tinha ainda uma ofensiva pesada da imprensa. Acontecia algum incidente, a imprensa caia matando. Foi muito difícil. Não sei se hoje conseguiríamos aguentar, mas naquela época nós encampamos, fomos pra rua, mobilizamos o público, mobilizamos fornecedor, muita gente. Hoje nós pensamos em fazer um palco bacana e tal; naquela época, a preocupação era em abrir o evento. Lógico que pensávamos em como evoluir, mas estávamos muito mais preocupados com que aquilo não acabasse do que se superar nesse sentido. O único desejo era de que a coisa acontecesse, continuasse. Muito difícil... lutando contra todos. A cobertura mudou muito, melhorou bastante com a chegada de outros festivais, deu uma difundida um pouco maior e acabou ajudando. Hoje você tem uma tranquilidade maior para poder fazer o evento. Na época teve cidade onde a gente parou de fazer. Deu uma estafa, falei "Não aguento mais. Parou, não vou mais fazer, eles não querem mesmo, então não vamos". Sabe? Não é que não tínhamos apoio apenas, os caras caçavam a gente.

      A julgar pelo público que o festival atrai nos dias de hoje, a maior batalha foi vencida?
      Erick: Tudo que é novo causa estranhamento. Você pega o cara mais conservador, ele não sabe o que é, nem o que está acontecendo. Aí vem o trabalho de tentar desmistificar, para que ele possa, assim, reavaliar. Esse trabalho foi árduo e durou muito tempo. Se você chega pela primeira vez mostrando uma coisa pra pessoa, o cara vai ter um jeito de te escutar. Agora, se ele já sabe do que se trata, só que por meio de uma informação ruim, negativa, quando você vai falar com ele, a dificuldade de convencimento é muito maior.

      Bolinha: Uma coisa precisa ser levada em consideração. Indo pra 20 anos nós já estamos falando na quarta geração de frequentadores. Quem esteve nos cinco primeiros anos hoje já está em outra, salva uma parcela. Então você tem uma mudança musical, uma mudança de mentalidade. Mas isso é um ciclo natural de qualquer mercado. Nós vamos mostrar toda essa batalha pela solidificação da música eletrônica por meio da XXXperience numa exposição que vai rolar na festa de 20 anos. Nós já fizemos essa linha do tempo na de 10 anos, e vamos fazer de novo agora. É legal até pra mostrar como as pessoas se vestiam, é muito interessante. Na verdade a XXXperience é a grande desbravadora mesmo.

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