Uma Geração de Crianças Holandesas Arruinada pelo Movimento Gabber

Onde estavam os pais dessa molecada? Quem os ensinou a dançar desse jeito?

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jun 17 2014, 5:00pm

A internet nunca se cansa do gabber – fenômeno das raves holandesas que durou pouco porém marcou época com um som que faz até os mais desagradáveis dubsteps soarem como um cover de "My Heart Will Go On" no ukulele. Com a coleção de roupas inspiradas no movimento gabber de Tom Nijuis, os remixes gabber do Soulwax e a exploração do tema no Big Night Out dos nossos irmãos do Noisey, não conseguimos parar de manjar a piroca da subcultura mais estranha da dance music.

Mas o momento mais WTF de todos é a Rave Party 1997 for Kids, Level 1 (Rave para Crianças, Nível 1), vídeo do YouTube que mostra crianças de até sete anos de idade enlouquecidas no que parece ser uma rave em um galpão, todas vestidas com o melhor da moda club dos anos 90.

Depois de passar 17 minutos assistindo a vídeos de criancinhas fazendo a hakken dance, sabia que não podia postar este clipe sem passar todas as informações referentes ao vídeo – porque, como um amigo comentou, "os evangélicos estariam colocando bombas embaixo dos carros desta galera se isto acontecesse nos EUA".

Uma pesquisa rápida revelou que este vídeo em particular, postado em outros lugares sob o nome Hakke and Zage Parties for Kids (Festas para Crianças Hakke e Zage), contém imagens de duas festas gabber para crianças, uma na cidade holandesa de Zoetermeer e outra em Zandaam, perto de Amsterdã. "Na verdade, era Dia das Crianças, com música e carrossel", diz Istvan Ertekes, entusiasta húngaro do movimento gabber que fez o upload do VHS da Hakke and Zage no YouTube. Acontece que enquanto estávamos ocupados jogando com joguinhos a laser e nos fartando de tanta pizza em parquinhos, uma geração inteira de pré-adolescentes holandeses se reunia em boates do tamanho de aeroportos de médio porte, dançando gabber e hardcore techno por horas a fio. Talvez isso explique por que muitos dos melhores DJs do mundo vêm da Holanda.

No fim dos anos 90 nos Países Baixos, hardcore e gabber não eram nichos obscuros ou pequenas sub-subculturas – eles estavam no centro da cultura popular holandesa. Músicas gabber eram distribuídas pelas principais gravadoras, programas de TV eram dedicados inteiramente ao estilo e festivais como o Thunderdome chegavam a reunir 20 mil ravers de uma só vez. "[Os organizadores do Thunderdome] ficaram ricos ao vender milhões de CDs no começo dos anos 90", diz Aron Friedman, editor do THUMP da Holanda.

Em 1997, um artigo da Billboard entitulado "Dutch Dance Spotlight" (Destaques no Dance Holandês) consagrava o movimento gabber como "a primeira subcultura genuinamente holandesa". A ID&T, organizadora das raves anuais Thunderdome (e das atuais Sensation e Mysteryland), também se encarregou das compilações de mesmo nome. Em 1997, as compilações venderam 3 milhões de cópias. Em janeiro de 2014, o quarto álbum de Katy Perry não chegou a vender 1 milhão de cópias.

Mas vamos à pergunta que todos querem fazer: onde estavam os pais dessas crianças? Como os evangelistas de direita do país não cortaram essa bagunça profana pela raiz?

"O gabber tornou-se tão popular que pessoas não o enxergavam mais como uma subcultura relacionada a drogas", explica Friedman por e-mail. "Mas sim, os conservadores protestaram, com certeza! A estação de rádio evangélica Evangelische Omroep (EO) fez inúmeros 'documentários' sobre as características satânicas do gabber, o que é igualmente histérico." Por outro lado, Hall of Shame, do selo Thunderdome, lista o programa televisivo evangélico Nederland Zingt entre seus inimigos jurados. Isso me lembra a treta entre o Jello Biafra e a Tipper Gore na Oprah.

Free Your Mind é um dos documentários produzidos pela EO no começo dos anos 90 que explorou as uma faceta marginalizada da house music na Holanda, explicitando seus pontos menos favoráveis. "Houve uma pequena revolta quando isso estourou, porque o documentário foi feito pelo EO", explica o cara que disponibilizou o vídeo no YouTube. "Quando entrevistavam alguém, fingiam ser de outra emissora, porque se não as pessoas entrevistadas não aceitariam."

Mas os cristãos não eram os únicos inimigos do hardcore na Holanda. Enquanto o estilo envolvia a cultura popular do país em seus maléficos tentáculos, muitos dos gabbers mais odiados eram traidores dentro do grupo.

Talvez o mais odiado tenha sido Gabber Piet, um ariano com brincos de pirata e a careca mais brilhante do mundo, que atingiu sucesso em 1996 com sua paródia gabber Hakke and Zage, hit de apelo infantil que fazia referência à música tema da série de TV  Peppi en Kokki. Embora sua visibilidade estivesse no máximo à época, Gabber Piet não foi o único a tentar criar um diálogo entre o pop e o gabber. "Nossa empresa está constantemente desenvolvendo novos conceitos", disse Robert-Jan Hertog, diretor da Mecado Records, em conversa para a Billboard em 1997. "Usar uma pegada hardcore é apenas uma das muitas coisas que fazemos."

A gravação tirou Piet de sua prestigiosa posição na ID&T Records e o colocou na lista negra da cena gabber, que, em 1997, já não gostava da ideia de ver o hardcore comercializado por grandes gravadoras e grupos pop. Piet ainda tentou se salvar ao lançar um álbum mais genuinamente gabber no ano seguinte chamado Love U Hardcore (a última faixa do álbum era essencialmente um pedido de desculpas à cena underground), mas já era tarde demais.


Os tais Vengaboys...

Alguns afirmam que um som mais eufórico e industrial, baseado no trance, acabou com o estilo holandês, deixando aos fãs um som mais aceitável e menos feroz. O sucesso comercial de grupos hardcore pastelão como os Vengaboys – e sua "We Like to Party" – ilustra perfeitamente este processo de comercialização, e não é surpresa que estejam listados juntamente a Nederland Zingt e Piet no Mural da Vergonha da Thunderdome, que continuou bem até meados dos anos 2000, perdeu as forças por volta de 2010 e finalmente fechou suas portas em 2012.

"Gabber Piet é amplamente considerado como o homem que deu ao gabber seu último golpe", explica meu correspondente holandês. A ascensão destes grupos, assim como Gabber Piet, só foi possível devido a um novo público composto de crianças e pessoas comuns, que, como sabiam as gravadoras, poderiam facilmente se tornar o maior público do gênero. E qualquer executivo malicioso da indústria do tabaco diria "Conquiste-os enquanto ainda são pequenos!". Para os desertores do gabber, esta campanha voltada para crianças pode ter sido a gota d'água. 

"Comecei a frequenter raves há quatro anos, agora estou velho e cansado", admite um adolescente fanático por gabber no documentário, Lola da Musica, de 1995. "Por quê?", pergunta o entrevistador. "As festas eram melhores antes. Agora tem muitas crianças. Parecia que estávamos num programa infantil."

Max Pearl está se montando pro revival gabber. Quem topa? Siga-o no Twitter: @maxpearl

Tradução: Pedro Taam