O Coachella 2016 provou por que a dance music não precisa do EDM para prosperar

Sem escalar nenhum nome da estirpe de David Guetta, o festival no deserto da Califórnia aponta sua bússola comportamental para nomes da eletrônica underground.

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abr 20 2016, 8:00pm

Courtesy of Coachella

Em algum momento daquele show lendário do Daft Punk em 2006, o Coachella deixou de ser apenas um festival de música e se tornou uma verdadeira instituição cultural. Hoje, o mundo inteiro acompanha o fuzuê no deserto do sul da Califórnia (graças ao YouTube, as redes sociais e a H&M), que funciona como um espelho — quando o assunto é música, estilo e tendências — da cultura jovem norte-americana.

Nos últimos anos, vimos a dance music se tornar cada vez mais onipresente, e com a presença de nomes como LCD Soundsystem, Disclosure, e Calvin Harris como headliners no palco principal (além de aparecerem em mais quatro de oito palcos dedicados quase que exclusivamente ao gênero), podemos dizer que a balança está a favor do tuntz tuntz — mesmo com a concorrência de um Guns N' Roses.

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E nada prova tanto o crescimento da dance music no Coachella como o desenvolvimento do Palco Yuma. Integrado ao festival há apenas dois anos, a boate-em-uma-tenda deixou de ser uma caverninha intimista de dance music underground, tornando-se um enorme pico de house e techno. Sábado (16) contou com ícones do underground do momento como The Black Madonna, SOPHIE, Matthew Dear, DJ Koze, Mano Le Tough, Nina Kraviz e Justin Martin.

O piso no Yuma é meio escorregadio, elástico, composto por uma espécie de laminado que destaca os passinhos. Sempre há espaço pra dar aquela pavoneada, tudo com bastante gelo seco no ar pra dar aquela sensação de anonimato — como toda boa boate. Aquela balançadinha casual vira um passo digno de Fred Astaire, e apesar de seu tamanho bastante expandido, a tenda ainda tinha aquele clima de intimidade. Talvez isso tenha muito a ver com os rostos familiares da cena dance underground de Los Angeles que estiveram ali durante todo o final de semana. Ou talvez tenha sido a adição de lugares confortáveis para se deitar e relaxar nos fundos, local de muitas trocas de carícias (e quem sabe mais) ao longo do festival.

LCD Soundsystem/Foto de Erik Voake para o Coachella

O retorno triunfal do LCD Soundsystem encerrou os trabalhos no palco principal e foi, para muitos, o ponto focal da noite de sexta (15). De fato, foi uma das poucas ocasiões em que pensei em deixar a Tenda Yuma durante todo o fim de semana. Os pioneiros do dance-rock de Nova York sempre foram uma banda indutora de nostalgia por algo que você nunca nem viveu — "All My Friends" e "I Can Change" são clássicos emocionados indie. Com o retorno, eles estão nessa de nostalgia real pela era dourada da cultura hipster millennial em seus primórdios. Acontece que a banda é atemporal, no final das contas, e até mesmo mandaram um cover engraçadinho de "November Rain", do Guns N' Roses e "Heroes" de David Bowie, provando que a banda segue torta e consciente de si como sempre.

De todas as bandas daquela época, nenhuma juntou indie rock e dance cheio de sintetizadores como o LCD Soundsystem, e ninguém o fez desde então. Por melhores que sejam, ainda é muito mais difícil dançar com seus sons mais roqueiros do que com seus hinos indie-dance de inspiração disco. A batida 4/4 do house faz a maior parte do trabalho pra você, mantendo seu corpo se mexendo no ritmo, mas sem a segurança aeróbica e frequente do bumbo, seus membros têm que se virar e os descuidos e pulos sem-noção do público são um reflexo sincero das imperfeições que conferem ao rock sua personalidade. Ainda assim, ao final do set deles, lá estava de volta à Yuma para ver Marco Carola.

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O toque do vocalista do LCD, James Murphy, também foi sentido em outra parte do Coachella. Despacio, o retiro-disco itinerante que ele construiu junto dos 2ManyDjs (os irmãos Dewaele do Soulwax) foi um marco discreto, inédito no festival e em sua primeira aparição nos EUA. Com falantes modulares enormes e piso xadrez, tudo é feito com a disco em mente. Fora isso, é alto pra caralho e o combo Dewaele/Murphy discotecou por horas mantendo cabeças balançando e pezinhos batendo o final de semana inteiro.

Há dois anos, o meio-domo gigantesco de cores e luzes piscantes na Tenda Sahara exemplificaram a fanfarronice do EDM no momento. Se aquela bolha não estiver estourando, está pelo menos diminuindo, e a mudança no som da Tenda Sahara é reconhecimento disto. Lá se foram os Martin Solveigs e Nicky Romeros, substituídos por uma programação mais eclética que incluiu artistas de hip-hop (Rae Sremmurd, Vince Staples) e sutilezas como Tchami e ZHU — deep EDM, ou se você preferir, "mid-room house,". A Sahara ainda é a experiência sensorial mais arrebatadora do festival inteiro, a tentativa do Coachella de competir com a EDC, e este ano o tema se voltava a uma pirâmide cúbica colorida gigantesca.

Teatralidade no palco Do LaB /Foto por Watchara Phomicinda para Do LaB/Coachella

O Do LaB começou em Coachella no ano de 2005 como uma minúscula estrutura acompanhada de programação musical. Esbarrei no LaB pela primeira vez sem noção alguma, sob efeito de cogumelos, no meio de uma apresentação do Lucent Dossier Experience, espécie de circo dance psicodélico da própria produtora. Foi uma das experiências mais viajandonas da minha vida. Posso dizer que gostei mesmo de ver o crescimento do LaB a ponto de se tornar seu próprio palco ao longo da última década. Agora, seu visual de casco de tartaruga de cores outonais abriga milhares e conta com produção única em meio ao festival, com programação totalmente eletrônica e uma dose sui generis de esquisitice.

Os sets-surpresa no Do LaB, que fizeram a fama do palco, incluíram nomes como The Glitch Mob, RUFUS DU SOL e Bob Moses. Mas o destaque do final de semana inteiro foi a seleção artística de Job Jobse na noite de domingo. Não tinha muita gente ali, mas foi aquele tipo de set que não fez muito barulho e que muita gente comentará por anos e anos.

A programação do Do LaB pode ser meio loucona de vez em quando, mas ela também já mostrou alguns toques de premonição, botando pra tocar nomes como Griz, Gorgon City e Mija antes de qualquer um destes estourarem. O astro da Dirtybird Records Justin Martin deixou para trás as apresentações no Do LaB feitas há alguns anos e foi o responsável pelo encerramento na Tenda Yuma no sábado (16), na véspera de seu 37º aniversário e do lançamento de seu segundo disco, Hello Clouds.

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Em meio à batida caótica e contínua de seus graves tortuosos, Martin fez referência às suas raízes ao cair numa série de sons jungle. No começo, o Coachella era um grande palco do drum and bass — a primeira edição do festival incluiu apresentações de LTJ Bukem e Roni Size — o que foi foi diminuindo com o tempo, mas a volta de Martin a esta sonoridade agora fora de moda contou com o único amen break de todo o final de semana.

DJ Koze/Foto cedida pelo Coachella

Pouco antes, DJ Koze mandou ver naquele que facilmente foi meu set favorito do fim de semana, uma rara apresentação do tímido veterano alemão que exala criatividade e classe. Em algum momento, ouvi um carinha encostar no amigo e dizer: "Sou só eu [que acho] ou esse cara sabe mesmo o que está fazendo?", antes de sair por alguns instantes da tenda, me certifiquei de ir ver algo na pegada de Jack Ü, Zedd (que trouxe Ke$ha como convidada-surpresa), e Flume – artistas que encerraram no Outdoor Theater, tradicionalmente o segundo maior palco do festival. Em determinado momento da noite de domingo (17), todos os palcos contavam com shows eletrônicos, com exceção do Death Grips na Tenda Gobi, apesar de que você poderia incluí-los caso sua visão da pista de dança inclua noise-rap, coisa que a minha não — não sei como se dança com aquela barulheira toda.

Sia/Photo por Erik Voake para o Coachella

Durante o sem-fim de apresentações eletrônicas no domingo, esbarrei com alguns amigos da faculdade (com os quais só pareço encontrar em festivais e casamentos, mesmo morando próximos uns dos outros) e acabei sendo levado ao palco principal, o que, aliás, foi bastante fortuito, pois pude assistir o show incrível de Sia. A cantora australiana, que não é lá muito fã da imprensa, fez uma apresentação seríssima e cinemática, junto de Paul Dano, Kristen Wiig, Tig Notaro, e a espantosamente expressiva dançarina adolescente Maddie Ziegler, todos com perucas preto-e-branco como a própria Sia, atuando de forma melodramática e teatral, ao ritmo da música. Nunca tinha visto nada assim antes. A longa lista de hits compostos por Sia é formidável. Ela tocou canções compostas por si, gravadas por outros artistas como "Diamonds" (Rihanna) e "Titanium," (David Guetta), antes de encerrar com "Chandellier", momento em que parei pra pensar quantos ali estavam em prantos, fato que atribuo à ressaca precoce.

Encerrei o final de semana com uma intensidade mais familiar: techno de bater cabeça. Maceo Plex literalmente estourou os falantes na Yuma no finalzinho de domingo durante seu set. Foram dez minutos de puro silêncio ao passo em que um montão de técnicos tentava dar jeito no problema. Em outros locais do festival, as pessoas pareciam estar muito bem para quem estava na terceira noite, mas quando as luzes foram ligadas momentaneamente na Yuma, muita gente ao meu redor parecia ter virado bicho. Respeito muito. Como é tradição agora, passei os últimos momentos do festival no Do LaB.

A relação do Coachella com a dance music fechou um ciclo. A programação dos primeiros anos contava com desbravadores de todo o espectro dance e um equilíbrio estável entre sons eletrônicos e orgânicos. Na primeira década deste século, indie rock e pop dominaram os palcos, apesar de muitos virem do electro proto-EDM. Ao longo dos últimos cinco anos, o EDM como o conhecemos dominou tudo. Agora essa moda diminuiu, mas a dance music está mais presente que nunca no festival. É ótimo ver aquela abordagem progressiva dos primeiros dias do Coachella representada tão fortemente agora. Não vi nada além de música eletrônica durante todo o evento, e isso sem nem ter entrado na Tenda Sahara direito. Mesmo há alguns anos, isto seria impossível. O EDM pode muito bem ter reacendido a chama eletrônica no coração dos ianques, mas se a programação deste ano é sinal de qualquer coisa, é de que o gosto nos EUA amadureceu rapidamente e a dance music não vai a lugar algum.

Tradução: Thiago "Índio" Silva

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