Fomos numa rave pós-revolução nas fábricas abandonadas de Kiev

A impetuosa juventude ucraniana abraçou o 'faça você mesmo' para reconstruir a diversão perdida na capital com festas em prédios abandonados.

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mai 3 2016, 12:00pm

O sol estava se levantando suavemente sobre a implacável paisagem dos arranha-céus de Kiev, a capital da Ucrânia. Estava sentado com meu novo amigo, Roma, em uma ponte inacabada sobre o rio Dnieper, observando a cidade. Era o fim da noite, e tínhamos decidido dar uma caminhada depois da CXEMA, a principal rave underground de techno de lá. Roma faz parte da crew da CXEMA. Na primeira festa deles, em 2014, apenas 100 pessoas compareceram. Hoje havia um público de mil pessoas. Perguntei por que a ponte, que parecia ter décadas de existência, permanecia incompleta. A resposta de Roma foi simples: "Essa é a Ucrânia".

Oito horas mais cedo, no começo da noite, eu havia caminhado por uma linha ferroviária desativada no extremo de Podil, um distrito da cidade. Fui atraído pela forte ideologia dos pioneiros do techno de Kiev. Em edições anteriores, a CXEMA havia acontecido em um bloco deserto de escritórios, numa pista de skate sob uma ponte e em fábricas desativadas. Esta última rolou no terceiro e quarto andares de uma antiga oficina de construção de navios nos estaleiros da cidade.

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Entrando lá, vi que havia algo de apropriado na ambientação da festa. As paisagens sonoras pesadas dos DJs ucranianos Voin Oruwu, Wulffius e Borys, este último residente da CXEMA, faziam uma homenagem não-intencional, mas ainda assim adequada à antiga glória do lugar, aos sons e a repetição dos homens e máquinas que um dia trabalharam lá.

Todas as fotos por Hunter Charlton

Parte da CXEMA, provavelmente, é sobre reivindicar os espaços industriais. Em um país assolado por uma crise econômica prolongada, faz sentido para a juventude revisitar o passado industrial produtivo da cidade em busca de respostas. Mas a CXEMA não é nostálgica. Pelo contrário: nascida da agitação política de 2014, que causou o fechamento generalizado da noite de Kiev, o coletivo tem os olhos no futuro. Slava Lepsheev, fundador da rave, me disse: "As noites são ainda melhores agora do que antes da revolução, e as coisas estão mudando em função do que os jovens estão fazendo".

Slava discoteca na Ucrânia há 15 anos, mas só viu a vida noturna crescer por causa da revolução. Não havia nenhum lugar para as pessoas dançarem em Kiev. O toque de recolher do governo e as suspeitas óbvias que as autoridades tinham de grandes agrupamentos de pessoas não criava exatamente o contexto ideal para uma cena de clubes vibrante. Mas os jovens sempre vão querer dançar, talvez ainda mais durante tempos de instabilidade e quando o futuro é incerto. E é por isso que Slava criou a CXEMA.

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Para contornar as barreiras burocráticas que podem dificultar a organização de uma rave barulhenta, tarde da noite, Slava organiza a CXEMA toda vez em um lugar diferente, longe do centro de Kiev. Isso também evita a atenção indesejada do departamento policial de narcóticos, conhecido por invadir os clubes no centro da cidade.

Eles cresceram em popularidade, mas como Slava diz, "não é sobre ganhar dinheiro". A CXEMA é sobre a juventude impetuosa e descolada de Kiev se unindo para se expressar. Eles estão encontrando uma identidade na música, na moda esportiva resgatada dos anos 90 e nos casacos de pele que gostam de usar.

Os levantes da Euromaidan, em 2014, em que mais de cem pessoas morreram protestando contra o governo, também tiveram um certo papel na formação da identidade da Kiev pós-revolução. Alguns membros da crew da CXEMA participaram da Euromaidan, incluindo um dos organizadores, Nazariy, que me contou sobre o efeito que ela teve na cultura jovem. "A Euromaidan uniu as pessoas e criou uma comunidade, mas quando ela terminou, queríamos dar continuidade a isso. É disso que a CXEMA se trata. A rave é política mesmo que as pessoas não percebam, é sobre comunidade".

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Durante a noite, conversei com vários jovens ravers na área de fumantes. Havia muitas opiniões contrastantes sobre a situação na Ucrânia para os jovens e o que fazer a respeito. Mas o que era óbvio a respeito dos ravers da CXEMA é que eles não queriam estar em qualquer outro lugar além de Kiev agora.

Algumas pessoas na rave me disseram que, antes de 2014, queriam se mudar para outras cidades europeias. Mas agora, apesar de tudo que está acontecendo no seu país — uma guerra no leste ucraniano, a moeda em colapso e corrupção política — eles queriam estar na capital ucraniana, participando da emergente cultura jovem que a CXEMA está criando.

A CXEMA também é sobre apresentar um techno excelente, é claro. Falei com Igor Glushko, residente da rave, sobre o techno em Kiev. "Na Ucrânia, alguns dizem que as pessoas gostam de techno porque ele é uma forma de escapismo; eu acho que só é a forma mais funcional de música para se dançar. Na CXEMA, você pode ver que o público é sempre muito receptivo e entusiasmado". Igor também é um dos organizadores da Rhythm Büro, uma festa em Kiev que está começando a atrair artistas internacionais, como Steve Bicknell, que tocou na edição mais recente da festa, em março.

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Os DJs que tocam na CXEMA são todos quase que exclusivamente da própria cidade. Depois dos seus sucessos recentes, a rave também se aprimorou em termos de produção. Entrei no salão principal e, vindo do teto, havia um intenso show de luzes que, junto com o techno local e o espaço industrial adaptado, criava uma espécie de experiência crua de raving que se tornou o padrão na noite mais vanguardista de Kiev.

Na noite seguinte à festa, uma segunda-feira, para me ajudar a fazer um balanço, a crew da CXEMA me levou a um bar num porão montado por um amigo deles. Eles brincaram sobre como agora podem beber em um lugar cujo proprietário não seja um oligarca. Me disseram que o que os jovens de Kiev estão fazendo no momento, e isso é parte do que a rave se trata, é criar uma cultura DIY. Eles falaram entusiasmadamente, até tarde da noite, sobre outras festas que estão sendo criadas na cidade, a importância crescente da moda e das artes visuais e uma revista política criada por um membro da crew.

Depois da noite que passei na CXEMA, sentado sobre o rio Dnieper, pude ver três pontes inacabadas, sem contar aquela sobre a qual estava descansando. A juventude de Kiev está frustrada com a corrupção política e com as coisas não sendo feitas, parte do motivo por que os manifestantes derrubaram o presidente Yanukovych em 2014. Roma me disse que participou da Euromaidan porque havia alguma esperança. Ele não acha que muita coisa tenha mudado. Mas, em vez de esperar que pontes sejam construídas, a juventude de Kiev está construindo agora as suas próprias pontes. Com a CXEMA, está criando uma comunidade de pessoas que adoram techno e moda, indo a festas e reivindicando os espaços esquecidos da cidade.

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Tradução: Fernanda Botta

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