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Fui a uma Rave de Café da Manhã com Vários Bebês e Hippies Esquisitões

A Morning Gloryville é uma festança matutina em Londres que mistura balada, exercícios, comida orgânica ruim e muita frase de auto-ajuda.

Jonny Chadwick

Jonny Chadwick está sendo enviado às piores e mais esquisitas experiêcias baladeiras possíveis a pedido do THUMP. Após ir a uma noite temática da Margaret Thatcher em uma boate no oeste de Londres chamada Maggie's Club, e "A Pior Balada da Europa", a Klute, pensamos que seria engraçado mandá-lo a uma "rave" antes do trabalho, no meio da semana, cheia de hippies e bebês. Coitado.

Uma característica marcante da classe média ocidental é reimaginar seus hobbies como algo além de diversão. Ao invés de chamar uma longa viagem ao Sudeste Asiático de férias, é uma "jornada", adicionando aí um senso de espiritualidade a sopas de peixe, passeios de elefante e fazer tatuagem bêbado. Drogas não são usadas para fazer o drop do grave parecer ainda maior ou esquecer uma semana horrorosa de trabalho, mas sim para descobrir uma parte de si mesmo que antes era inatingível. Não se desliga os serviços de localização de dispositivos móveis para economizar bateria, mas sim para "fugir de tudo".

Morning Gloryville, a "rave de café da manhã" de Londres é um bom exemplo disso como provavelmente você descobrirá. Em qualquer noite em um bar de uma cidade qualquer, a música do Empire of the Sun "We Are the People" pode tocar . A maioria das pessoas não esboçará nenhuma reação, algumas podem dizer: "Lembra daquela música de 2010?" e algum boboca pode até cantar junto o refrão. Mas no Oval Space, em uma sombria quarta-feira de maio, esta é uma experiência transcendental. Garotas trajando neon jogam seu braços em torno de homens com cocares de índio americano suspeitos, olham nos olhos uns dos outros e cantam, ardentemente: "Somos as pessoas que mandam no mundo!". O fato de não estarem tão longe da verdade é levemente aterrorizador.

A ideia por trás do evento é permitir que trabalhadores ocupados possam curtir uma balada que normalmente perderiam à noite por conta de sua jornada de trabalho desumana, aulas de Pilates e ansiedade com o sono perdido. Rolando das 6h30 às 10h30, o evento é uma mistura de balada normal (mas com uma estética psytrance feiosa) e uma aula de exercícios, com uma dose extra de autoajuda agressivamente positiva. Como esperado nessa vibe "do bem", não há venda de bebida alcoólica – mas sim de smoothies, lanches orgânicos, tapetes de ioga e massagens gratuitas.

Nas pickups está Rob Da Bank, o DJ #1 da BBC e idealizador do Bestival. Misturando um house indefinível com Paul Simon, ele deixa o público louco com cada batida. Não rola dança, exatamente. É tipo brincar de amarelinha só com os quadrados 2 e 3.

Essa descrição resume cerca de 80% do público, gente pulando e se divertindo pacas. Porém, como este é um local em que todos distúrbios de personalidade são contemplados, há uma significante minoria de "Bravers", um grupo de ravers que não gosta de ser chamado por esse nome, fazendo seu lance próprio. Um saxofonista de macacão serpenteia pelo público, pontuando sua jornada com rajadas sinceras de entretenimento a todos, e um sósia de meia-idade do Salsicha de Scooby Doo cortava a todos com uma série de movimentos em que parecia estar polindo algo.

Mas os cabeças do lance não estão felizes com a área designada para pista de dança, então sobem no palco para mostrar suas formas e roupas extravagantes. Por mais que praticamente todo mundo estivesse usando neon e glitter, não existe um visual uniforme. Os estilos variam de "zebra Willy Wonka" a "caminhão de sorvete humano", e "Sebastian Tellier unicórnio".

Uma geração perdida é algo para se arrepender, mas a decisão de muitos destes irritantemente satisfeitos, curtidores da manhã de trazer seus filhos para a festinha é questionável. A maioria dos pais clama por fotos, levando seus filhos aos céus para mostrar que as vibes hippies de neon transcendem gerações. A reação infantil às viradas de Rob Da Bank é variada. Uma garotinha pula alegremente pelo palco por quase toda a manhã, enquanto no outro extremo do espectro (e do cômodo), um molequinho carrancudo está ali sentado com os fones de ouvido Urbanears de seu pai, assistindo desenhos em um iPad.

Com seus pijamas e diversos acessórios mágicos, as crianças estão bem bonitinhas, o que me faz pensar se é tão estranho quanto parece levá-las a uma sala enorme e colorida, com músicas felizes e lanches saudáveis. Mas aí percebo que essas são aquelas crianças que crescerão pra usar camisetas do tipo "Faça Amor, Não Faça Guerra", com dreadlocks e brincar com malabares.

Por outro lado, a Morning Gloryville consiste de um grupo de pessoas relativamente inocentes e bastante sinceras em sua paixão de saltitar por aí com roupas brilhantes antes de ir trabalhar. Porém, há uma afetação bizarra em torno de tudo isso. Os adesivos espalhados pelas paredes com frases de autoajuda das quais é impossível escapar, as opções de alimentação ditatoriais, as atividades complementares claramente yuppies e a natureza consumista do "o que você quiser, quando quiser" desse negócio de balada pela manhã. Afinal, tudo o que há em Londres é feito para essas pessoas, por que eles não poderiam ter sua própria boate?

O Jonny odeia fazer essas pautas merda: @jonnychadwick93

Traduzido por: Thiago "Índio" Silva