Étienne de Crecy Fala Sobre a História da House Music Francesa e seu Futuro

Não espere sets nostálgicos desse veterano dos anos 90 - ele está interessado em avançar no tempo.

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fev 24 2015, 12:00am

Quando o veterano da house music Etienne de Crecy atende o telefone em sua casa parisiense, a primeira coisa que me ocorre é pegar de fã e paparicá-lo por seu trabalho pioneiro como produtor nos anos 90, primeiro como integrante da dupla Motorbass com Philippe Zdar, e depois como incentivador da série original Super Discount de singles de 10", compilados no álbum de mesmo nome, lançado em 1996.

Depois, um silêncio constrangedor. Será que fui ofensivo quando o parabenizei por seu trabalho de quase 20 anos atrás, em vez de algo deste milênio? Então, ouço uma voz cara-de-pau ostentando um sotaque francês fortíssimo: "Isso demonstra que você não é tão novo", seguido de mais silêncio - finalmente, um ataque de riso a plenos pulmões.

De Crécy está com um humor jovial - e por que não estaria? Ele acabou de lançar a Super Discount 3, uma coletânea de dez músicas - incluindo os singles lançados anteriormente "Night (Cut The Crap)," "You," e "Hashtag My Ass" - que conta com aparições de convidados como P.O.S.; Dave, do De La Soul; Kilo Kish; Tom Burke do Citizens! e seu parceiro de longa data Alex Gopher, além de outros nomes notáveis. Ele está prestes a embarcar em uma turnê rapidíssima como DJ pelos Estados Unidos às custas de seus contribuintes, aterrissando no clube Verboten, no Brooklyn, e arrematando no Bardot, em Miami. (Depois de alguns anos se apresentando ao vivo em seu complexo "cubo" configurado no palco, "é um pouco aliviante" estar de volta ao básico, ele diz.)

De Crécy também teve uma incrível carreira de mais de duas décadas para se sentir animado. Junto dos integrantes do Daft Punk Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, de Hubert "Boom Bass" Blanc-Francard, de seu parceiro no Motorbass Philippe Zdar, do supramencionado Gopher e seus bróders de sonzera de estúdio, ele era mais do que apenas uma das luzes condutoras da cena house francesa de meados dos anos 90.

Como produtor, era incrivelmente criativo e um dos astros mais brilhantes no firmamento inteiro da house music. Ouça de novo, sei lá, "Ezio", de 1996 (do Motorbass) ou a "Liquidation Totale" do mesmo ano (originalmente da Super Discount); essas são faixas maravilhosamente esquisitas que soavam de forma única. Elas ainda soam meio de outra dimensão hoje em dia - e absolutamente arrebatadoras, sério.

"Isso é porque costumávamos fumar muito!", de Crécy fala, dando risada. "Nossas mentes ficaram meio piradas quando fizemos aquela música. E o jeito como criamos aquelas faixas foi muito rápido. Éramos jovens e não pensávamos muito, então fazíamos música muito rápido. E aquele tipo de música era tão recente, que era fácil soarmos como algo novo. De Crécy ainda usa uma metodologia de produção rápida e de não-pensar-muito. "Acho que isso é importante para a música eletrônica. É importante que seja rápido. Esse é um tipo de música apressado, saca? Você pode tocar uma música numa balada por seis meses, talvez - mas então, depois disso, nenhum DJ irá tocá-la novamente. Se você leva um ano para criar uma música, e ela só é tocada por uns seis meses, isso não é bom sinal". Claro, falar isso é ignorar que existem muitas faixas dos anos 90 que ainda levam a pista de dança a loucura quando um DJ toca num set. "É verdade, mas não foi nem de longe minha intenção. Mil desculpas por isso!".

Obviamente, o som dele evoluiu enormemente desde o disco do Motorbass e do lançamento do Super Discount. As excentricidades sonoras foram atenuadas em algum nível, e ao mesmo tempo que sua música tinha uma grande quantidade de esquisitice, agora tem um apelo de certa forma mais populista. Tem um funk sintético ("Family"), um synthpop efervescente ("Smile") e um electro que queima mais devagar ("Hashtag My Ass) - mas, no poderoso Super Discount 2 de 2004, a estranheza da produção de Crécy dos anos 90 está pouco presente. Há uma áurea circulando em torno de seu trabalho, no entanto - uma inocência alegre que faz com que sua música seja inerentemente envolvente, não importando o gênero.

"É essa inocência que é importante", de Crécy explica. "Mesmo se a mixagem não for perfeita ou algo assim, a emoção tem que ser direta e nova. Estou sempre tentando fazer isso, mas é bem difícil depois de 20 anos de carreira. Acho que experiência e conhecimento são uma grande desvantagem quando se faz música. É difícil manter as coisas com um aspecto de novo. Quando ouço uma música, geralmente consigo sentir se há muita reflexão e esforço por trás dela. E geralmente, quando é assim, não gosto." E é assim que ele evita a armadilha de pensar excessivamente: "Às vezes, troco de equipamento. Quanto testo um novo sintetizador, aperto um botão e ele fará um "bzzzz" diferente, e isso pode talvez me ajudar a fazer umas três músicas novas".

Apesar de suas vitórias passadas e sendo uma delas a de ter se tornado o expoente principal da house music francesa, de Crécy não é daqueles que vivem no passado - não vá aos shows dele esperando um set com seus maiores sucessos, como alguns de seus parceiros veteranos estão propensos a tocar. "Toco algumas coisas autorais, mas também toco música de outros artistas", ele diz. "Mas o principal é: não toco muitas faixas antigas, tipo dos anos 90. Definitivamente não sou um DJ nostálgico. Há tantos produtores novos talentosos hoje em dia. Gosto muito do G-house. Tá estrondando, mas ao mesmo tempo é funk e das ruas e soa muito bem. Caras como o Amine Edge & Dance... eles mandam tão bem. Eu amo".

Entretanto, mesmo com seu disco atual, sua turnê como DJ, um novo show ao vivo em potencial ("Estou trabalhando nisso!") e o orgulho que ele deve ter por sobreviver na cena de dance music por tanto tempo, de Crécy deve sentir uma certa satisfação por ser uma das figuras principais na explosão da house music francesa nos anos 90. Mas se ele sente, não demonstra.

"Eu era apenas uma pequena parte de um movimento", ele diz. "Sinto como se fosse parte de uma corrente em fluxo, e não guiando o caminho; a corrente era maior que qualquer um de nós separadamente. E ainda é, na verdade".

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Bruce Tantum é apenas um fã de tudo que é bom. Lá de Nova York ele contribui para o THUMP.

Tradução: Stefania Cannone