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Camilo Fuentealba

Tim Sweeney Faz da Pesquisa Musical seu Ofício

Felipe Maia

Felipe Maia

O homem por trás do seminal Beats in Space toca no Brasil neste fim de semana e falou sobre as dores e as delícias de trabalhar com música e rádio.

Camilo Fuentealba

Nem mesmo o Shazam, oráculo musical portátil, sabe de tudo o que toca por aí. O nível de erro e acerto do aplicativo que identifica músicas retrata quão secretos, desconhecidos e obscuros são os sons que rolam no Beats in Space, programa e selo do DJ e radialista norte-americano Tim Sweeney. Há mais de 15 anos, sua missão é jogar luz sobre faixas pouco conhecidas perfeitas para dançar. E às vezes ele também faz isso em festas, como vai rolar nesta sexta (24), no Club 88 em Campinas, sábado (25) em São Paulo na festa da Gop Tun e no domingo (26), no Rio de Janeiro na festa REBU.

Antes de vir ao Brasil, o Tim conversou com o THUMP por telefone direto de Nova York. A cidade o recebeu como estudante da New York University no fim dos anos 90. Mal começaram as aulas e ele estava trabalhando no seu programa de rádio que chega aos 16 anos em 2015. "Quando eu fui estudar na NYU, contatei a rádio e perguntei quando eu poderia fazer o programa", me disse ele. "Assim que eu cheguei em Nova York eu comecei a fazê-lo."

Leia: "15 Anos no Ar: Tim Sweeney Relembra a História do Beats in Space"

A cidade era uma festa para o jovem Tim. Ele trabalhou com Steinski — o mítico produtor de hip-hop que fazia colagens musicais antes mesmo do termo mashup nascer, viver e morrer — e foi ator principal na explosão da DFA Records, o selo que revelou nomes como Hot Chip e The Rapture. "Eu ia ao estúdio da DFA todo dia. Trabalhava com o Tim [Goldsworthy] e James [Murphy] no porão produzindo bandas para outros selos também, fazendo remixes", rememora.

Como radialista, Tim sacou que tinha uma obrigação: levar as novidades que rolavam por ali para além da ponte do Brooklyn. "No programa de rádio eu estava tentando apresentar ao mundo o que estava rolando em Nova York", me disse ele. "Acho que as pessoas estavam ouvindo o programa por causa disso." O Beats in Space fez o papel de mensageiro das novidades a reboque da internet que, até hoje, não limita o programa apenas ao dial local.

A curadoria que paira entre ilustres desconhecidos de agora e outrora consolidou o trabalho do DJ e radialista. Ora no estúdio, ora na pista, Tim está no rol de pares como Gilles Peterson e Pete Tong. Seja onde for, a responsabilidade não muda. "Eu sinto uma obrigação de pesquisar músicas porque esse é meu trabalho", disse ele. Na nossa conversa, também falamos sobre música brasileira, papel de rádios universitárias e Shazam. A gente precisava descobrir o que até ele mesmo teve de perguntar ao aplicativo.

THUMP: Em um de seus programas recentes, o 789, tinha uma música brasileira, não é? Aquilo ali é de um comediante brasileiro.
Tim Sweeney: Sim! É um compacto que comprei em Londres. Ser... Sérgio Mallandro?!

Isso mesmo! A letra fala de um cara que conheceu uma travesti...
Pois é! Na verdade, aquela música é uma versão de uma música italiana do Pino D'Angio.

Entendo. Dá pra ver que você realmente pesquisa sobre suas músicas.
Nesse caso eu estava pesquisando umas músicas em compactos e conhecia a música Pino D'Angio. É um clássico da disco music italiana. A versão brasileira soa quase igual à música italiana, com exceção das letras. Fico feliz que você reparou.

Você garimpa alguns vinis nas turnês?
Sim! Com certeza! Lembro que tem uma região em São Paulo onde tem todas as lojas de discos. E eu estou sempre procurando uns discos. Eu gosto muito da música brasileira antiga, estou sempre procurando coisas dessa época. E coisas novas também. Estou sempre de olho no que os caras da Selvagem estão fazendo (fiz um LP com eles) e coisas que o Fatnotronic tem feito. Tem bastante música boa!

Você se enxerga como influência desses caras e de outros DJs pelo mundo? Afinal, você é um DJ e radialista bem conhecido.
Bem, talvez. Eu fico feliz se for isso o que acontece. Os caras da Selvagem eu conheço faz tempo. Eu gostei muito quando eles fizeram a seleção para o programa de rádio com aquelas coisas brasileiras mais antigas. Eu gosto de pessoas que realmente pegam o melhor que dá para encontrar. Talvez vocês, brasileiros, já tenham ouvido esses sons da Selvagem antes, mas eu realmente admiro fazer algo como isso: pesquisar profundamente a música de uma cultura para apresentá-la a outras pessoas. É legal representar o Brasil dessa maneira.

É um tipo de registro histórico...
Exatamente. É algo pra se ter orgulho.

Além de comprar discos, você toca com eles nas festas. Você sente alguma diferença ao tocar com vinil?
Eu ainda toco com vinis, mas também toco em CDJ. Eu prefiro fazer um set todo em vinil, mas muitos clubes hoje em dia não são preparados para discotecagem em vinil. Você tem problemas, interferência, eco, enfim, não entrega a música da maneira certa. Mas quando eu tenho os vinis comigo, fica mais clara a ideia de ser DJ no sentido de pensar um set. Juntar os discos para um set é mais natural pra mim que buscar as faixas numa lista de MP3, numa CDJ ou no pen drive. É um jeito diferente pra minha mente processar as coisas. Eu me sinto melhor quando tenho os discos comigo, mas também tenho de me adaptar à situação hoje em dia e tem muitas vezes que você não pode tocar vinil.

Deve ser complicado transportar os discos durante as turnês. Como você vai fazer aqui no Brasil?
Essa é a parte boa de ter música em formato digital. Eu tenho mais opções que apenas minha bolsa com os discos. Isso é legal, mas se você tiver muitas opções pode ser muito. É melhor ter um limite e fazer algo com isso. Se for uma seleção sem limite é difícil. Não dá pra pegar o fluxo. Pro Brasil com certeza eu vou levar meus vinis. O set provavelmente vai ser metade nos discos, metade digital.

Mesmo que seja apenas uma edição [do programa de rádio] por semana, você tem de se dedicar ao máximo.

Vamos falar sobre sua carreira. Quando e por que você se mudou para Nova York?
Isso foi em 1999. Eu me mudei para estudar música na New York University, onde faço o programa atualmente.

Como foi estudar música vindo de uma história com música eletrônica da sua adolescência? Mesmo hoje em dia, os cursos superiores de música frequentemente são orientados para música clássica, as belas-artes.
Eu tive aulas de música em Baltimore, onde vivia. E lá tinha um curso de música eletrônica. Eu usava muito um software chamado Max/MSP, dava pra fazer umas coisas bem doidas. Aí eu descobri que a NYU tinha um curso de música eletrônica e o professor principal desse curso, na época, era um cara muito famoso por causa desse software. Pensei em ir pra lá porque eu realmente queria aprender mais com ele.

Também fiz os estudos clássicos em música, com teoria, prática auditiva. Você tem que entender coisas básicas para entrar no curso, tocar um instrumento. Eu toco saxofone e piano. Eu já sabia como ler música.

Para mim, o grande lance era estar em Nova York, as pessoas que você conhece em Nova York, os estágios que pude fazer na cidade. O primeiro estágio foi com o Steinski, uma lenda do hip-hop. Eu aprendi muito com ele. Depois eu trabalhei na DFA Records. A universidade foi legal, mas sinto que aprendi muito com as pessoas com quem trabalhei aqui em Nova York. Acho que também tive muita sorte de estar no lugar certo, na hora certa.

Como foi viver em Nova York e fazer parte dessa cena no início dos 2000? Foi o momento em que a DFA estava explodindo, assim como bandas como Strokes e Yeah Yeah Yeahs.
No programa de rádio eu estava tentando apresentar ao mundo o que estava rolando em Nova York. Acho que as pessoas estavam ouvindo o programa por causa disso. Eu sempre botava no ar as coisas novas da DFA antes de serem lançadas, por exemplo. Os convidados do programa eram da cena de Nova York porque eu sabia que as pessoas queriam ouvi-los. E não quer dizer que eu só tocava música daqui porque eu não sou influenciado somente pelo que toca aqui. Mas sempre pensei no programa de rádio como algo ao vivo na terça-feira em Nova York. Por isso, quando eu tocava, queria que os ouvintes também pensassem nisso. E não que poderiam escutar depois, baixar. Sempre pensei que devíamos fazer aquilo para Nova York.

Eu ia ao estúdio da DFA todo dia. Trabalhava com o Tim [Goldsworthy] e James [Murphy] no porão produzindo bandas para outros selos também, fazendo remixes. Era bem legal. Hoje em dia também é legal. Sempre tem gente me mandando música nova. Naquela época, na verdade, muitas baladas estavam fechando. Agora parece que tem outros clubes abrindo, mas tudo mudou pro Brooklyn em vez de Manhattan, que era onde as coisas aconteciam antes.

Tem alguma coisa que você aprendeu com eles ou com o Stainski que você considera muito importante?
Essa é difícil. Sinto que aprendi tudo com esses caras. Eles sempre terão meu respeito porque sem eles eu seria uma pessoa completamente diferente. Aprender com o Steinski foi uma grande experiência porque ele é de uma geração mais antiga que a minha. E ele é um nova-iorquino de verdade. O James é de Nova Jersey e o Tim é do Reino Unido, então eles não são nova-iorquinos de verdade. E o Steinski era das antigas. As histórias que ele tinha eram fantásticas. E ele também tinha um programa de rádio. Eu escutei a vários dos seus programas: ele se esforçava muito para aquilo acontecer. Ele me disse que a esposa dele falou uma vez: "Ou você para de fazer o programa ou vamos nos divorciar" porque ele passava a semana inteira trabalhando na rádio. Eu entendo o que ele fazia no sentido de se esforçar. Mesmo que seja apenas uma edição por semana, você tem de se dedicar ao máximo.

E com Tim e James foi mais algo de ver uma cena explodindo. Foi empolgante. E vi as coisas mudarem, crescerem. Foi uma experiência muito vasta, não tem como dizer apenas uma coisa.

Como você se meteu a fazer um programa de rádio?
Quando eu estava na escola eu vim para Nova York em um curso de férias. Eu falei com a rádio da NYU porque eu já tinha feito alguns programas de rádio com o meu irmão. Eu dei a eles uma mixtape do que eu tocava e eu toquei nesse programa de rádio umas duas vezes. Dali em diante eu sabia o que poderia rolar. Quando eu fui estudar na NYU eu contatei a rádio e perguntei quando eu poderia fazer o programa. Assim que eu cheguei em Nova York eu comecei a fazer o programa.

A maioria das rádios americanas são controladas por duas empresas e musicalmente é tudo programado por computadores que demonstram o que deve ser tocado para aumentar a audiência.

Aqui em São Paulo nós temos a maior universidade da América Latina, a USP. Eu costumo escutar a estação de rádio deles, mas raramente eu escuto alguma música nova por lá. Mesmo se tem alguma coisa nova, não é algo recente pra valer como você e a rádio em que você toca, a WNYU, se propõem a fazer. Na sua análise, qual o papel de uma rádio universitária?
Aqui a gente tem uma faixa FM que dividimos com outra universidade. Todo dia a gente tem música nova. Temos um programa grande só de música independente. E as rádios universitárias se construíram à base de música independente. Não é uma rádio comercial, não ganhamos dinheiro de publicidade, mas parte da responsabilidade de ter uma faixa reservada para nós é tocar música que não seja mainstream. Podem rolar programas com hip-hop, rock ou R&B mais popular, isso não é contra as regras da rádio, mas parte disso tem que ser underground. Eu gosto disso. São programas que você não vai encontrar em outras estações.

Eu escutei algumas rádios norte-americanas algum tempo atrás e perdi a conta de quantas vezes eu ouvi "Uptown Funk"...
Hahaha! Então, a maioria das rádios americanas são controladas por duas empresas e musicalmente é tudo programado por computadores que demonstram o que deve ser tocado para aumentar a audiência. Ninguém se arrisca, entende? Essas rádios estão se preocupando com coisas que a gente não tem de se preocupar. O lance é se arriscar. E é isso que eu quero.

Quando eu escuto seu programa, conheço muita música nova. Como essa história funciona para você? Desde pesquisa até a escolha das faixas.
Eu sinto uma obrigação de pesquisar músicas porque é meu trabalho. Eu curto isso assim como eu curto conhecer novos gêneros musicais, pesquisar as coisas mais raras e mais legais, encontrar coisas que ninguém sabia. É uma sede insaciável. E faço isso sempre: em lojas de discos, conversando com amigos, escutando centenas de discos que me enviam, no YouTube, no Discogs, no SoundCloud, no iTunes. É tanto que às vezes é muito para meu cérebro. Se sinto isso em frente ao computador eu sei que é a hora de sair e ir a uma loja de discos. Esse é meu momento para relaxar.

Você percebe alguma diferença entre seu trabalho como DJ numa rádio e DJ numa festa?
Sim! Com certeza. São duas coisas diferentes, embora sejam relacionadas. Quando você toca numa festa tem uma galera na sua frente. Você responde a isso, muda o que você toca em função da sensação, do momento. É um toma lá dá cá. Você tem que botar fogo na pista. Esse é o seu trabalho como DJ. Mas quando eu toco no programa, sou só eu. Eu fico olhando pra uma parede! Dá pra imaginar uma festa, às vezes tem uma ou duas pessoas no estúdio, mas é uma sensação diferente. Eu gosto disso também porque é um lugar legal... Às vezes, quando você toca em clubes, no horário nobre da noite, você fica preso, entende? Isso é meio chato. Na rádio você pode tocar alguma coisa que não seria legal para aquele horário em uma pista, mas as pessoas precisam ouvir aquilo.

E falando de música eletrônica, uma vez que você pesquisa muito sobre isso, pra onde ela vai agora?
Acho que ela ainda está crescendo. Ao menos aqui tem novos clubes abrindo, crescendo e melhorando. Comparado a quando eu me mudei pra cá, os clubes não são tão grandes. Mas Nova York tem tanta história, tanta gente, sempre vai ter algo rolando aqui. Tem rolado boas festas aqui, ainda tem gente trabalhando. Teve gente que se mudou pra Berlim, é caro viver aqui, mas é caro viver em grandes cidades... São Paulo é uma cidade cara! Aqui em Nova York, a minha festa preferida acontece há mais de 30 anos. É a The Loft, do David Mancuso. Essa festa é bem Nova York: umas 300 pessoas, o melhor sistema de som, todo mundo dançando. Ter isso aqui é uma das coisas especiais da cidade. É toda uma cena que está sempre mudando, como uma roda: as coisas ficam muito melhores e depois ficam piores pra, a seguir, ficarem melhores de novo. Sinto que as coisas agora estão ficando melhores. No mundo todo.

Pra fechar: quais são as últimas músicas do seu Shazam e qual música ou disco de 2015 que você mais gostou até agora?
São as músicas dos últimos programas: "Thirstin", do Jack J; "Mari Ori", da Lena Willikens; "No Doubt About It", do Hot Chocolate; e "You'll Always Find Me In the Kitchen at Parties", da Jona Lewis. Meus discos favoritos desse ano até agora são Levon Vincent e Palmbomen II LP.

O Beats In Space vai ao ar todas as terças à noite.

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